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	<title>Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! &#187; intervenções</title>
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	<description>Porque sem memória não há futuro.</description>
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		<title>A organização operária no crepúsculo do sindicalismo livre*</title>
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		<pubDate>Thu, 25 Nov 2010 12:29:03 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[[ texto de João Madeira** ] * in Manuel Loff e Teresa Siza (Coordenação Científica), Resistência. Da alternativa republicana à luta contra a ditadura (1891-1974), Lisboa, CNCCR/INCM, 2010, pp 63-71 ** Investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH da Universidade Nova de Lisboa. No âmbito do ciclo de conferências LUTA ARMADA E RESISTÊNCIA REPUBLICANA [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><small>[ texto de João Madeira** ]</small></p>
<p><span style="font-size: x-small;">* in Manuel Loff e Teresa Siza (Coordenação Científica),<strong> Resistência. Da alternativa republicana à luta contra a ditadura (1891-1974)</strong>, Lisboa, CNCCR/INCM, 2010, pp 63-71</span><br />
<span style="font-size: x-small;">** Investigador do Instituto de História Contemporânea da FCSH da Universidade Nova de Lisboa.</span></p>
<p style="text-align: right;"><span style="font-size: x-small;">No âmbito do ciclo de conferências </span><span style="color: #c00000;"><span style="font-size: x-small;"><em>LUTA ARMADA E RESISTÊNCIA REPUBLICANA – O REVIRALHO<br />
</em></span></span><span style="font-size: x-small;">Organização: NAM &#8211; IHC/UNL, na livraria Ler Devagar, em Lisboa.<br />
</span><span style="font-size: x-small;"><strong>5ª conferência em  25 de Novembro de 2010</strong></span></p>
<p>A 29 de Maio de 1926, as forças militares golpistas do general Gomes da Costa progrediam para sul, utilizando os comboios das linhas de Minho e Douro e da CP, sem que os aguerridos sindicatos ferroviários esboçassem um gesto de resistência. Chegavam assim impunemente às portas de Lisboa, adquirindo novos e mais substanciais apoios políticos.</p>
<p>Nesse dia, o Partido Comunista Português iniciava nesta cidade o seu II Congresso. A resolução aprovada a propósito do pronunciamento militar fala de um golpe fascista, alertando para os tempos difíceis que aí viriam para a classe operária e os trabalhadores.</p>
<p>Sai, aliás, logo do Congresso uma delegação encarregada de difundir essa resolução pelos jornais da capital e de contactar a CGT, Confederação Geral do Trabalho, e a Esquerda Democrática. Destas organizações, a reacção não podia ser mais decepcionante – apenas desinteresse e passividade.</p>
<p><span id="more-975"></span></p>
<p>O jornal <em>A Batalha,</em> órgão da CGT, divulga nesse mesmo dia a sua posição face ao acontecimento, contraditando ou, pelo menos, antecipando-se ao Comité Confederal da central sindical: <em>“Nos acontecimentos de agora não intervém o movimento sindical porquanto não se verificou ainda qualquer atitude de hostilidade para com a organização operária. De resto não é hábito enveredar por caminhos que não sabemos onde vão dar.”</em></p>
<p>Esta displicência e esta ambiguidade que, num primeiro momento, representaram fosse apoio, activo ou passivo, ou fossem expectativa e “neutralidade” face ao golpe, configuraram uma fronda nebulosa que permitiu o triunfo de Gomes da Costa, e da “ditadura nacional” que anunciava, contra uma República associada ao poder, tão desgastado como detestado, do Partido Democrático.</p>
<p>Por parte da CGT, será preciso esperar mais alguns dias, pelo início de Junho, para que o seu diário apele à “greve geral revolucionária” e à resistência armada contra a Ditadura e pela Liberdade, enquanto o primeiro esboço de resposta operária surge num comício a 9 desse mês, já o golpe havia triunfado e já se haviam conchavado os equilíbrios expressos no Governo recém-formado.</p>
<p>Neste comício, no Parque Eduardo VII, convocado pelo Comité de Defesa Proletária constituído de véspera, intervêm Manuel Joaquim de Sousa pela CGT, Emídio Santana pelas Juventudes Sindicalistas e Sobral de Campos pelo PCP. Esta espécie de frente única, de algum modo aí expressa, beneficia ainda do apoio da corrente socialista reformista, presente em muitos sindicatos.</p>
<p>Mas, quando <em>A Batalha</em> pretende divulgar o acontecimento, é advertida pelos Serviços de Censura à Imprensa, já instituídos. As advertências tornar-se-ão ameaças institucionalizadas e a censura adquire feição policial.</p>
<p>A tentativa de a CGT lançar a greve geral não consegue desenvolver-se face ao cerco militar montado pelas tropas governamentais nas zonas industriais e ao estabelecimento de um ameaçador recolher obrigatório.</p>
<p>Acentua-se a repressão sobre os meios operários, condiciona-se a actividade dos sindicatos à autorização policial e impede-se a sua organização sectorial e territorial, caindo quaisquer ilusões sobre a natureza ditatorial do novo Governo e os seus objectivos perante o movimento operário e sindical.</p>
<p>Pelo início de 1927, definhando as respostas num circunscrito quadro sindical, ganha vulto o apoio popular à necessidade de enfrentamento armado à Ditadura que germinava nos meios políticos e militares republicanos.</p>
<p>A participação organizada de comunistas e a presença de sindicalistas revolucionários no golpe militar de Fevereiro de 1927, alimentando as extensas redes e contingentes civis, reflecte bem esse movimento, cuja direcção política e operacional estava, porém, nas mãos dos sectores republicanos que o congeminaram.</p>
<p>A reacção do Governo foi brutal e impiedosa. Encerram-se jornais, sedes de sindicatos e partidos; são presos e deportados centenas de activistas e dirigentes. A derrota de Fevereiro de 1927 teve efeitos nefastos nos partidos e nas organizações operárias e sindicais, suscitando retracção e dispersão.</p>
<p>No Partido Comunista, o Comité Central recomposto voltaria a apoiar uma nova tentativa de golpe em Junho desse ano, novamente derrotado e suscitando outra vaga repressiva com um longo cortejo de perseguições, prisões e deportações. Em 1928, o PCP estava reduzido a um pequeno grupo de 50 militantes em Lisboa e 20 no Porto e a sua tendência sindical – os partidários da Internacional Sindical Vermelha – praticamente inactiva.</p>
<p>No campo do sindicalismo revolucionário, a CGT ainda consegue, depois de Fevereiro de 1927, manter em funcionamento o Conselho Confederal, mas em Novembro a sua sede é assaltada e completamente vandalizada pelas forças militares, tendo então esse órgão passado a designar-se Comissão Inter-Federal de Defesa dos Trabalhadores, sendo constituída a Federação Portuguesa de Solidariedade aos Presos e Perseguidos por Questões Sociais.</p>
<p>De qualquer modo, a actividade sindical contrai-se e as Federações que dão corpo à Comissão Inter-Federal são organizações definhadas e esvaziadas. Subsiste, é certo, uma rede sindical de base, sectorialmente plasmada, com alguns sindicatos importantes e uma imprensa própria que, no campo do sindicalismo revolucionário, publica a <em>Vanguarda Operária</em> e um pequeno conjunto de títulos, como <em>O Eco Metalúrgico</em>.</p>
<p>Nos núcleos operários radicalizados que, dispersos pelo País, apoiam essa rede reúnem-se armas e explosivos num ambiente que tende igualmente a conectar-se com os sectores republicanos reviralhistas em conspiração permanente.</p>
<p>Sem nunca interromper completamente a ligação à Internacional Comunista e à sua organização sindical mundial – a Internacional Sindical Vermelha –, o PCP inicia em 1929 um processo de refundação, onde se destacam Bento Gonçalves e a célula do Arsenal da Marinha, a que pertence, que controlava um importante sindicato, relançando a sua actividade, designadamente no movimento operário, com a publicação de <em>O Proletário</em> e a criação da CIS, Comissão Inter-Sindical, no ano seguinte.</p>
<p>Doravante, sob o impacto da repressão governamental, reavivavam-se querelas antigas entre os partidários da ISV e a CGT, ateadas em torno de novos e velhos temas naquele tempo de dificuldades acrescidas, com a disputa pela hegemonia do movimento operário em pano de fundo.</p>
<p>Este esforço coincide com a derrota do golpe reviralhista de 1931-32, com o qual se encerra um ciclo de resistência à Ditadura, que, tendo tido fundamentalmente expressão militar, contou com a participação activa de sectores operários e populares, de influência comunista e sindicalista.</p>
<p>Do ponto de vista da luta sindical, sem que um fio de continuidade por alguma vez se quebrasse completamente, reemergem na viragem dos anos 20 e nos seguintes factores de descontentamento e mobilização em torno dos salários e das condições de trabalho. Foi, aliás, neste contexto que a tendência comunista constituiu a CIS.</p>
<p>No início dos anos 30, a pretexto da regulamentação do horário de trabalho, o Governo ensaia a instituição de Comissões “Paritárias” destinadas a conciliar interesses, que o Governo rapidamente quer alargar à resolução da generalidade dos conflitos entre o Capital e o Trabalho.</p>
<p>Estas Comissões, constituídas por representantes dos patrões e dos sindicatos, mas com estes em minoria, suscitam a oposição, principalmente da CIS, que se ergue em defesa da independência dos sindicatos, granjeando apoios e reforçando a sua influência.</p>
<p>Mas foi sobretudo em torno do problema do desemprego, que atingia grandes proporções em finais de 1931, que a situação se polarizou, ainda que as respostas a dar às medidas governamentais por parte da CIS e da CGT fossem bem distintas.</p>
<p>A CGT sustentava a consigna “Trabalho para Todos”, reivindicando a diminuição da jornada de trabalho para seis horas e um salário mínimo que tivesse em conta o custo de vida, sem distinção de sexo ou profissão, enquanto a CIS adoptava, por sua vez, o lema “Pão e Trabalho”, admitindo uma jornada máxima de oito horas e um subsídio de 75% do salário aos desempregados.</p>
<p>Estas duas concepções defrontar-se-iam, logo a propósito da criação da Caixa de Auxílio aos Desempregados para atribuição de um subsídio, que a CIS entende como uma concessão governamental à sua reivindicação, mas que a CGT rejeita, considerando-o como uma esmola, imoral e indigna.</p>
<p>Os socialistas reformistas, por sua vez, apostavam fundamentalmente nas obras de fomento como forma de combater o desemprego, defendendo também um salário mínimo e uma jornada de trabalho de oito horas.</p>
<p>A todos, unia-os apenas a recusa ao desconto de 2% sobre os salários dos trabalhadores como forma de financiar essa Caixa de Auxílio, enquanto aos patrões caberia apenas 1% de desconto. Multiplicam-se, por isso, pelo País e por iniciativa das duas principais centrais sindicais, condição que a CIS reclamara já em 1931, os contactos com associações de classe, as concentrações, manifestações e greves, conseguindo impedir a entrada em vigor do Decreto que previa os descontos em Junho de 1932, como pretendia o Governo.</p>
<p>Para 29 de Fevereiro, Dia Internacional dos Desempregados, o PCP e a CIS, na sequência de uma intensa campanha de agitação que vinham desenvolvendo desde o ano anterior, ensaiam um dia de greve geral acompanhada de manifestações com brigadas de choque e barricadas, ainda que sem grande sucesso e sem conseguir lograr o apoio da CGT.</p>
<p>Juntas, as duas organizações, embora agora com o apoio frouxo da CIS, tentarão organizar, semanas mais tarde, no final de Maio, uma jornada de protesto contra a aplicação dos 2% de desconto, em que a CGT consegue, através dos sindicatos que influencia, vários dias de greve no Porto e na Covilhã e manifestações e concentrações junto das administrações dos concelhos em Almada, Valença, Silves ou Torres Vedras.</p>
<p>Estas acções em Fevereiro e Maio, de extensão bastante limitada, suscitam uma repressão governamental desabrida com inúmeras prisões, que têm um efeito devastador sobre a estrutura orgânica do PCP e com o assalto policial à sede do Sindicato do Mobiliário de Lisboa, onde funcionavam a CGT e outros organismos sindicais, tendo sido presas duas centenas de dirigentes e activistas, entre os quais a maioria do Conselho Confederal.</p>
<p>Num quadro de esvaziamento político das reivindicações operárias, agora centradas em aspectos mais especificamente laborais, aparentemente liberto da atracção face aos manejos da oposição republicana, que apesar de militarmente derrotada continuava a conspirar, a CIS, pelo pragmatismo da sua acção, beneficiaria desta situação num processo de deslocação da correlação de forças que se lhe vai tornar progressivamente mais favorável face ao declínio da hegemonia dos sindicalistas revolucionários da CGT.</p>
<p>Grandes e decisivos embates travar-se-ão, no entanto, ao longo de todo o ano de 1933 contra a corporativização do movimento sindical, culminado com a tentativa de greve geral revolucionária de 18 de Janeiro de 1934.</p>
<p>A legislação de 1933, pelo seu impacto, obrigando à dissolução das associações de classe existentes ou à integração nos novos Sindicatos corporativos, não deixa indiferente nenhuma corrente sindical, acabando por aproximá-las na busca de entendimentos que permitissem enfrentar o Governo.</p>
<p>O caminho não é fácil e está atascado em concepções sectárias e autocentradas por parte de cada uma das correntes, sejam comunistas, anarquistas, socialistas reformistas ou autónomos. Se todos reconheciam a necessidade de uma Frente Única para enfrentar o Governo, não faltava quem se considerasse núcleo central constitutivo dessa Frente e visse todos os outros num plano de subalternidade.</p>
<p>A CIS toma a dianteira e apresenta uma proposta de plataforma reivindicativa às restantes estruturas sindicais, que assentava, designadamente, no horário semanal de 40 horas, na aplicação do princípio “a trabalho igual, salário igual”, no pagamento de 75% do salário aos desempregados ou no fim dos 2% de desconto.</p>
<p>O objectivo da CIS era constituir um Comité Nacional de Frente Única com a participação de todas as correntes com base num acordo estabelecido entre si, segundo o qual recusavam a transformação dos sindicatos “<em>em capacho do Patronato e dos burocratas do Secretariado das Corporações</em>”, mas exigindo também o restabelecimento das liberdades, o fim dos tribunais de excepção e as reivindicações em torno do salário mínimo, do horário de trabalho e do subsídio de desemprego exclusivamente financiado pelo Estado e pelos patrões.</p>
<p>Mas, para a CGT, se admitia convergir nesse sentido, não queria um plano de igualdade com a CIS, nem de resto com os socialistas reformistas da FAO, Federação das Associações Operárias, por isso procura que os contactos se façam sindicato a sindicato.</p>
<p>O Comité Confederal da CGT, onde se destaca Mário Castelhano, organiza-se nesse sentido, percorrendo o País para enquadrar na CGT todas as organizações sindicais federadas, ou não; montando um aparelho de propaganda próprio e iniciando o fabrico de bombas e explosivos para a acção directa.</p>
<p>São também desta altura os primeiros contactos com o grupo militar republicano do tenente-coronel Ribeiro de Carvalho, de modo a procurar articular a greve geral com os manejos reviralhistas em gestação, como que retomando atavicamente uma via cheia de derrotas, a avaliar pelas experiências anteriores, em 1927 e 1931.</p>
<p>Porém, diziam, não se tratava agora de repetir o papel subordinado ou adoptar laços orgânicos formais com os sectores republicanos reviralhistas, como então se verificara, mas de procurar explorar uma simultaneidade de movimentos.</p>
<p>A CIS procura contornar esta tentativa de descarte por parte da CGT, insistindo nos apelos e defendendo uma campanha de propaganda contra a legislação sindical corporativa a culminar numa greve geral, sem lhe conferir, no entanto, um carácter violento.</p>
<p>Esse movimento seria orientado por uma Frente Única que, deixando de fora a FAO “social-reformista”, incluía também a CGT e a Federação dos Transportes, tida como estrutura sindical autónoma, mas na realidade controlada pelos comunistas, o que asseguraria ao PCP maioria na direcção da Frente.</p>
<p>Na realidade, a constituição da Federação dos Transportes tinha sido dinamizada e dirigida por José de Sousa, que era, ao mesmo tempo, do Secretariado do Comité Central do PCP e o seu responsável sindical em todo este processo, desempenhando um papel particularmente activo depois da reorganização de 1929.</p>
<p>Apesar das advertências formais da Direcção do PCP, também por esta parte havia contactos com os chefes republicanos e, mesmo que isso fosse feito a nível individual e que aparentemente não houvesse intenções de articulação ou de simultaneidade entre os dois movimentos, dificilmente os dirigentes do PCP seriam indiferentes ao evoluir da situação nos meios republicanos.</p>
<p>A aproximação entre a CIS e a CGT verifica-se já Verão dentro, em Agosto, admitindo a inclusão da FAO na projectada Frente Única que, entretanto, adoptara face à situação uma atitude substancialmente mais combativa.</p>
<p>Essa unidade construía-se em torno de um Comité de Unidade entre as diferentes organizações que, sem iludirem as divergências que as continuavam a separar, aceitam finalmente um caminho comum, expresso através de manifestos conjuntos, primeiro, e de uma entusiástica preparação da greve geral, depois.</p>
<p>É, efectivamente, de uma greve revolucionária que se trata, em que as paralisações de trabalho previstas eram acompanhadas de planos detalhados de acções violentas, sabotagens e ataques a instalações, para o que se tornava necessário fabricar bombas e explosivos e montar todo um extenso aparelho logístico que assegurasse a sua distribuição e utilização.</p>
<p>No interior do próprio PCP reemergem tendências para a acção directa que vinham sendo pacientemente combatidas e contrariadas pela Direcção de Bento Gonçalves. Este entusiasmo geral, que anima comunistas e sindicalistas revolucionários, ateia-se em passo relativamente acertado com as movimentações dos grupos e redes reviralhistas, onde também prepondera o major-aviador Sarmento de Beires.</p>
<p>Os decretos para a criação dos sindicatos corporativos são de Setembro de 1933, e às associações de classe é dado o prazo de três meses para alterarem os Estatutos, adaptando-os ao modelo corporativo de conciliação de classes ou, então, extinguirem-se para não serem compulsivamente encerrados, o que viria a acontecer na esmagadora maioria dos casos.</p>
<p>O Governo acompanha a movimentação política e militar dos republicanos e desencadeia, em Novembro, uma extensa operação que prende e deporta largos sectores que conspiravam activamente.</p>
<p>Por entre críticas a uma intencional precipitação dos republicanos, o PCP e a CGT convergem na intensificação da preparação da greve geral com a aceleração do processo de constituição de comités quer comunistas quer sindicalistas revolucionários que, funcionando separadamente, eram coordenados através de comités de enlace verticalmente constituídos.</p>
<p>Mas voltarão a ceder a contactos renovados com o que tinha subsistido das redes reviralhistas, que agora sustentam a simultaneidade entre a greve geral e o golpe militar.</p>
<p>Nesta fase, em Lisboa e noutras zonas do País, a repressão policial detecta e prende sectores de dirigentes sindicais que preparavam a greve, assim como militares que preparariam o golpe simultâneo, como o tenente Carlos Vilhena. É neste contexto que Mário Castelhano, que coordenava o movimento pela parte da CGT, é igualmente preso, depois da data inicial para a eclosão da greve ter sido adiada de 9 para 18 de Janeiro de 1934.</p>
<p>Todavia, a polícia está a par do movimento e ocupa cidades e vilas, mas não consegue evitar que na Marinha Grande fosse o Comité Revolucionário a ocupar os locais centrais da vila e a  reabrir o sindicato. Em Silves, Almada, Sines ou no Barreiro, realizaram-se greves e manifestações de duração e amplitude variáveis, mas expressivas. Em Coimbra, a central eléctrica foi sabotada e os transportes paralisados. Noutras localidades, registaram-se acções de sabotagem de vias-férreas, equipamentos e instalações ferroviárias, assim como postes telefónicos e telegráficos.</p>
<p>É também verdade que o apoio dos ferroviários falhara e isso representara um golpe importante no desencadear de todo o movimento, já que a greve nesse sector seria o aviso para que as acções no Algarve, por exemplo, avançassem.</p>
<p>A repressão que se vinha desenhando desde as vésperas da greve alargou-se brutalmente, num total de quase 700 militantes e dirigentes sindicais presos, a maioria remetidos a Tribunal Militar Especial, condenados e muitos deles deportados com penas entre dez e vinte anos de prisão e pesadas multas. Alguns seriam, inclusivamente, levados para o campo de concentração do Tarrafal, inaugurado dois anos depois.</p>
<p>Nesta enorme vaga repressiva, a CIS, por exemplo, teria perdido 70% dos seus membros. O movimento sindical fica decapitado e desarticulado, e os efeitos desta pesada derrota serão duradouros, provocando vigorosas discussões que se arrastarão anos fora, designadamente dentro das próprias prisões, como no Tarrafal, cristalizando divergências que separaram irremediavelmente comunistas de sindicalistas revolucionários.</p>
<p>A reorganização da CIS inicia-se praticamente logo após o 18 de Janeiro, com base na ideia de que era preciso agarrar os militantes que conseguiram escapar à sanha repressiva, reforçando o seu carácter clandestino, bem expresso, aliás, no folheto <em>Como se organizam e funcionam os sindicatos ilegais</em>.</p>
<p>Poucos meses depois, <em>O Proletário,</em> órgão da CIS, edita-se com regularidade, bem como jornais e boletins de fábrica ou de sector, no âmbito de uma rede de pequenos sindicatos clandestinos, ensaiando-se, inclusivamente, estruturas intermédias, como a União Regional Sindical do Centro que abrangia a região de Lisboa e Setúbal.</p>
<p>Mais uma vez, José de Sousa teria uma acção decisiva neste difícil trabalho de contrariar os efeitos da repressão e relançar o trabalho corrente sindical comunista.</p>
<p>A CGT, por sua vez, perdeu os meios com que alicerçou a sua influência – sindicatos dispondo de instalações para a realização da sua actividade e com imprensa própria. Tornou-se numa organização de militantes, sem base de massas, circunscrita à dimensão de pequenos grupos locais com uma mera actividade de propaganda, sem capacidade real para se alargarem ou renovarem os seus quadros.</p>
<p>O PCP mantinha a consigna de Frente Única, mas percebia que qualquer entendimento com a CGT era praticamente impossível, quanto mais não fosse porque entendia que a CIS era a única central sindical que resistira e se mantinha em actividade, pelo que o apelo à unidade entre as duas organizações era substituído pela intenção de unidade <em>em baixo,</em> ao nível dos locais de trabalho, entre trabalhadores comunistas e sindicalistas revolucionários.</p>
<p>Na realidade, a CGT, com a derrota do 18 de Janeiro de 1934, acentua irremediavelmente o seu declínio e perca de hegemonia no movimento operário. São os comunistas, apesar das suas debilidades, das suas limitações e das próprias circunstâncias em que se desenvolve a sua intervenção que a vão adquirindo, embora os anos que se seguem não sejam propriamente de afirmação do PCP ou da sua corrente sindical, mas de resistência, de esforço pela sobrevivência em tempos particularmente agrestes.</p>
<p>A capacidade de enquadramento dos trabalhadores pelos sindicatos clandestinos era bastante limitada, sem comparação com os Sindicatos Nacionais instituídos pelo Governo, de sindicalização obrigatória.</p>
<p>E a sua própria intervenção era rudimentar, operada em condições de clandestinidade, profundamente sectária e permanentemente acossada pela polícia.</p>
<p>As orientações do VII Congresso da Internacional Comunista, em 1935, determinando que o combate ao fascismo se devia realizar dentro das suas próprias organizações de massas, levava a que, considerando que os sindicatos ilegais não desenvolviam nem tinham condições para desenvolver trabalho de massas, se inflectisse o trabalho sindical para o interior dos próprios Sindicatos Nacionais, numa estratégia “entrista”.</p>
<p>Esta nova directiva suscitaria resistências e geraria fortes tensões internas no PCP. Quadros que no rescaldo das sucessivas levas repressivas haviam sido colocados no exterior e passado pela Escola Leninista de Moscovo, como Francisco Miguel, uma vez regressados ao País procuraram inverter essa situação e implementar uma linha sindical consentânea com as orientações gerais do movimento comunista internacional que determinava, num país como Portugal, dominado por uma ditadura de tipo fascista, a infiltração e a conquista por dentro dos Sindicatos Nacionais.</p>
<p>Mas nem por isso, nesses anos, o resultado foi profícuo. O sector sindical do PCP resistia a essa inflexão, resistia a dissolver os sindicatos clandestinos e a recentrar-se nos sindicatos do regime.</p>
<p>Na realidade, o PCP, para além da repressão implacável que sofria, que o tornavam um partido débil e muito vulnerável, atravessava, por outro lado, um momento marcado por contradições e incapacidades para a implementação das novas orientações do movimento comunista internacional.</p>
<p>As várias tentativas de constituição de uma Frente Popular em Portugal, nos moldes que o VII Congresso da Internacional Comunista determinara, revelavam-se frágeis, estiolando em divergências programáticas entre o PCP e as correntes e sectores que a aceitavam integrar e promover, designadamente republicanas, já que a CGT sempre se manteve de fora de todo este processo, ainda que se dispusesse e participasse em acções convergentes e de unidade na acção contra o regime.</p>
<p>O grande problema que bloqueava a constituição da Frente Popular, cujo pilar principal deveria assentar numa Frente Única Operária, era justamente a inexistência de partidos operários e organizações sindicais operárias, que lhe conferisse a base operária de massas, considerada motor indispensável.</p>
<p>Isto porque o Partido Socialista Português (SPIO), que alimentava a FAO, para além de ser um pequeno partido, esvaziado mesmo em terreno laboral por uma prática reformista num contexto pouco propício, havia em 1933 decidido em congresso a sua própria dissolução.</p>
<p>Por outro lado, as circunstâncias históricas do País desde o golpe militar de 1926 haviam levado ao declínio da CGT que em meados dos anos 30, já sem base de massas, estava reduzida a um pequeno e sectarizado grupo.</p>
<p>Os Sindicatos Autónomos, que haviam constituído uma modesta componente do movimento sindical, organizada principalmente por acção do Sindicato do Arsenal do Exército e dinamizada por alguns quadros sindicais experientes que haviam passado pelo PCP, como Silvino Ferreira, não dispunham igualmente de capacidade de intervenção e de amplitude de apoio, ainda que viesse a alimentar já num quadro de Frente Popular uma tendência sindical radical de feição republicanizante.</p>
<p>O enorme entusiasmo com que a vitória da Frente Popular em Espanha foi recebida nos meios operários encontrava, portanto, o movimento sindical num quadro de grandes dificuldades, pelo que a indispensável solidariedade com os trabalhadores espanhóis, já no contexto da Guerra Civil, tornar-se-ia pouco expressiva.</p>
<p>Não obstante, em Janeiro de 1937, as bombas contra os ministérios e outros pontos simbólicos do apoio do Governo português a Franco; assim como, depois, em Julho desse ano, o atentado contra Salazar  ou, de modo mais difuso, as acções de sabotagem  contra interesses dos nacionalistas espanhóis constituem formas expressas de solidariedade aos trabalhadores e ao campo republicano espanhol.</p>
<p>Ainda assim, estas acções foram promovidas em nome da Frente Popular e em enlace activo directo com a CGT. Silvino Ferreira, dos Sindicatos Autónomos e Fernando Tavares, pelo PCP, em nome da Frente Popular, e Emídio Santana, da CGT coordenariam, aliás, o atentado a Salazar.</p>
<p>Por outro lado, muitos sindicalistas, anarquistas e comunistas, exilados em Espanha ou para aí se dirigindo, numa acção voluntariosa e corajosa, combateram de armas na mão pela República, perdendo aí alguns deles a própria vida.</p>
<p>A derrota republicana na Guerra Civil de Espanha, a derrota do embate pelo sindicalismo livre em 1934, num contexto nacional de refluxo acentuado no movimento operário, o quadro internacional de emergência dos fascismos e de guerra mundial em eclosão determinariam o encerrar penoso de um ciclo.</p>
<p>O sindicalismo livre desapareceria por longos anos e seria necessário que o rumo da nova guerra mundial se inflectisse favoravelmente ao bloco Aliado para que se fosse abrindo um período de resistência, no qual se sedimenta e reforça a hegemonia do PCP.</p>
<p>Após a “reorganização” 1940-41, no primeiro congresso ilegal, dois anos mais tarde, é consagrada a linha sindical de entrismo nos Sindicatos Nacionais, colocando a actividade sindical, fortemente policiada e governamentalizada, em níveis recuados e mitigadamente economicistas.</p>
<p>Nas novas condições de disputa política e sindical, o PCP não encontrará nesse terreno organizações minimamente implantadas que se posicionem sequer como aliados. A Frente Única, tão longamente ambicionada, será protagonizada pelo próprio Partido Comunista e por sectores de vanguarda sem partido.</p>
<p>Esta Frente, que tomará expressão através das Comissões de Unidade que intentou porfiadamente constituir nas fábricas e empresas onde dispunha de organização partidária, acabaria em boa medida por sustentar o ciclo grevista da guerra.</p>
<p><strong>Referências bibliográficas</strong></p>
<p>FRANCISCO, José, <em>Páginas do Historial Cegetista,</em> Lisboa, Sementeira, 1983.</p>
<p>FREIRE, João, <em>Anarquistas e Operários. Ideologia, ofício e práticas sociais: o anarquismo e o operariado em Portugal, 1900-1940,</em> Porto, Edições Afrontamento, 1992.</p>
<p>LOPES, Maria Filomena Rocha, <em>O Movimento Sindical Português na Transição do Sindicalismo Livre para a Formação dos Sindicatos Nacionais,</em> Dissertação de Mestrado em História Contemporânea, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2005.</p>
<p>PATRIARCA, Fátima, <em>A Questão Social no Salazarismo 1930-1947,</em> vol. I, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1995.</p>
<p>PATRIARCA, Fátima, <em>Sindicatos contra Salazar. A revolta de 18 de Janeiro de 1934, </em>Lisboa, ICS, 2000.</p>
<p>SOUSA, Manuel Joaquim de, <em>Últimos Tempos de Acção Sindical Livre e do Anarquismo Militante, </em>Lisboa, Antígona, 1989.</p>]]></content:encoded>
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		<title>A Ditadura Militar: a tomada de poder e os instrumentos de repressão</title>
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		<pubDate>Thu, 11 Nov 2010 11:46:34 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[[ texto de Irene Pimentel ] - Num contexto de revoltas reviralhistas e de actividade anarco-sindicalista e, em menor grau, comunista, contra a Ditadura Nacional implantada pelo golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, foram criadas e reforçadas as estruturas repressivas, nomeadamente da polícia política, da censura à imprensa e do aparelho judicial [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: x-small;">[ texto de Irene Pimentel ]</span></p>
<p><strong>- Num contexto de revoltas reviralhistas e de actividade anarco-sindicalista e, em menor grau, comunista, contra a Ditadura Nacional implantada pelo golpe de Estado de 28 de Maio de 1926, foram criadas e reforçadas as estruturas repressivas, nomeadamente da polícia política, da censura à imprensa e do aparelho judicial militar.</strong></p>
<p><strong>- Nesse contexto, digladiavam-se, no seio do novo regime militar várias forças. Entre estas, contavam-se, por um lado, a dos militares conservadores liberais, que tinham participado no 28 de Maio, mas que eram republicanos e encaravam a ditadura como provisória, e, por outro lado, os nacionalistas de direita e extrema-direita, fascizantes, os elementos do tenentismo, a Igreja católica que pretendiam fundar um novo regime.</strong></p>
<p><strong>- Este acabaria por ser o Estado Novo de Salazar, que a partir de 1930 passou a hegemonizar progressivamente o poder político, até então dominado pelos sectores militares republicanos conservadores.</strong></p>
<p><span id="more-969"></span><span style="color: #000000;">Sob o comando do general Gomes da Costa, iniciou-se, na madrugada de 28 de Maio de 1926, a sublevação militar do Regimento de Infantaria 8, de Braga.- Ex-comandante da II divisão do Corpo Expedicionário Português na Flandres, este foi convidado para chefiar o golpe, devido a doença do general Alves Roçadas, indigitado comandante da programada operação militar </span>com «uma finalidade elevada, visando uma reforma da política nacional».</p>
<p><span style="color: #000000;">Outro mentor do golpe, </span><span style="color: #000000;"><strong>almirante José Mendes Cabeçadas, </strong></span><span style="color: #000000;">que, juntamente com Armando Ochôa, deveria chefiar a guarnição de Lisboa, </span><em><span style="color: #000000;"><em>acabou por ser preso às ordens do governo, em Santarém</em></span></em><span style="color: #000000;">.</span> <span style="color: #000000;">Isso não impediu porém que o movimento militar se estendesse a todo o país, com a adesão das guarnições militares de Braga, Vila Real, Coimbra, Viseu, Tomar e Évora. Nesta cidade, vindo de Elvas, o general Óscar Fragoso Carmona (1869-1951), assumiu, no dia 30 de Maio, o comando da respectiva 4.ª Divisão do Exército.</span></p>
<p>Entre os militares que apoiaram inicialmente o golpe de Estado, contaram-se os do «tenentismo» fascizante, que incluía os oficiais Assis Gonçalves, futuro secretário de Salazar, Humberto Delgado, Henrique Galvão, David Neto e Pereira de Carvalho.</p>
<p>- Outros dos que aderiram ao golpe foram os militares de alta patente Quintão Meireles, Nuno Cruz, Alfredo Chaves, Tudela Vasconcelos e Pedro Almeida, que mais tarde alinhariam na oposição ao regime<span style="color: #000000;">. Apoiantes do golpe foram ainda os elementos da direita republicana, em particular da União Liberal Republicana, de Cunha Leal. O</span></p>
<p><span style="color: #000000;">golpe contou ainda com a neutralidade de quase todas as outras forças políticas, todas adversárias do Partido Democrático de António Maria da Silva.</span></p>
<p>Como noticiou <em>A Batalha</em>, jornal da CGT, a «queda de Antonio Maria ela Silva fez-se sem disparar um tiro», pois «ninguém se sentiu com coragem ou com convicção para o defender».<span style="color: #000000;"> </span>Por seu turno, muito enganado, o diário <em>O Mundo</em>, órgão do PRED, considerou que o golpe de 28 de Maio se tinha feito para «repor a Constituição a vigorar em toda a sua pureza».<span style="color: #000000;"> </span>Já o diário lisboeta<em> A Capital, </em>também dos «canhotos», ao assinalar que, a palavra «República» não cabia na proclamação de Gomes da Costa ao País, qualificou esta última como contendo «a densidade das trevas».</p>
<p><span style="color: #000000;">Das forças que apoiavam o governo, apenas o general Domingos Peres, em Braga, e o general Adalberto Gastão de Sousa Dias, comandante da 3.ª Divisão de Exército, sediada no Porto, ofereceram resistência às tropas sublevadas. Em 30 de Maio, este último reconheceria porém a derrota e, nesse mesmo dia, enquanto o general </span><span style="color: #000000;"><strong>Gomes da Costa</strong></span><span style="color: #000000;"> determinava que, a partir do norte, todas as forças militares avançassem sobre Lisboa, o governo de </span><span style="color: #000000;"><strong>António Maria da Silva </strong></span><span style="color: #000000;">pediu a demissão ao presidente da República</span>.</p>
<p><span style="color: #000000;">Por seu lado, o presidente da República </span><span style="color: #000000;"><strong>Bernardino Machado </strong></span><span style="color: #000000;">decidiu-se pela «</span>transferência legal» dos poderes ao almirante Mendes Cabeçadas, em troca do respeito pela «legalidade constitucional». Machado solicitou <span style="color: #000000;">a este último para assumir a chefia do Ministério e a pasta da Marinha, bem como para acumular interinamente todos os outros ministérios. Dessa forma, o ex-PR pretendia dar margem de manobra a uma das correntes político-militares do 28 de Maio mais moderadas no seio do golpe.</span> Após o fecho do Parlamento, n o dia 31 de Maio, Bernardino Machado, deu os poderes presidenciais a Mendes Cabeçadas. <span style="color: #000000;">No novo Ministério, constituído em 3 de Junho, este almirante manteve-se na respectiva Presidência, o general Gomes da Costa encarregava-se das pastas da Colónias e da Guerra, bem como interinamente da Marinha, enquanto Óscar Fragoso Carmona se tornava titular dos Negócios Estrangeiros.</span></p>
<p>Mas <span style="color: #000000;">no seio do movimento militar triunfante em 28 de Maio de 1926, alastraram desde logo os desacordos entre os diversos chefes militares. Apesar de dispor de vastos apoios, Mendes Cabeçadas evitou confrontos armados com as forças de Gomes da Costa, que, vindo de Sacavém, entrou em Lisboa</span><span style="color: #000000;"><strong>, à frente de 15.000 homens, em 6 de Junho, três dias antes de</strong></span><span style="color: #000000;"> ser dissolvido o Congresso da República (Senado e Câmara dos Deputados). </span>Em 17 de Junho,<span style="color: #000000;"> reunidos em Sacavém, os seguidores do general Gomes da Costa forçaram Mendes Cabeçadas a renunciar às funções de Presidente da República e do Ministério</span>.<span style="color: #000000;"> A partir de 29 de Junho, Gomes da Costa passou a acumular a chefia do governo com a Presidência da República e, a 9 de Julho,</span> devido à alteração de um decreto sobre assuntos religiosos, apoiado pela direita mais radical, demitiu vários ministros.</p>
<p>Dois dias depois, o próprio Gomes da Costa viria a ser afastado pelos conservadores em torno de Sinel de Cordes <span style="color: #000000;">–  grupo, que já estivera por trás do golpe palaciano que afastara Mendes Cabeçadas -,</span> que assumiu a pasta das Finanças, enquanto <span style="color: #000000;">Óscar Fragoso Carmona se tornava o novo presidente do Ministério. No mesmo dia 11 de Ju</span>lho, Sinel de Cordes convidou a presidir à comissão de estudo da nova reforma fiscal Oliveira Salazar, que, ao longo de 1927, se afirmaria como uma dos principais críticos da política de fomento daquele, defendendo a necessidade de um prévio equilíbrio orçamental antes de pedir um empréstimo. R<span style="color: #000000;">ecusando manter-se apenas na Presidência da República, o general Costa Gomes, era detido e deportado para os Açores, de onde regressaria no final do ano seguinte.</span></p>
<p><strong>A polícia política</strong></p>
<p>Enquanto as forças de Cabeçadas, Carmona e Gomes da Costa se iam digladiando nos corredores, os militares revoltosos cumpriram, em 15 de Junho de 1926, a promessa de acabar com a <span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><span style="font-size: small;">Polícia Preventiva de Segurança do Estado</span></span>, considerada a polícia política do governo republicano.</p>
<p>Para não recuar além de 1918, lembre-se que Sidónio Pais criara então a Polícia Preventiva, na dependência do chefe do governo, com ligações ao governador civil. Liderada por Sollari Allegro, com o objectivo de vigiar os grupos políticos e sociais e lidar com os grupos civis armados e as milícias, como a Carbonária, ou Formiga branca. Ao ser eleito Presidente da Republica em Abril de 1918, Sidónio Pais transformou a Policia Preventiva numa milícia pessoal de defesa pessoal, com o nome de Policia de Segurança da Estado (PSE). Em 1922, a PSE passou a chamar-se Policia Preventiva e de Segurança do Estado (PPSE), um corpo secreto, ao qual cabia a investigação dos criminosos políticos, enquanto as detenções, buscas e interrogatórios seriam executados pela Policia de Investigação Criminal (PIC).</p>
<p>A Ditadura militar começou por ficar, como se viu, sem polícia política, tendo os agentes da antiga PPSE sido transferidos para a Policia de Instrução Criminal (PIC)<span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><span style="font-size: small;">, </span></span>tutelada pelo Ministério dos Cultos e da Justiça<span style="color: #00000a;"><span style="font-family: 'Times New Roman', serif;"><span style="font-size: small;">. </span></span></span>No entanto, em 16 de Dezembro de 1926, foi criada, junto do Governo Civil de Lisboa, a Polícia Especial de Informações (PEI), ou Polícia de Informação (PI), ou a Informa, dirigida pelo tenente do 28 de Maio, Braz Vieira. Para dirigir a Polícia de Segurança Pública e sanear todas as forças policiais dos adversários republicanos da Ditadura Militar, foi nomeado Ferreira do Amaral, comandante da Policia de Lisboa desde 1923, quando havia criado uma brigada com o objectivo de infiltrar e perseguir os membros bombistas da Legião Vermelha.</p>
<p>Como se sabe, Ditadura Nacional foi desde logo alvo dos adversários políticos que a tentaram derrubar, ocorrendo, em Fevereiro de 1927, no Porto e em Lisboa, uma importante revolta «reviralhista». Esta saldou-se, na primeira cidade, em cerca de 80 a 100 mortos e meio milhar de feridos sublevados, na sua maioria civis e, na capital, apesar de o movimento só ter durado pouco mais de dois dias, de 70 a 90 mortos e quase 400 feridos.</p>
<p>Se, pela duração e dimensão nacional da sublevação, bem como pelo número de unidades militares e de civis envolvidos, a revolta de Fevereiro de 1927 fez perigar a Ditadura Nacional, esta veio a sair triunfante e ver-se-ia consolidada na sequência da derrota dos revoltosos. O Conselho de Ministros, realizado logo em 11 de Fevereiro de 1927, no Quartel-General do governo, precisamente no Regimento de Caçadores 5, sede do tenentismo, tomou diversas medidas repressivas.</p>
<p>Não só alterou a lei da greve, como o <span style="color: #000000;">Decreto-Lei n.º 13 137, de 15 de Fevereiro, impôs a separação de serviço, com 50% do vencimento, a «todos os magistrados funcionários civis, elementos da polícia e oficiais que tomaram parte na preparação ou na execução dos movimentos revolucionários do mês de Fevereiro».</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- No dia seguinte, foram dissolvidas as unidades do Exército, da Armada e GNR, bem como os «centros políticos e associações de qualquer natureza» que, total ou parcialmente, tivessem tomado parte nos movimentos revolucionários</span>.</p>
<p>O comandante da PSP, Ferreira do Amaral, substituiu todos os suspeitos de estarem contra a situação por jovens tenentes e capitães que haviam apoiado o 28 de Maio de 1926. Foi assim que os capitães Agostinho Lourenço e José Catela ingressaram, em 1927, na PSP, ficando o primeiro a dirigir a polícia de trânsito. Os dois tinham sido sidonistas e teriam estado na Polícia Preventiva e tinham depois estado na preparação do golpe de 28 de Maio. Aliás entre os militares que acompanharam a coluna do General Gomes da Costa que entrou em Lisboa estavam muitos jovens oficiais milicianos que mais tarde ocupariam lugares chave da hierarquia da PVDE e da PIDE<em>.</em></p>
<p>No Porto, onde não havia polícia política, à data dos acontecimentos de Fevereiro de 1927, foi criada também uma PI, chefiada pelo tenente de cavalaria Morais Sarmento, da linha da ultra-direita. As duas polícias políticas foram unificadas, em 17 de Março de 1928, numa única Polícia de Informações (Decreto-Lei n.º 15 195), tutelada pelo ministério do Interior, ao contrário da PIC, que dependia da pasta da Justiça e dos Cultos.</p>
<p>A partir desse mês, qualquer militar que recusasse servir o governo ou participasse em revoltas militares era automaticamente afastado da administração pública. Foi o que aconteceu a Jaime Cortesão, Raul Proença, David Ferreira, expulsos da Bibliotecas Nacional, Álvaro de Castro, da Escola Colonial, José Domingues dos Santos, da Faculdade de Engenharia do Porto, Filipe Mendes e Jaime de Morais, do Conselho Superior de Colónias, bem como centenas de elementos do Exército e Armada.</p>
<p>A prisão na Penitenciária de Lisboa, seguida de deportação sem julgamento para o forte de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira e para as colónias da Guiné, Cabo Verde e Timor foi o destino de mais de 700 deportados, enquanto 500 outros embarcaram para a deportação, em direcção à Madeira. Além de deportados, outros militares, entre os quais se contou o general Sousa Dias, que dirigiu a revolta no Porto, <span style="color: #000000;">foram ainda separados do serviço activo, com direito a apenas metade do vencimento. Este último foi enviado para São Tomé e Príncipe, e depois para os Açores e Madeira, em 1930, onde viria a</span> chefiar, no ano seguinte, a Revolta da Madeira.</p>
<p>Quanto a Agatão Lança, que dirigiu a revolta de Fevereiro de 1927 em Lisboa, foi preso, com os seus marinheiros, na Penitenciária da Lisboa, antes de ser deportado como detido comum para Angola. <span style="color: #000000;">Co</span>nseguindo evadir-se de Luanda, exilar-se-ia em Paris. Viria a participar em diversas revoluções, nomeadamente na «Revolta do Castelo», em 1928, sem que a polícia o conseguisse prender, vindo a exilar-se em Espanha, de onde acompanharia a «Revolta das Ilhas», de 1931. Muitos outros civis republicanos foram expulsos do País, ou seguiram voluntariamente o caminho do exílio francês ou espanhol. Em Paris, logo em<span style="color: #000000;"> 16 de Fevereiro, foi constituída, com o objectivo de lutar contra a ditadura militar, a Liga de Defesa da República (Liga de Paris). Esta contou, entre os seus principais membros, com os dirigentes republicanos Afonso Costa, Álvaro de Castro (falecido em 1928) e José Domingos dos Santos, além de António Sérgio e Jaime Cortesão</span>. Este e Jaime de Morais instalaram-se depois na cidade galega de Vigo.</p>
<p><span style="color: #000000;">A</span>pós a derrota da revolta de 1927, a CGT, que também participou na sublevação, viu a sua sede por <span style="color: #000000;">três vezes assaltada pela polícia, e em, Novembro</span>,na sequência do atentado contra o director da Imprensa Nacional, Louis Derouet, <span style="color: #000000;">foi ilegalizada.</span> Também no rescaldo da derrota de Fevereiro de 1927, na qual teriam participado<span style="color: #000000;"> 200 militantes comunistas do Porto, </span>as sedes do PCP nessa cidade e em Lisboa foram encerradas, muitos militantes foram presos e o próprio partido viria a ser proibido. Após extinguir, entre 1926 e 1928, a Carbonária, o PCP e a CGT, o governo viria a ordenar, em 1930, o encerramento da sede do PRP e do seu jornal, o<em> Rebate</em>, bem como, no ano seguinte, o fecho do Grémio Lusitano, dando assim início ao processo de ilegalização da Maçonaria, concretizada em 1935.</p>
<p><strong>O TME</strong></p>
<p><span style="color: #000000;">Além de criar </span>uma PI a nível nacional, a ditadura militar instaurou a Censura à imprensa e ergueu um Tribunal Militar Especial (TME), para julgar os “crimes políticos”. As primeiras medidas judiciais da Ditadura Nacional, tomadas para lidar sumariamente com os crimes de «insubordinação», regularam-se nas «regras prescritas no Código de Justiça Militar para tempo de guerra».Depois, em 30 de Julho de 1926, os Tribunais Militares Territoriais (TMT) ficaram com competências para julgarem os crimes de associações de malfeitores, uso e porte de armas de fogo, fabrico e detenção de explosivos, atentados com explosivos e de incitamento à prática de crimes violentos.</p>
<p>Foi porém também na sequência da revolta de Fevereiro de 1927 que a Ditadura colocou à «ordem» do governo centenas de implicados militares e policiais na «preparação e execução dos movimentos revolucionários», apenas julgados, depois de presos e deportados.<strong> </strong>No último dia de Março de 1927, foi criado um «tribunal militar extraordinário» para julgar os acusados militares e civis implicados em «crime de rebelião» &#8211; o Tribunal Militar Especial de Lisboa (TMEL). A este, juntar-se-iam um tribunal no Porto e ainda uma secção do mesmo nos Açores, havendo ainda, consoante as épocas, tribunais itinerantes, no Funchal, em Viseu ou nos fortes da Trafaria e de Elvas. Em Novembro do mesmo ano, foi ainda criado um TMT, com carácter de excepção, para julgar os atentados contra titulares de cargos públicos.</p>
<p><strong>A Censura</strong></p>
<p>Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, um ofício<span style="color: #000000;"> do segundo-comandante da polícia de Lisboa</span> tinha instituído a Comissão de Censura à Imprensa de Lisboa, dirigida pelo coronel Joaquim Augusto Pratas Dias, sob tutela do ministério da Guerra. Em 10 de Julho de 1926, foi criada a Comissão de Censura à Imprensa do Porto, chefiada pelo major Daniel Pinto da Silva. Após a derrota do movimento revolucionário de Fevereiro, um diploma de 16 de Abril de 1927, sujeitou a processo sumário e julgamento todos os que propagassem «boatos tendenciosos», bem como os que distribuíssem ou conservassem «em seu poder quaisquer impressos ou notícias tendenciosas ou de propaganda subversiva». Em 18 de Outubro, a Censura passou da tutela da Guerra para a do do Interior, mas deve-se dizer que ela só se aplicava então à imprensa.</p>
<p>Se a ditadura militar teve de se confrontar logo em Fevereiro 1927 com os reviralhistas republicanos, em <span style="color: #000000;">12 de Agosto desse anos, </span>homens ligados ao Integralismo Lusitano e à ultra-Direita, entre os quais se contavam Fidelino Figueiredo e Filomeno da Câmara, tentaram fazer um golpe de Estado contra os elementos republicanos do governo. Tratou-se do chamado «golpe dos Fifis», em que participaram alguns dos tenentes nacionalistas do regimento de Caçadores 5, Henrique Galvão e Morais Sarmento, chefe da PI do Porto, capturado pelo seu colega Brás Vieira, director da PI de Lisboa. Depois do fracasso à nascença desse golpe, o quartel de Caçadores 5 foi encerrado e a ala republicana conservadora liberal que pretendia a prazo regresso à normalidade constitucional ganhou força no seio do poder.</p>
<p>Esta ala, que viria a ser hegemónica nos governos da Ditadura Nacional, até Janeiro de 1930, incluía o vice-presidente do Ministério Abílio de Passos e Sousa, bem como os generais Vicente de Freitas e Ivens Ferraz, chefes do governo que sucederiam a Carmona, após este ser eleito Presidente da República. O coronel Vicente de Freitas foi nomeado em simultâneo ministro do Interior e presidente do Ministério, em Abril de 1928, tendo como principal tarefa, sem o conseguir, conter o défice financeiro. Responsável pelo fracasso financeiro, o seu ministro das Finanças, general Sinel de Cordes, foi substituído, por influência do ministro Duarte Pacheco, por Oliveira Salazar- Escolhendo o tenente Assis Gonçalves, do quartel de Caçadores 5, para seu secretário particular, o novo ministro das Finanças passou a contar com o apoio do tenentismo radical do 28 de Maio dessa guarnição de Campolide. Era aliás ali que Salazar se refugiava sempre que havia revoltas.</p>
<p>Estavam assim formadas as duas forças que iriam batalhar pelo poder na Ditadura: de um lado Vicente de Freitas e a direita republicana liberal que pretendia a prazo a restauração da constituição de 1910; do outro lado, as forças conservadoras, os monárquicos, os integralistas, os católicos e os filo-fascistas, que queriam formar um novo regime e através de Assis Gonçalves tinham agora um líder – Oliveira Salazar. No entanto, Vicente de Freitas controlava as polícias e a GNR e nomeou um homem de sua total confiança &#8211; o coronel Pestana Lopes &#8211; para a direcção da PI, que ficou ainda com poderes acrescidos, em particular judiciais e de instrução de processos.</p>
<p>Os interrogatórios eram feitos com violência sem controlo e os adversários imediatamente deportados sem julgamento para a Guiné, Angola e Timor. O anarco-sindicalista Edgar Rodrigues, diria:</p>
<p>«A princípio eram as algemas e o capacete eléctrico, o &#8220;baloiço&#8221;,<br />
as pancadas nos testículos, nos músculos e depois a posição de sentido junto de uma lâmpada de 500 velas, as corridas nos corredores sem poder sentar, e outros meios de levar o preso até à loucura, à cegueira, ao suicídio.»</p>
<p>Pestana Lopes conseguiu desmantelar diversas conspirações, tanto de esquerda e de direita. Uma delas ocorreu, em Julho de 1928, ficando conhecida como a Revolta do Castelo, devido ao facto de aí se situar o regimento de Caçadores 7, de onde partiu a revolta, que se saldou na morte deoito civis e no ferimento de cerca de 30 a 50. No endurecimento repressivo que se fez sentir a partir de então, a polícia chegou mesmo a prender, em Junho de 1928, o próprio António Maria da Silva, apesar de este defender um pacto com a ditadura. Por outro lado, o governo procedeu à reorganização da guarnição militar de Lisboa, transferindo para unidades da província os oficiais passíveis de entrar em dissidência.</p>
<p>Reforçando novamente os seus mecanismos repressivos, o governo criou, em 21 de Agosto de 1928 uma nova força policial, na dependência da PI &#8211; a Polícia Internacional Portuguesa (PIP). Um diploma de 27 de Julho de 1928 possibilitou, através de processo sumário e administrativo, a demissão ou separação do serviço das Forças Armadas ou da Função Pública e/ou deportação para Angola e Timor. Dos cerca de uma centena de chefes militares e do milhar de soldados presos pela PI, foram deportados, para Angola, 51 sargentos e 44 oficiais, enquanto outros foram colocados em regime de residência fixa em diversas partes do País.</p>
<p>Além disso, a ditadura tudo fez para, através da imprensa virar a opinião pública contra os revolucionários. Por seu lado, Salazar deu uma entrevista ao <em>Diário de Lisboa</em>, publicada em 22 de Julho de 1928, onde, a pretexto de defender o seu Plano de Fomento, realçou a necessidade de ordem pública para levar a cabo a obra de ressurgimento nacional. Em 22 de Setembro de 1928, o governo criou a Direcção Geral dos Serviços da Censura à Imprensa (DGSCI), presidida pelo coronel de Artilharia Joaquim Augusto Pratas Dias, que tinha até então chefiado a Comissão de Censura à Imprensa de Lisboa.</p>
<p>Nesse período, o general José Vicente de Freitas constituía, porém, uma das últimas hipóteses de uma solução republicana liberal no quadro da ditadura, prosseguindo a sua política de «acalmação». Em Outubro desse ano, lançou um diploma que possibilitava a reintegração dos militares demitidos, devido à participação nas revoluções de 1927-1928. Vicente de Freitas já estava porém a prazo no governo, pois viria a ser obrigado a demitir-se, no ano seguinte, devido a uma crise que envolveu os ministros católicos, em particular o da Justiça e dos Cultos, Mário de Figueiredo, aliado e amigo de Oliveira Salazar, desde os tempos de Coimbra.</p>
<p>Figueiredo fez sair uma portaria que fazia regressar os cultos religiosos, como tocar dos sinos nas procissões, mas o governo exigiu a demissão do ministro da Justiça. Salazar sentiu-se obrigado a pedir a demissão. O PR Carmona não permitiu a saída do ministro das Finanças e demitiu o chefe do governo, entregando o ministério a outro republicano liberal, o general Ivens Ferraz seguidor da linha Vicente Freitas. As derrotas de 1927 e 1928, seguidas de prisão, exílio, deportação, fixação de residência, demissão da Função Pública ou do Exército e transferência de unidade militar levaram o movimento reviralhista a um período de profundo refluxo, em 1929 e 1930.</p>
<p>Nesse período, a PI continuava a ser dirigida por Pestana Lopes, que era sistematicamente criticado por Salazar. O chefe da PI acabaria por se demitir, em Novembro de 1929, contribuindo essa demissão para uma vitória da ala dos oficiais nacionalistas e de extrema-direita, que pela primeira vez tomava conta da polícia política. Para o lugar de Pestana Lopes foi nomeado um dos oficiais que comandavam a PSP, Baleizão do Paço, discípulo de Ferreira do Amaral e colega de Agostinho Lourenço.</p>
<p>Ivens Ferraz já tinha entrado entretanto em conflito aberto com Salazar por causa das Finanças de Angola e de Cunha Leal. Após um discurso fascizante do novo ministro dos Negócios Estrangeiros, o integralista Henrique Trindade Coe1ho, em Agosto de 1929, Ivens Ferraz requereu a todos os membros do gabinete ministerial que lhe dessem previamente conta do conteúdo das suas entrevistas e notas oficiosas. Salazar viria a desobedecer a essa norma, ao publicar uma nota oficiosa do Ministério das Finanças sobre a crise de Angola, sem o conhecimento do chefe do governo, e repreendido por este, ameaçou demitir-se.</p>
<p>No contexto deste confronto, também o chefe da Comissão da Censura de Lisboa, Salvação Barreto, colocou o seu lugar à disposição, colocando-se ao lado de Salazar e contra Ivens Ferraz. Mas, de novo, como no caso da portaria dos sinos,Salazar iria provocar, directa ou indirectamente, a demissão de Ivens Ferraz, em Janeiro de 1930, por Carmona, que nomeou o general Domingos Oliveira para a chefia do governo e voltou a impor a manutenção de Salazar nas Finanças. O ano de 1930 foi assim o da afirmação do salazarismo e do início da progressiva hegemonização do poder de Salazar. Foi também o ano em que este definiu o seu pensamento político em três importantes discursos, proferidos entre 28 de Maio e o final do ano.</p>
<p>Num deles, intitulado «Princípios fundamentais da revolução política»<span style="color: #000000;">, onde se </span>demarcava tanto da democracia liberal, como do totalitarismo e defendia una «nova ordem de coisas» e um «Estado forte»<span style="color: #000000;">, que respondesse à</span> «ânsia de autoridade e disciplina». Foi ainda em 1930 que Salazar impulsionou dois importantes diplomas fundadores do futuro Estado Novo: por um lado, o Acto Colonial e, por outro lado<span style="color: #000000;">, a União Nacional (UN), à qual iriam aderir monárquicos, jovens tenentes, muitos notáveis locais do republicanismo liberal conservador</span>. Pela sua parte, os católicos foram confrontados com a escolha entre aderirem à UN ou manterem-se no CCP.<span style="color: #000000;"> </span>Embora tivesse sido um dos fundadores e definidores da linha do Centro Católico, nos anos vinte, Salazar manifestou então a opinião de que este se deveria transformar em associação social, prescindindo da acção política, doravante deixada à UN<span style="color: #000000;">.</span></p>
<p>Entretanto nova revolução reviralhista estava para eclodir em 21 de Junho de de 1930<span style="color: #000000;">, mas, </span>detectando a entrada de armamento no país vindo de Espanha, a PI deteve, cinco dias antes, os implicados. Entre este, contaram-se os tenentes Correia e Oliveira Pio, além de João Lopes Soares, Alberto Moura Pinto e Francisco Cunha Leal, que viriam a ser deportados para as ilhas. Na madrugada seguinte, foram presos os oficiais comprometidos, general Sá Cardoso, coronel Hélder Ribeiro, tenentes-coronéis Ribeiro de Carvalho e Sarmento de Beires, bem como os capitães Carlos Vilhena, Augusto Casimiro, Alfredo Chaves e Maia Pinto. Ao surgir pela primeira vez a evidência do conluio entre o «reviralho» e oficiais da extrema-direita, descontentes com a marcha da ditadura e a progressiva marginalização dos militares, foi ainda detido o brigadeiro João de Almeida, no rescaldo da desarticulação do movimento.</p>
<p>Após as prisões e apreensão de armas (e tanques), em Junho de 1930, a ditadura voltou a deportar preventivamente diversos ex-oficiais que tinham acabado de regressar das ilhas, onde haviam estado em residência fixa. O ministro do Interior Lopes Mateus tomou pessoalmente conta da Censura, cujos serviços tinham passado a ser dirigidos internamente a nível nacional pelo major Salvação Barreto, um próximo de Salazar que revelou desde logo o propósito de controlar a opinião pública. Por outro lado, para corresponder «com severidade e prontidão» à punição dos crimes de «lesa-pátria», o governo decidiu reinstalar, em 19 de Dezembro de 1930, em Lisboa, o TME, que havia sido extinto meses antes.</p>
<p>Em 30 de Dezembro, reuniram-se, no Quartel-General do Governo Militar de Lisboa, algumas centenas de oficiais, e na ocasião, Salazar aproveitou para fazer o «elogio das virtudes militares» e identificar os inimigos da Pátria com os da Ditadura. No final de 1930, embora os comités reviralhistas estivessem profundamente divididos e destroçados, continuaram a surgir rumores de conspirações militares contra o governo. Aumentaram que as críticas dos e militares mais à direita da Ditadura contra os ministros do Interior e da Guerra, respectivamente Lopes Mateus e Namorado de Aguiar. Este acabaria mesmo por ser substituído pelo coronel Schiappa de Azevedo.</p>
<p>O ano de 1931 seria o de todas as revoltas, aumentando então <span style="color: #000000;">a agitação social face à crise económica e financeira europeia que se fazia sentir desde 1929.</span> <span style="color: #000000;">Para obstar à crise, Oliveira Salazar enveredou por um conjunto de medidas restritivas, prevendo para o orçamento de 1931/32, um decréscimo de 7,8% nas despesas.</span> <span style="color: #000000;">Ao mesmo tempo, o Estado interveio na economia privada, ao aprovar, em 14 de Fevereiro de 1931, o regulamento sobre o condicionamento industrial, que atingiu sectores de trabalho intensivo.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Numa situação social explosiva, </span>organizações<span style="color: #000000;"> sindicais anarco-sindicalistas e comunistas convocaram, </span>para 29 de Fevereiro de 1931, uma «jornada internacional contra o desemprego» e a fome, em Lisboa, contra o «imposto dos 2 %» para o Fundo de Desemprego, mas que fracassou. No meio académico de Lisboa e Porto, onde também reinava a insatisfação, ocorreram, em Abril 1931, greves estudantis, em Lisboa e no Porto. Em Espanha as eleições autárquicas deram entretanto a vitória aos republicanos nas cidades mais importantes e, no dia 14 de Abril, o rei Alfonso XIII abdicou. A Monarquia deu lugar à II Republica espanhola, que passou a apoiar os grupos de exilados portugueses que conspiravam contra a ditadura militar portuguesa.</p>
<p>E<span style="color: #000000;">ntre Fevereiro e Maio de 1931, houve sublevações das guarnições militares da Madeira e dos Açores</span>, que alastraram à <span style="color: #000000;">Guiné, a S. Tomé e a Moçambique, onde estavam concentrados muitos </span>deportados<span style="color: #000000;">.</span> Mas, a<span style="color: #000000;">o contrário do que esperavam os reviralhistas, as revoltas não tiveram eco na metrópole e,</span> após 28 dias, os revoltosos na Madeira renderam-se, em 2 de Maio, de insurreição, o mesmo acontecendo aos sublevadoss das outras ilhas e colónias. Devido a essas crises sucessivas, Salazar resolveu emitir, no dia 6 de Maio de 1931, uma nota oficiosa.</p>
<p>Enquanto ministro das Finanças, chamou a atenção para os danos causados à economia nacional pelas «alterações da ordem pública nos Açores e na Madeira», bem como pelas «agitações subversivas no Continente nos últimos dias». Mas, saindo do seu papel de responsável pelas Finanças e extravasando para as competências do seu colega do Interior, Salazar fustigou depois os revolucionários, exigindo que desistissem da desordem ou que o governo os tornasse «impotentes para a acção revolucionária».</p>
<p>Onze dias depois, o chefe do governo Domingos de Oliveira e Salazar, com o apoio da recém-criada UN, promoveram uma manifestação de massas de apoio ao governo, cujo momento alto foi uma «jornada de doutrinação e de afirmação política», no Coliseu dos Recreios, onde Salazar foi o mais aplaudido. No seu discurso, defendeu o «princípio da autoridade» e o estabelecimento de um nacionalismo político, económico e social, «dominado pela soberania incontestável do Estado forte», insusceptível «de ser o joguete ou a vítima de partidos, de facções, de grupos, de classes, de seitas e de engrenagens revolucionárias».</p>
<p>No final, a multidão dispersou, mas era esperada nas ruas circunvizinhas por manifestantes «contrários», havendo correrias, distúrbios e explosões de alguns petardos, não só na Rua das Portas de Santo Antão, como no Rossio, na Av. da Liberdade e no Chiado, onde foi lançada outra bomba. O mesmo voltaria a acontecer no dia e na noite seguintes, 18 de Maio, e, enquanto a PI realizava rusgas e prisões entre as hostes “esquerdistas”, que foram presos e deportados, o ministro do Interior Lopes Mateus ordenou, dia 19, a selagem do Grémio Lusitano, sede da Maçonaria Portuguesa. A partir de então, esta viria a entrar numa profunda agonia, até ser proibida, em 1935, através do diploma da dissolução das «sociedades secretas».</p>
<p>Política e militarmente vitoriosa das revoltas do primeiro semestre de 1931, a Ditadura Nacional voltou a endurecer os seus meios repressivos. Além de demitir a maioria dos 300 implicados presos e de os deportar, sem julgamento, criou colónias penais para os encarcerar, nomeadamente em Ataúro e Oecussi, em Timor. Na ilha de S. Nicolau, no arquipélago de Cabo Verde, foi aberto, no Verão de 1931, um campo penal, para onde foram enviados cerca de 160 presos republicanos. Muitos ficaram na deportação por mais de dois anos e alguns nem sequer foram abrangidos pela amnistia de 1932, como aconteceu ao general Sousa Dias, que viria a morrer em Cabo Verde em 27 de Abril de 1934.</p>
<p>No seio da “situação”, as sublevações da Madeira, dos Açores, da Guiné e de Moçambique, bem como os incidentes de Maio em Lisboa, provocaram críticas ao ministro da Guerra, Schiappa de Azevedo, que foi substituído interinamente, em 25 de Julho de 1931, pelo coronel António Lopes Mateus, que passou assim a acumular as pastas do Interior e da Guerra. Sobre este ministro incidiriam, por seu turno, as críticas de elementos, revoltados com a repressão violenta exercida pela PI, então dirigida por Baleizão do Passo, desde o final de 1930. Esta polícia acabaria por ser dissolvida, em 3 de Junho de 1931, sendo as suas funções transitoriamente entregues à PSP e os seus agentes integrados na PIC.</p>
<p>Em 28 de Julho, reapareceu, em larga medida devido à implantação da República em Espanha, que levou à necessidade de reforçar as fronteiras, a Polícia Internacional Portuguesa (PIP). Criada anteriormente, em 1928, a PIP tinha sido dissolvida, em Setembro de 1930, ao ser formada uma Secção Internacional, na PIC de Lisboa, na dependência do Ministério dos Cultos e da Justiça. Ao voltar a ser estruturada, em Julho de 1931, enquanto polícia de estrangeiros, de combate à espionagem e de repressão do comunismo (entendido como uma quinta coluna estrangeira), a PIP passou a ser tutelada pelo ministério do Interior, que nomeou para a chefia dessa polícia o capitão Agostinho Lourenço. Depois das grandes revoltas do primeiro semestre de 1931, foi também simplificado o processo de instrução do TME e reforçada a Censura à imprensa.</p>
<p>Com a extinção da PI e, enquanto estava a ser instalada a PIP, não havia polícia política e os conspiradores republicanos aproveitaram para armazenar armas, vindas de contrabando de Espanha. Uma parte deles, chefiados por Utra Machado e pelo herói aviador Sarmento de Beires, tomaram, em 26 de Agosto, o quartel de artilharia 3 nas Amoreiras, Lisboa. O objectivo era controlar a Rotunda e dali bombardear o regimento instalado no Castelo e Caçadores 5, onde Salazar se costumava refugiar. Por seu lado, Sarmento de Beires tomou a base de Alverca e ordenou o bombardeamento do Castelo e Almada, que causou muitas mortes civis.</p>
<p>Segundo uma notícia muito aproveitada pelo governo para virar a «opinião pública» contra os sublevados, ocorreu um «morticínio» nas ruas em redor do forte de Almada, onde foram feridos muitos civis e mortos 4 adultos e 4 crianças, através do bombardeamento, por engano, de um avião vindo de Alverca, pilotado pelo aviador civil sublevado, Manuel Vasques. As forças fiéis ao governo lideradas pelo tenente em ascensão Jorge Botelho Moniz conseguiram retomar a base de Alverca e obrigar Sarmento de Beires a fugir e a refugiar-se em Santarém.</p>
<p>Sem apoio aéreo, Utra Machado rendeu-se ao fim da tarde na Rotunda. Preso, seguiu com centenas de outros detidos para o degredo em Timor sem julgamento, enquanto Sarmento de Beires conseguiu fugir e passou para a clandestinidade, onde permaneceu até 1933. No dia 27 de Agosto de 1931, o ministro do Interior e da Guerra, Lopes Mateus, realizou, no Quartel do Carmo, uma conferência de imprensa a condenar o «criminoso» golpe perpetrado pelos «políticos», sublinhando que o Exército respondera com «a maior nobreza e decisão aos desordeiros». Considerada como<span style="color: #000000;"> o «</span><span style="color: #000000;">canto do cisne</span><span style="color: #000000;"> do </span><span style="color: #000000;">reviralhismo</span><span style="color: #000000;"> insurreccional»,</span> a revolta de Agosto de 1931 viria a trazer grandes consequências a nível do governo e da oposição à Ditadura.</p>
<p><span style="color: #000000;">Se todas as revoltas do ano de 1931 resultaram em mais de 200 mortos e cerca de mil feridos, o movimento revolucionário de 26 de Agosto saldou-se pela morte de 40 pessoas e pelo ferimento de 200 a 300 civis e militares, sobretudo nos locais em torno</span> do Parque Eduardo VII, no Largo do Rato e nos bairros do Castelo e de Alfama. Todas <span style="color: #000000;">as revoltas e manifestações populares do ano de 1931 resultaram também em milhares de detenções e cerca de 1.500 deportações para as ilhas e as colónias. Apenas na sequência do 26 de Agosto, houve mais de sete centenas de presos</span>, dos quais 358 embarcariam, sem qualquer julgamento, para a deportação em Timor, Cabo Verde, Angola e São Tomé.</p>
<p>A larga maioria destes prisioneiros e deportados eram civis, muitos deles comunistas, anarquistas e socialistas, enquanto outros foram encarcerados em 15 prisões militares do continente. <span style="color: #000000;">Os que não foram detidos em 1931, foram afastados das Forças Armadas e da administração pública, ou colocados em residência fixa na metrópole, enquanto muitos outros “escolhiam” o caminho do exílio</span>. <strong>O TME</strong>, recriado em 19 de Dezembro do ano anterior, tinha sido novamente extinto no início de 1931, com o argumento da necessidade e da celeridade nos julgamentos. No entanto, após Agosto de 1931, o TME voltou a funcionar em Lisboa, acumulando funções de instrução e de julgamento<span style="color: #000000;">.</span></p>
<p><strong>Opinião pública e censura</strong></p>
<p>Se a revolta de Fevereiro de 1927 contou com algum apoio popular, nomeadamente de funcionárias públicos e comerciantes, as tentativas revolucionárias de 1931 já se depararam com uma certa indiferença, e mesmo hostilidade da parte “opinião pública” urbana, fosse por causa da censura, fosse porque as pessoas estavam cansada com as mortes e destruições, bem como pelo agravamento da crise económica. Grande eficácia junto da opinião pública terá tido aliás uma célebre fotografia de Ferreira da Cunha, registada durante a revolta de 26 de Agosto, onde se vê Salazar, num carro, a ser informado dos acontecimentos, pelo general David Neto, responsável pela repressão do movimento. Salazar já “começava” a ser o chefe do governo, deixando “apenas” ser o ministro das Finanças, mesmo se ainda teria nove meses para a recta final da caminhada para o poder.</p>
<p>Paralelamente a usarem o aparelho de propaganda, Salazar e os seus apoiantes também utilizaram o aparelho censório, cujos serviços foram reforçados, em 28 de Agosto de 1931. Dez dias depois da nomeação do novo ministro do Interior, Mário Pais de Sousa, que substituiu, em 21 de Outubro de 1931, António Lopes Mateus, o coronel Pratas Dias abandonou o cargo de director-geral da DGSI, substituído pelo tenente-coronel João Tomás Rodrigues. Pais de Sousa convidou Horácio de Assis Gonçalves para a chefia da Comissão de Censura de Lisboa, mas este tenente de Caçadores 5, da linha mais à direita da Ditadura, próxima de Salazar, de quem era aliás secretário, preferiu continuar a servir o ministro das Finanças.</p>
<p>Reforçando a componente informativa da polícia política, o ministro do Interior, criou, em Maio de 1932, a Secção de Vigilância Política e Social (SVPS) da PIP, que reunia pela primeira vez todas as funções de polícia política num único corpo.<span style="color: #000000;"> Em 2 de Maio, o governo de Domingos de Oliveira extinguiu também a antiga Intendência Geral de Segurança, criando, em sua substituição, a Direcção-Geral de Segurança Pública (DGSP), à qual ficaram subordinadas todas as polícias, não só as dependentes do ministério do Interior, como a PIC, que assim abandonou transitoriamente o Ministério dos Cultos e da Justiça</span>.</p>
<p>Ao mesmo tempo que a ditadura reforçava a sua força política, terminava definitivamente o diálogo no seio dela com os velhos partidos republicanos, quando a Aliança Revolucionária e Socialista foi extinta. Esta frente, liderada por Norton de Matos e que reuniu opositores do regime como Ramada Curto e Tito de Morais, tinha sido autorizada por Domingos de Oliveira, que também prometera para o fim de 1931 eleições autárquicas livres.</p>
<p><strong>Salazar</strong></p>
<p>Estas nunca se realizaram e terminava a possibilidade de qualquer luta legal contra a Ditadura, ao mesmo tempo que Salazar via a sua posição claramente reforçada, começando-se a falar abertamente da sua nomeação para a chefia do governo. Em 28 de Maio de 1932, dia em que se comemoravam seis anos sobre o golpe militar, Carmona atribuiu, ao ministro das Finanças, na antiga Sala do Conselho do Ministério do Interior, a Grã-Cruz da Torre e Espada, até então apenas outorgada, no caso dos civis, a chefes do governo. Ao dirigir-se ao Exército, Salazar disse que este não tinha que «fazer política», mas deveria ser «até ao fim a garantia e o penhor da revolução nacional». Observando que ele próprio tinha sido completamente alheio ao golpe militar de 1926, Salazar concluiu o discurso, dando por terminada a Ditadura Nacional, naquele momento em que uma nova Constituição e a UN dariam lugar ao Estado Novo.</p>
<p>Em 24 de Junho, o chefe do governo Domingos de Oliveira apresentou a sua demissão a Carmona, que convocou de imediato uma reunião do Conselho Politico, para dia 28. A esta, assistiu Salazar que, segundo Franco Nogueira, dela saiu, com uma «alegria íntima mal reprimida» no rosto e, cinco dias depois, surgiu na imprensa a notícia de que Presidente da República convidara o ministro das Finanças a constituir governo. Em 5 de Julho de 1932 começava uma nova era no regime político português, com a tomada de posse de António de Oliveira Salazar como Presidente do Ministério. Mantendo para si a pasta das Finanças, este recorreu, para o ministério do Interior, a Albino Soares Pinto dos Reis, um liberal formado em Direito, em Coimbra, recém- ingressado na UN.</p>
<p>Não por acaso, através de um diploma<span style="color: #000000;"> de 5 de Dezembro de 1932, foi regulado o regime de punição dos chamados «crimes de rebelião», visando já os que viriam a ser os principais inimigos da ditadura – os comunistas.</span> O diploma previa, para os crimes mais graves, a pena de desterro de seis a doze anos, podendo elevar-se a 15 anos, com prisão no lugar de desterro de quatro a oito anos e multa até quarenta contos. Pela primeira vez, o diploma encarava a possibilidade de substituir as multas pelo «internamento em colónia penal agrícola, à escolha do Governo», que viria depois a ser posto em prática através das medidas de segurança.</p>
<p>Do mesmo dia 5 de Dezembro de 1932, outro diploma concedia uma amnistia, ao fazer cessar «o procedimento criminal» contra os expulsos e presos, acusados de «crime político» nos primeiros seis anos da Ditadura. Exceptuavam-se dos passíveis de serem amnistiados, 50 nomes, entre os quais se contavam os do general Sousa Dias, do jornalista Augusto Casimiro, Jaime Cortesão, Afonso Costa, Bernardino Machado, Jaime de Morais, Alexandrino de Sousa, Utra Machado e Sarrnento Beires. A imprensa noticiou abundantemente a libertação de detidos políticos, bem como o regresso dos deportados e exilados a Portugal, graças à amnistia salazarista. No entanto, <em>O Século, </em>avisou, em 8 de Dezembro, que só eram amnistiados os «comunistas idealistas, isto é, aqueles que não tiverem tomado parte em atentados». Os «bombistas», embora se intitulando comunistas, continuariam «presos e seriam sujeitos a Julgamento, nos termos do diploma agora publicado».</p>
<p>Esta noção iria prevalecer até ao fim do regime ditatorial, em 1974, dado que, ao longo dos anos, quer o governo, quer a sua polícia afirmariam sempre que, em Portugal, o art.º 8.º da Constituição de 1933 garantia a liberdade de expressão, pensamento e associação e ninguém era preso devido às suas ideias políticas. Só eram detidos, segundo o governo, aqueles que se organizassem politicamente para subverter o regime legal instaurado por essa mesma Constituição e, por isso, a PVDE/PIDE/DGS viria sempre a qualificar os elementos do PCP como membros de uma «associação de malfeitores», pondo aspas em tudo o que se referia ao comunismo, bem como aos seus «militantes», «funcionários» e «dirigentes».</p>
<p>Para a chefia da<strong> </strong>Censura, foi nomeado, em 1 de Novembro de 1932, Álvaro Salvação Barreto, que centralizou todos os serviços e ordenou a proibição na imprensa de «referências a partidos ou agrupamentos políticos, como consequência imediata da doutrina expressa no discurso do Exmo Sr. Presidente do Ministério». Salazar não se furtou, numa entrevista dada a António Ferro, em 1932, a falar sobre a censura, afirmando que ela não terminaria tão cedo, pois era uma «arma legítima» de um governo autoritário que se propunha lutar contra o «imperialismo ideológico do comunismo internacional» e «impedir a invasão das ideias marxistas, a propagação de mentiras e o malefício da calúnia».</p>
<p>A par do endurecimento da Censura, Salazar criou o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), para a chefia do qual convidou António Ferro, com o objectivo de a realizar a «política do espírito», ou a «revolução mental» que faltava fazer, após ter sido feita a «revolução legal». Se o aparelho censório servia um propósito de despolitização e desmobilização cívica dos portugueses, ao tentar impedir a tomada de conhecimentos de alternativas sociais, culturais, políticas e ideológicas ao Estado Novo, o SPN pretendia dar aos portugueses uma única e determinada imagem de um país e de um regime, pretensamente sem conflitos, problemas, miséria e dificuldades, segundo a norma de «o que se parece é», tão do agrado de Salazar.</p>
<p><strong>A PDPS e a PVDE</strong></p>
<p>Em 23 de Janeiro de 1933, o ministro Albino dos Reis transformou a Secção de Vigilância Política e Social da PIP num corpo policial autónomo, a Polícia de Defesa Política e Social (PDPS), dependente do ministério do Interior, e chefiada por Rodrigo Vieira de Castro, um magistrado civil.<strong> </strong>Este pretendeu dar uma aparência menos dura da polícia política e, em final de Março, o ministro do Interior visitou os presos políticos detidos no Aljube para se informar sobre as condições de detenção a que estavam sujeitos.</p>
<p>O capitão Agostinho Lourenço director da Polícia Internacional Portuguesa (PIP), não terá certamente ficado muito agradado com o processo de criação da PDPS, que retirava algum protagonismo àquela polícia. Foi disso que deu conta a Salazar, em 9 de Janeiro de 1933, o tenente Horácio Assis Gonçalves, que remeteu então ao chefe do governo a queixa de que Agostinho Lourenço não tinha sido ouvido no processo de «organização em novos moldes» da PDPS. Assis Gonçalves intrigou também, junto de Salazar, contra o ministro do Interior, Albino dos Reis e o juiz Rodrigo Vieira de Castro, como contra PDPS, acusada de deixar o PCP crescer.</p>
<p>O ano de 1933 foi, em Portugal, o da instauração do Estado Novo pelo novo chefe do governo, António de Oliveira Salazar. Esse período de institucionalização do novo regime ocorreu – lembre-se -, num contexto europeu de subida ao poder de ditaduras de novo tipo, nomeadamente o fascismo na Itália, onde Mussolini chegou ao poder em 1922, e o nacional-socialismo na Alemanha, onde Hitler foi nomeado chanceler em 30 de Janeiro de 1933.</p>
<p>Para legitimar o seu novo regime, o presidente do Ministério &#8211; e depois, do Conselho de Ministros -, começou por elaborar uma Constituição, plebiscitada em 19 de Março.<strong> </strong>Embora garantindo a liberdade de pensamento, a Constituição de 1933 previa de imediato leis especiais que regulamentassem o exercício desse direito, para «impedir preventiva ou repressivamente a perversão da opinião pública na sua função de força social».<strong> </strong>Em 11 de Abril, os serviços da Censura à imprensa passaram da tutela do Ministério da Guerra, para a do Ministério do Interior. Mais tarde, passaria para a tutela do SPN e, posteriormente, para a Secretaria de Estado da Informação e Turismo (SNI) revelando-se assim, por parte do governo, um propósito de “civilizar” esses serviços.</p>
<p>Quanto ao ministro do Interior, suscitando críticas da UN e não merecendo a confiança dos «Rapazes da Ditadura», demitiu-se, em 24 de Julho de 1933.<strong> </strong>Com a sua demissão, saiu também, Rodrigo Vieira de Castro, o director da PDPS, polícia que foi extinta e substituída pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).<strong> </strong>Criada, em 29 de Agosto de 1933, pelo DL n.º 22 992, em resultado da fusão entre a PDPS e a PIP, a PVDE tinha como principal função a repressão do comunismo, designadamente no que tocava as ligações entre elementos portugueses e agitadores estrangeiros.<strong> </strong>Ao contrário da PDPS, a PVDE não viria a ser dirigida por um civil, mas pelo capitão do Exército, Agostinho Lourenço, ex-chefe da PIP. O controlo das oposições e das informações regressava assim às mãos dos militares.</p>
<p>xxxxxxxxx</p>
<p>As revoltas republicanas contra a Ditadura Nacional, resultaram num tremendo efeito perverso. À medida que essas revoltas eram derrotadas pelo governo ditatorial, este não só aumentava a sua força, como endurecia a repressão e a criminalização penal da oposição republicana. Quanto aos republicanos reviralhistas, ficaram progressivamente privados das suas redes de influência militar e civil, devido à demissão, prisão, exílio e deportação dos seus chefes militares e políticos, como o apoio popular com que contavam foi progressivamente diminuindo, limitando-se às cidades e a alguns ex-carbonários, anarco-sindicalistas e comunistas.</p>
<p>O poder explorava o cansaço que se fazia sentir face à intranquilidade pública e culpava os revoltosos de contribuírem para o aumento da crise económica e financeira, já de si grave. Por outro lado, o governo controlava a “opinião pública”, ao dominar a imprensa adversa através da censura e ao utilizar os seus próprios jornais para potenciar os perigos da desordem económica, social e política urbana. Foi também formando uma “opinião pública” que aspirava à «ordem», à «autoridade» e à «tranquilidade» e deixava de se interessar pelos que, de forma minoritária, resistiam a uma Ditadura que se eternizava. Tanto mais que essa “opinião pública” não tinha qualquer saudade do período que havia antecedido o golpe de 28 de Maio de 1926. Por isso, não só a ditadura militar estava em óptimas condições para defender a limitação e mesmo o fim das liberdades públicas, como sabia ter chegado o momento para reerguer ou reforçar instituições repressivas.</p>
<p>Mas o processo que decorreu entre 1926 e 1932, até Salazar hegemonizar a ditadura militar e chegar à chefia do governo, não foi pacífico, como se viu. Houve uma assinalável resistência de muitas forças, maioritariamente republicanas, algumas que tinham perdido o poder com o golpe militar de 1926, mas também de outras que haviam anteriormente criticado o poder jacobino do PRP «democrático». Foram todos esses civis e militares republicanos dissidentes ou opositores à Ditadura que foram alvo da censura, da polícia política e dos tribunais militares. Foram estes que, entre 1926 e 1932/33, tanto no interior do país, como na deportação e no exílio, arriscaram o emprego, a liberdade e até a vida, saindo à rua contra a Ditadura Nacional. No seio do governo, a ala republicano conservadora resistiu até 1930, quando a partir de então se assistiu progressivamente à perda de hegemonia da direita militar republicana no poder e à ascensão de Salazar.</p>
<p>XXXXX</p>
<p>Antes de terminar, gostaria de dar um salto temporal, até 19 de Janeiro de 1934, no dia a seguir à derrota de «18 Janeiro», em que Salazar propôs ao Conselho de Ministros diversas medidas repressivas e sanções para punir os envolvidos nas acções da véspera. Considerados como participantes num «acto revolucionário», todos os dirigentes, mas também qualquer mero aderente do movimento foram «sujeitos aos tribunais especiais».</p>
<p>Em nota oficiosa, o governo avisou que iria «reprimir eficazmente a propaganda e as ideias dissolventes e atentatórias da moral pública e da ordem», bem como «promover a demissão de funcionários públicos» civis e militares envolvidos. Dos acontecimentos de 18 de Janeiro, resultou também a decisão governamental de criação, no sul de Angola, junto à foz do Cunene, de um campo de concentração para os responsáveis revolucionários. Foi também expressa a vontade de erguer uma colónia penal, em Cabo Verde, e o certo é que esta viria a ser criada, em 1936, no Tarrafal, na Ilha de Santiago.</p>
<p>A partir de então, derrotados os anarco-sindicalistas e os reviralhistas, à sua esquerda, e os nacionais-sindicalistas, à sua direita, o Estado Novo passou a erigir os comunistas como os seus principais inimigos. O novo tema foi publicamente lançado, em 28 de Janeiro de 1934, no teatro de S. Carlos, em Lisboa, na sessão de apresentação da nova organização de juventude estatal, a Acção Escolar Vanguarda (AEV), onde Salazar afirmou peremptoriamente que o comunismo se havia convertido na «grande heresia da nossa idade».</p>]]></content:encoded>
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		<title>Edmundo Pedro (Colóquio Tarrafal)</title>
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		<pubDate>Mon, 06 Apr 2009 20:27:54 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Intervenção do Edmundo Pedro no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM nota: Os vídeos do Colóquio vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/p/4613F72D25BBC238&amp;hl=en"></param><embed src="http://www.youtube.com/p/4613F72D25BBC238&amp;hl=en" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385"></embed></object> <br /><small>Intervenção do Edmundo Pedro no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM</small><br />
<small><em>nota: Os <a href="http://maismemoria.org/mm/2008/12/01/coloquio-tarrafal-%E2%80%93-uma-prisao-dois-continentes/">vídeos do Colóquio</a> vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.</em></small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Luís Fonseca, Colóquio Tarrafal</title>
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		<pubDate>Sat, 28 Mar 2009 12:24:34 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Intervenção do Luís Fonseca no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM nota: Os vídeos do Colóquio vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/p/E8CFD73E808B0E59&amp;hl=en"></param><embed src="http://www.youtube.com/p/E8CFD73E808B0E59&amp;hl=en" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385"></embed></object><br /><small>Intervenção do Luís Fonseca no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM</small><br />
<small><em>nota: Os <a href="http://maismemoria.org/mm/2008/12/01/coloquio-tarrafal-%E2%80%93-uma-prisao-dois-continentes/">vídeos do Colóquio</a> vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.</em></small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Levy Batista, Colóquio Tarrafal</title>
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		<pubDate>Wed, 17 Dec 2008 11:09:19 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Intervenção do Levy Batista no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM nota: Os vídeos do Colóquio vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/p/B352826677B3DEF8&#038;fmt=18&#038;rel=0&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><embed src="http://www.youtube.com/p/B352826677B3DEF8&#038;fmt=18&#038;rel=0&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowfullscreen="true" width="480" height="385"></embed></object><br /><small>Intervenção do Levy Batista no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM</small></p>
<p><small><em>nota: Os <a href="http://maismemoria.org/mm/2008/12/01/coloquio-tarrafal-%E2%80%93-uma-prisao-dois-continentes/">vídeos do Colóquio</a> vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.</em></small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Constantino Lopes da Costa</title>
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		<pubDate>Mon, 01 Dec 2008 13:10:50 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[“…Não havia para nós nem água da torneira para beber. Manhã muito cedo chegava uma carreta de bois com água e enchíamos um tambor. Um tambor desses de gasolina de 100 ou 200 litros, para 24 horas. E éramos 100 presos. E nada mais. Até às 11 horas a água ficava vermelha da ferrugem. E [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p> <a href="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2008/11/coloq-tarraf-clc-14.bmp"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-581" title="coloq-tarraf-clc-14" src="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2008/11/coloq-tarraf-clc-14.bmp" alt="" width="170" height="155" /></a><span>“…Não havia para nós nem água da torneira para beber. Manhã muito cedo chegava uma carreta de bois com água e enchíamos um tambor. Um tambor desses de gasolina de 100 ou 200 litros, para 24 horas. E éramos 100 presos. E nada mais.</span></p>
<p>Até às 11 horas a água ficava vermelha da ferrugem. E tínhamos de a beber… Em poucos meses veio a bênção. Todos os presos com uma inflamação horrível da pele que não podíamos vestir nem uma camisa…</p>
<p>Mas também pensávamos naqueles que por lá passaram antes de nós[os presos portugueses]. Se agora em 1962 era assim como não teriam sido tratados os que passaram por cá em 1936… Assim pensávamos.</p>
<p><object width="480" height="385"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/p/5C44275350C395AC&amp;hl=en"></param><embed src="http://www.youtube.com/p/5C44275350C395AC&amp;hl=en" type="application/x-shockwave-flash" width="480" height="385"></embed></object>  <br /><small>Intervenção do Constantino Lopes da Costa no Colóquio do Tarrafal na TV do NAM</small></p>
<p>Não ficámos com ódio por ninguém. Nós estávamos politizados. Estávamos a lutar por uma causa. Não havia que ficar com ódio por ninguém. Éramos adversários numa luta.”</p>
<p>[Extracto da intervenção - no colóquio promovido pelo NAM, <strong><em>Tarrafal uma prisão dois continentes</em></strong>, em 29 de Outubro de 2008, na Assembleia da República - do ex-prisioneiro guineense do Campo de Concentração do Tarrafal, Constantino Lopes da Costa, hoje embaixador da Guiné em Lisboa.]</p>
<p><small><em>nota: Os <a href="http://maismemoria.org/mm/2008/12/01/coloquio-tarrafal-%E2%80%93-uma-prisao-dois-continentes/">vídeos do Colóquio</a> vão sendo actualizados com os depoimentos na íntegra.</em></small></p>]]></content:encoded>
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		<title>Um combate oportuno</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Mar 2008 13:50:40 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[O movimento cívico “Não Apaguem a Memória!” surgiu na hora própria para ser uma voz particularmente activa na luta pela preservação  da memória da  resistência anti fascista. Mas, na minha opinião, não só. Apareceu numa altura em que em vários países europeus essa preocupação, motivada pelo progressivo esquecimento do que representou o ataque dos regimes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>O movimento cívico “Não Apaguem a Memória!” surgiu na hora própria para ser uma voz particularmente activa na luta pela preservação  da memória da  resistência anti fascista. Mas, na minha opinião, não só. Apareceu numa altura em que em vários países europeus essa preocupação, motivada pelo progressivo esquecimento do que representou o ataque dos regimes totalitários contra as liberdades públicas, levou ao aparecimento de movimentos semelhantes. O movimento “Não Apaguem a Memória” não pode preocupar-se só com manter viva a memória da resistência anti-fascista. Tem que estar virado para o futuro. Tem de ligar-se aos movimentos semelhantes que estão a nascer por toda a Europa. A memória da resistência deve ser a fonte inspiradora da luta por um futuro que não nos obrigue, de novo, a travar as lutas passadas pela conquista das liberdades públicas. Tem de denunciar e combater contra todos os atentados a esses direitos.</p>
<p>O Governo de Cabo Verde consagrou, através de uma resolução tomado em 14 de gosto de 2006, o dia 29 de Outubro (data em que foi inaugurado, em 1936, o Campo de Concentração do Tarrafal) como o dia da Resistência Antifascista.</p>
<p>No documento que  consagra esta decisão afirma-se: “Esta Resolução enquadra-se no âmbito do reconhecimento do papel histórico e civilizacional desempenhado pelo ex-Campo de Concentração do Tarrafal de Santiago no processo da emancipação e da conquista da liberdade e da independência dos povos das antigas colónias portuguesas e do próprio povo português.”</p>
<p>Proponho que sigamos o exemplo do povo de Cabo Verde. Proponho que o “Movimento Não Apaguem a Memória” designe o dia 29 de Outubro como o dia da Resistência Antifascista e, em geral,  luta anti totalitária.</p>
<p>Edmundo Pedro</p>]]></content:encoded>
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		<title>Espaços de Memória na TSF &#8211; Na Ordem do Dia</title>
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		<pubDate>Mon, 28 May 2007 10:15:59 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[No seguimento do debate Espaços da Memória -contributo para um roteiro da memória e da resistência da cidade de Lisboa, onde foi referenciada a participação e o empenhamento do nosso Movimento na luta pela preservação da memória da antiga sede da PIDE na António Maria Cardoso (bem como os compromissos já assumidos pela CM Liaboa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>No seguimento do debate Espaços da Memória -contributo para um roteiro da memória e da resistência da cidade de Lisboa, onde foi referenciada a participação e o empenhamento do nosso Movimento na luta pela preservação da memória da antiga sede da PIDE na António Maria Cardoso (bem como os compromissos já assumidos pela CM Liaboa e pelo promotor imobiliário), e onde também foi reafirmada a importância e urgência da constituição do Museu Nacional da Liberdade e da Resistência, que são dois dos grandes objectivos do <em>Não apaguem a memória!</em>, entendeu o Provedor da Arquitectura -arqº Francisco Silva Dias &#8211; referir a importância deste assunto na TSF.</p>
<p>Este é um tema que interessa a cada vez mais cidadãos, e motiva em cada dia mais e maiores vontades.</p>
<p>Vale a pena ouvi-lo e reflectir:</p>
<p>Rádio TSF Online  &gt;  Opinião<br />
&#8220;Na Ordem do Dia&#8221; com Francisco Silva Dias, 25-05-2007<br />
Nasceu e ganha crescente dinamismo o movimento cívico denominado <em>&#8220;Não Apaguem a Memória!&#8221;</em>.<br />
Francisco Silva Dias comenta em A Ordem do Dia:</p>
<p><a href="http://www.tsf.pt/online/common/include/streaming_audio_radio.asp?audio=/2007/05/noticias/22/ordem22.asx" target="_blank">clique para ouvir na TSF online<br />
</a></p>]]></content:encoded>
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		<title>Desfile à António Maria Cardoso</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2007 08:43:16 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Aqui a liberdade venceu a tortura Milhares de pessoas responderam afirmativamente ao convite do Movimento para prolongar o desfile do 25 de Abril até à Rua António Maria Cardoso, onde clamaram o seu desejo de a antiga sede da PIDE/DGS ser recordada como lugar por excelência da resistência à ditadura fascista do Estado Novo. Numa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Aqui a liberdade venceu a tortura</strong></p>
<p>Milhares de pessoas responderam afirmativamente ao convite do Movimento para prolongar o desfile do 25 de Abril até à Rua António Maria Cardoso, onde clamaram o seu desejo de a antiga sede da PIDE/DGS ser recordada como lugar por excelência da resistência à ditadura fascista do Estado Novo.</p>
<p><a href='http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/DesfileAntonioMariaCardoso20070425/show/' title='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' target="_blank"><img src='http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2007/04/20070425desfileamc118.jpg' alt='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' /></a></p>
<p>Numa silêncio, que deve sublinhar-se depois de um desfile colorido como foi o do 25 de Abril, ouviram com extrema atenção em os testemunhos de Fernando Vicente e Garcia Pereira sobre o significado da manifestação: assegurar realmente que no condomínio que ali se constrói se reserve um espaço museológico que recorde para a história o que foi a luta pela conquista da democracia.</p>
<p>Fernando Vicente, um dos presos políticos que mais sofreu a tortura do sono nos longos interrogatórios que ali se fizeram, foi directo e conciso na explicação que deu sobre o que era a polícia política do regime ditatorial. </p>
<p><a href='http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/DesfileAntonioMariaCardoso20070425/show/' title='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' target="_blank"><img src='http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2007/04/20070425desfileamc197.jpg' alt='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' /></a></p>
<p>Ali interrogava-se até à morte para arrancar aos detidos a confissão que interessa ao ditador para se perpetuar no poder. Ali se concentrava um sistema de devassa da vida privada de todos os cidadãos, que era alimentado por uma rede de bufos sem rosto, pela violação sistemática da correspondência, por um sistema de escutas arbitrário e sem controlo, por buscas domiciliárias selvagens, por cargas policiais brutais. Ali a única lei que comandava era a que a PIDE decretava.</p>
<p>Garcia Pereira deu o seu testemunho do dia 25 de Abril de 1974, quando ao fim da tarde um grupo de cidadãos se dirigiu à sede da sinistra polícia reclamando a sua extinção e por esta foi recebida a tiro. Recordou a rajada que ceifou de imediato quatro manifestantes e deu parte da sua convicção de que alguns dos feridos devem ter soçobrado, mas cujo falecimento deve ter ficado ignorado nos registos hospitalares. Recordou que quando chegaram as ambulâncias, das janelas da morte saíram duas granadas de fumos, para impedir o socorro às vítimas. Recordou que os únicos mortos que naquele dia da libertação ocorreram foram os praticados pelo polícia política fascista – nomeando o inspector da PIDE/DGS que comandou as acções homicidas, Óscar Cardoso.</p>
<p>Fernando Vicente em palavras sucintas explicou a motivação daquela concentração.</p>
<p><a href='http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/DesfileAntonioMariaCardoso20070425/show/' title='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' target="_blank"><img src='http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2007/04/20070425desfileamc186.jpg' alt='Desfile à António Maria Cardoso (2007)' /></a></p>
<p>Há dois anos, no 5 de Outubro de 2005, um grupo de cidadãos reuniu-se junto da antiga sede da PIDE-DGS em Lisboa, para expressar o seu protesto pelo apagamento de qualquer referência à memória histórica daquele local. Desse acto nasceu o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! e surgiu igualmente a possibilidade de corrigir o erro: inserir numa parte do condomínio um espaço que testemunhe o papel da resistência democrática à ditadura. Deu conta dos contactos estabelecidos com a Câmara Municipal de Lisboa (CML) e o promotor imobiliário, e como foi possível estabelecer um protocolo tripartido no sentido de concretizar esse espaço de memória e lhe conferir a dignidade indispensável. </p>
<p>Chegado a esse ponto, o processo entrou num impasse devido à incapacidade da CML e o promotor chegarem a um entendimento suficientemente claro quanto à definição jurídico-administrativa a conferir ao futuro espaço museológico. As conversações arrastam-se desde Maio de 2006, daí a necessidade de repor o assunto na praça pública. Daí a justificação daquela concentração. </p>
<p>O Movimento, reforçado com a adesão popular que a sua iniciativa alcançou, vai insistir com os seus interlocutores para que assumam os seus compromissos e dêem os passos necessários para que o projecto museológico se torne numa realidade a muito curto prazo.</p>
<p>Por isso, e para lá destes contactos, o Movimento vai avançar para estudos concretos quanto ao desenho a conferir ao espaço – já referenciado – onde há-de construir-se a memória da liberdade que naquele lugar venceu a tortura.</p>
<p>O primeiro passo nesse sentido vai dar-se no próximo 16 de Maio, com a realização de um colóquio na sede da Ordem dos Arquitectos (Edifício dos Banhos de São Paulo – Travessa do Carvalho, 23, em Lisboa), onde o grupo técnico, que o Movimento já mobilizou para esse trabalho, porá em discussão pública as ideias que já concebeu para um espaço que se quer que seja um hino à liberdade e à democracia.</p>
<p>No final, num gesto espontâneo de respeito e amor, os cravos foram colocados junto ao edifício.</p>
<p>[ fotografias <a href="http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/DesfileAntonioMariaCardoso20070425/show/">aqui</a> ]</p>]]></content:encoded>
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		<title>A Manifestação do 25 de Abril</title>
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		<pubDate>Thu, 26 Apr 2007 08:42:11 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[A Manifestação do 25 de Abril contou com milhares de pessoas que quiseram, mais uma vez, manifestar a alegria da libertação, a celebração da Democracia e a afirmação da Liberdade O Movimento Não Apaguem a Memória! esteve presente ao lado dos milhares de cidadãos e cidadãs que inundaram a Av. da Liberdade, em Lisboa. Sindicatos, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>A Manifestação do 25 de Abril contou com milhares de pessoas que quiseram, mais uma vez, manifestar a alegria da libertação, a celebração da Democracia e a afirmação da Liberdade</p>
<p><a href='http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/25deAbril20070425/show/' title='Desfile do 25 de Abril (2007)' target="_blank"><img src='http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2007/04/25deabrilde2007.jpg' alt='Desfile do 25 de Abril (2007)' /></a></p>
<p><strong><em>O Movimento Não Apaguem a Memória!</em></strong> esteve presente ao lado dos milhares de cidadãos e cidadãs que inundaram a Av. da Liberdade, em Lisboa.</p>
<p>Sindicatos, Partidos, Movimentos Cívicos, reivindicações das  chamadas “minorias”, Imigrantes e cidadãos anónimos juntaram-se para comemorar a data em que Portugal passou a ser uma nação, mais uma vez, orgulhosa de si e da sua história.</p>
<p>Num dia bonito, em que a luz única desta cidade brilhou, o 25 de Abril de 1974 foi recordado e defendido pelo povo da cidade de Lisboa.</p>
<p><strong>25 de Abril Sempre, Fascismo Nunca Mais!</strong> foi a palavra de ordem mais gritada.</p>
<p>Vale a pena guardar estas imagens.</p>
<p>[ fotografias <a href="http://www.flickr.com/photos/maismemoria/tags/25deAbril20070425/show/">aqui</a> ]</p>]]></content:encoded>
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		<title>25 de Abril [Porto]</title>
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		<pubDate>Tue, 24 Apr 2007 08:35:59 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[33º ANIVERSÁRIO DA REVOLUÇÃO DE 25 DE ABRIL O núcleo do Porto do movimento Não Apaguem a memória!, de acordo com as suas finalidades de perpetuar a memória da resistência à opressão do Estado Novo e valorizar a luta de todos os antifascistas, apela à participação nas comemorações populares do 25 de Abril no Porto. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>33º  ANIVERSÁRIO  DA<br />
REVOLUÇÃO   DE   25   DE   ABRIL</strong></p>
<p>O núcleo do Porto do movimento Não Apaguem a memória!, de acordo com as suas finalidades de perpetuar a memória da resistência à opressão do Estado Novo  e valorizar a luta de todos os antifascistas, apela à participação nas comemorações populares do 25 de Abril no Porto.</p>
<p>O programa engloba a Festa Popular da noite de 24, a Homenagem aos Resistentes Anti-fascistas, o Desfile Cívico e a Festa do 25 de Abril.</p>
<p><span id="more-191"></span><br />
<strong>24 de Abril de 2007</strong><br />
          Praça General Humberto Delgado</p>
<p>21h 30m &#8211; Grupo Índico<br />
22h 30m &#8211; Tributo a Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira<br />
23h 30m &#8211; Coral de Letras da Universidade do Porto<br />
24 horas &#8211; Fogo de artifício</p>
<p><strong>25 de Abril de 2007</strong><br />
Praça Soares dos Reis, junto ao edifício da PVDE/PIDE/DGS</p>
<p>14  h &#8211;  montagem de banca do Núcleo do Porto do<br />
            &#8220;Não Apaguem  a memória!&#8221;<br />
14h 30m &#8211; Homenagem aos Resistentes Anti-fascistas<br />
15h 30m &#8211; Desfile cívico, partindo do largo Soares dos Reis e seguindo<br />
                  pelas  ruas  da  cidade até  à  Praça  da  Liberdade/Avenida<br />
                  dos Aliados<br />
16h 30m &#8211; Festa Popular,  na Avenida dos Aliados,  com  intervenções<br />
                  das entidades promotoras e animação variada</p>
<p>                  NÃO APAGUEM A MEMÓRIA!<br />
                                 Núcleo do Porto</p>]]></content:encoded>
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		<title>Borges Coelho evoca o papel do Tribunal Plenário da Boa Hora</title>
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		<pubDate>Fri, 08 Dec 2006 13:12:54 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Boa Hora]]></category>
		<category><![CDATA[destacado]]></category>
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		<category><![CDATA[intervenções]]></category>

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		<description><![CDATA[Em nome das vítimas dos Tribunais Plenários, dos mortos e dos vivos, saúdo os juízes do Tribunal da Boa Hora que quiseram activar a memória dos tempos sombrios. As vítimas que represento foram neste local gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu próprio corpo. Avivar, hoje e aqui, a memória constitui, pois, um acto [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2006/12/20061206_borges_coelho.jpg"><img id="image129" src="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2006/12/20061206_borges_coelhow.jpg" alt="Borges Coelho, intervenção na Boa Hora" style="float:left;" hspace="6" vspace="4" /></a>Em nome das vítimas dos Tribunais Plenários, dos mortos e dos vivos, saúdo os juízes do Tribunal da Boa Hora que quiseram activar a memória dos tempos sombrios. As vítimas que represento foram neste local gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu próprio corpo. Avivar, hoje e aqui, a memória constitui, pois, um acto necessário e exemplar de cidadania.</p>
<p>Os presos políticos, mulheres e homens, que durante dezenas de anos pisaram a barra deste tribunal, não eram gente vencida. Tinham experimentado os perigos da luta contra a ditadura e o rigor da vida clandestina. Tinham suportado a prisão, os espancamentos, a tortura da estátua, os meses de isolamento nos buracos do Aljube ou em Caxias. Muitas vezes chegavam aqui ainda com as marcas da tortura.<br />
<span id="more-131"></span></p>
<p>Esta sala, que foi do Tribunal Plenário, era previamente ocupada por agentes da polícia. Um deles escrevia o relatório pormenorizado da audiência e não se coibia de comentar a actuação dos próprios juízes. Mas a polícia não podia impedir a presença de assistentes incómodos. Desde logo, a dos advogados que gratuitamente e com elevado risco assumiam a defesa dos réus. Depois, a das testemunhas que louvavam a conduta ética dos acusados e por vezes defendiam a justeza das ideias que eles professavam. Algumas testemunhas saíam directamente da sala de audiências para o calabouço. E havia ainda os olhos e os ouvidos dos que conseguiam vencer a barreira.</p>
<p>Os “julgamentos” começavam com a entrada do Promotor e dos Juízes do Tribunal Plenário. Entravam sem venda nos olhos e sem balança. Sabiam ao que vinham: julgar mulheres e homens cujos processos tinham sido instruídos, não por juízes, mas por agentes e inspectores da polícia política. E de que crimes eram essas mulheres e homens acusados? Do crime de exprimirem por palavras e escritos a liberdade de pensamento, do crime de exercerem a liberdade de reunião e de associação.</p>
<p>Os Tribunais Plenários integravam-se no sistema de terror, legitimando-o. </p>
<p>No decorrer da audiência os acusados acusavam. A televisão não estava lá para abrir uma janela para o mundo; a imprensa silenciava; o país seguia cabisbaixo. Mas as vozes daqueles que aqui se ergueram acusando ecoaram fundo no coração de muitos portugueses. Não vou referir nomes. Alguns têm o seu lugar na nossa história. Hoje lembro somente aqueles que acusaram e de que ninguém fala. Por vezes agredidos e empurrados para o calabouço.</p>
<p>Estas paredes assistiram a muita agonia, a opressão, a desprendimento total das coisas terrenas, a gestos comoventes de sacrifício e dedicação aos outros.</p>
<p>Mulheres e homens que nada tinham senão os corpos e a mente indicavam com o seu sacrifício que há momentos em que é preciso dizer não para que a água da vida corra limpa.</p>
<p>Vinham de todas as camadas sociais mas predominavam os camponeses, os operários, os intelectuais e os jovens. Recordo-os a todos como pessoas nas suas diferenças sociais e políticas e queria com estas palavras erguer um longo mural que chamasse, um a um, todos os nomes.<br />
Eles assumiam, letrados ou não, a dignidade antiga e quase sagrada de Sócrates perante os quinhentos juízes do tribunal de Atenas.</p>
<p>No final do espectáculo, o Tribunal Plenário condenava as vítimas a anos e anos de prisão, a que acrescentava as medidas de segurança de seis meses a três anos, renováveis tantas vezes quantas a polícia política decidisse com a dócil assinatura dos servidores do Plenário. </p>
<p>Renovo a saudação a todos quantos participaram nesta breve memória dos tempos sombrios. Mas as últimas palavras reservo-as para a primeira noite dos condenados depois da leitura da sentença: embrulhados nas mantas imundas, cortados da vida, sem outro futuro à vista que não o do cárcere e o da “fé”. </p>
<p><a href="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2006/12/20061206_borges_coelho2.jpg"><img id="image132" src="http://maismemoria.org/mm/wp-content/uploads/2006/12/20061206_borges_coelho2w.jpg" alt="Borges Coelho, intervenção na Boa Hora" /></a></p>
<p>6-12-06</p>]]></content:encoded>
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		<title>António Borges Coelho na homenagem aos Tarrafalistas</title>
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		<pubDate>Tue, 31 Oct 2006 13:15:02 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Intervenção de António Borges Coelho, que foi o orador convidado pela URAP, entidade organizadora da homenagem aos Tarrafalistas realizada no Cemitério do Alto de S. João, em 29 de Outubro. MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES! Canto aqueles que caíram Os que deitados à terra Já estão nascendo no trigo (…) (Rafael Alberti) Viemos homenagear homens [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Intervenção de António Borges Coelho, que foi o orador convidado pela URAP, entidade organizadora da homenagem aos Tarrafalistas realizada no Cemitério do Alto de S. João, em 29 de Outubro.</p>
<p><span id="more-117"></span><br />
<em>MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES!</p>
<p>						Canto aqueles que caíram<br />
						Os que deitados à terra<br />
						Já estão nascendo no trigo (…)</p>
<p>								(Rafael Alberti)</p>
<p>Viemos homenagear homens simples que veneramos. Muitos dos seus nomes entraram no imaginário colectivo: Bento Gonçalves, Mário Castelhano e tantos outros. Direi retomando o poeta Rafael Alberti na evocação dos mártires da Espanha republicana: “A quem nomearei primeiro? / Ninguém aqui é segundo / quando o aço é de aço.” Todos os que resistiram à brutalidade e à infâmia merecem o primeiro lugar.</p>
<p>Viemos homenagear homens comuns, operários, marinheiros, intelectuais. Viemos prestar homenagem aos marinheiros do “Afonso de Albuquerque”, do “Dão, do “Bartolomeu Dias” que ousaram levantar-se contra a ditadura; aos operários da Marinha Grande que tomaram a vila em protesto contra a ilegalização dos sindicatos livres; e a todos aqueles que vieram da luta legal e clandestina contra o fascismo e pela liberdade. </p>
<p>Eram comunistas, anarquistas, democratas, homens que se orgulhavam dos seus ideais e por eles arriscavam a vida. Acreditavam na justeza da sua causa e que a história a tinha designado como vencedora.</p>
<p>	Me feriram golpearam<br />
	Até a morte me deram<br />
	Nunca nunca me dobraram.</p>
<p>Os homens que hoje homenageamos desembarcaram do navio “Loanda” no dia 29 de Outubro de 1936 na Achada Grande do Tarrafal, ilha de Santiago de Cabo Verde. Eram 158 presos políticos. Inauguravam o Campo de Concentração do Tarrafal, concebido segundo o modelo nazi. Campo da Morte Lenta lhe chamaram.<br />
“Daqui ninguém sai com vida. Vieram para morrer”.</p>
<p>O campo erguia-se num areal encravado entre os montes e o mar, sujeito a altas temperaturas e ao flagelo dos mosquitos. Não havia água nem árvores mas vento e pântanos na época das chuvas. O recinto prisional, cercado por arame farpado, ocupava um rectângulo de cento e cinquenta metros de largo por duzentos de comprido. Dentro doze barracas de lona, que o sol e a chuva rapidamente apodreceram, aguardavam os prisioneiros.<br />
Mais tarde abriram uma vala a toda a volta com três metros de profundidade. A terra retirada serviu para erguer um talude por onde corria a vereda permanentemente patrulhada pelos soldados da guarda. Em cada um dos quatro cantos, uma rotunda em cimento, que servia de trincheira e, se necessário, de ninho de metralhadoras. Dois torreões redondos flanqueavam a entrada e a passagem para a ponte sobre a vala e para a última porta de arame farpado.<br />
Os presos políticos estavam agora completamente isolados do mundo exterior. As imagens legais que dele chegavam eram as das sentinelas com as suas armas, as dos guardas e as do director do campo e dos carrascos da PVDE.</p>
<p>Sujeitaram-nos a trabalhos forçados sem outro sentido senão o da humilhação e o da destruição física. Inventaram a “Frigideira”, uma caixa de cimento de nove metros quadrados onde o ar e a luz entravam por buracos abertos na porta. Por vezes a sede era tanta que passavam a língua pelas paredes para absorver as gotas da respiração. Gabriel Pedro viveu naquele inferno cento e cinquenta e três dias. </p>
<p>Cedo chegaram as doenças e a morte. A febre devorava os corpos. Houve momentos em que na barraca da enfermaria mortos e vivos se confundiam. Deram-lhes choques eléctricos nos pés. O marinheiro João Faria Borda reagiu e sobreviveu depois de dezasseis anos de presídio.</p>
<p>O Campo da Morte não existia só para dobrar e liquidar os presos mas para ameaçar toda e qualquer resistência no país. “Sabem o que vos espera.”<br />
Pelo Campo passaram até 1954 trezentos e quarenta presos políticos, trinta e dois dos quais estão aqui sepultados. Morreram na força da vida: dois contavam vinte e quatro anos, os mais entre vinte e quatro e quarenta anos. Em 1978 uma multidão, calculada em 200 000 pessoas, acompanhou os seus restos mortais até este mausoléu e memorial.</p>
<p>Certamente, aos presos não faltaram horas e horas de angústia e desespero. Não estavam no palco. Ninguém via como sofriam e aguentavam. Os olhos que os cercavam ressumavam ódio e procuravam todos os pretextos para a humilhação, os espancamentos e as torturas. Mas muitos podiam subscrever, dia a dia, as palavras de Spartaco Fontano, fuzilado pelos nazis: “Querida Mãe”, “não culpe mais ninguém pela minha morte, eu mesmo escolhi o meu destino”. </p>
<p>Vivia-se então o tempo de Guernica, do odor a sangue e fezes que soprava das terras de Espanha –“Não passarão!”. Era o tempo das hordas nazis, da Gestapo, da PVDE e de outras polícias de repressão, tortura e morte.<br />
À Guerra Civil e transnacional de Espanha, onde participaram voluntários de cinquenta países, sucedia a Segunda Guerra Mundial com o seu cortejo de horrores: 50 milhões de mortos, milhões de mutilados, campos de extermínio, fábricas, cidades e campos destruídos. Mas, por toda a parte, dos escombros brotava impetuosa a esperança de que no final viria um mundo melhor.<br />
E quando chegou a Vitória, multidões em delírio inundaram no mundo as ruas e praças das cidades vencedoras; as ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra e das principais cidades de Portugal.<br />
A liberdade estava já ali. Demorou vinte e nove anos, afinal.<br />
Não podemos perder a liberdade. Olhai, como levou tempo a recuperá-la.</p>
<p>Em 1954 desactivaram o Campo de Concentração do Tarrafal. Do areal da morte saía então o último e único prisioneiro: Francisco Miguel Duarte. Sei que sofreu as piores humilhações, espancamentos, a tortura da estátua, vinte e três anos de prisão.<br />
O Campo voltou a abrir entre 1963 e 1974. Para lá deportaram combatentes das ex-colónias portuguesas que lutavam pela independência política dos seus países.</p>
<p>É tempo de preservar a memória. Não permitamos que apaguem e destruam as marcas no Tarrafal, no Aljube, na sede da Pide, no Tribunal Plenário, em Caxias, na Pide do Porto, na Fortaleza de Angra, na Fortaleza de Peniche. Constituem um património indispensável para a pedagogia da liberdade e da democracia. Preservemo-lo para que os nossos filhos e os nossos netos digam connosco: NUNCA MAIS! </p>
<p>Viemos homenagear homens comuns que se tornaram heróis do seu tempo. E porquê, afinal? Porque ousaram desobedecer quando triunfavam os tambores da propaganda e do ódio.<br />
Viemos homenageá-los porque, mais de dois milénios volvidos, repetiam o gesto de Antígona contra as leis injustas de Creonte.</p>
<p>Não apaguemos a memória. Ela guarda as marcas que nos orientam no labirinto do futuro. Ele não segue exactamente o curso que lhe apontamos com a nossa luta, mas a acção fica a pesar na balança das vontades e das correntes ideológicas, económicas e sociais que as condicionam.</p>
<p>Passaram setenta anos sobre o dia que hoje assinalamos. À Guerra Civil de Espanha, à Segunda Guerra Mundial, à euforia e generosidade da Vitória, sucedeu a Guerra Fria e Quente e o colapso do socialismo “real” nos países de Leste.<br />
Falou-se então no fim da História, na harmonia que iria reinar entre os povos. Veio o mundo uni e pluripolar, aumentaram os conflitos, rebentaram novas e velhas guerras: a da Palestina, a do Afeganistão, a do Iraque.<br />
Ao mesmo tempo cerceiam-se cada vez mais as liberdades e ouvem-se em todos os tons as vozes que intentam mais uma vez bloquear os caminhos abertos pelo iluminismo e as revoluções.</p>
<p>As invenções tecnológicas das últimas décadas alteraram profundamente o curso da vida. O mundo em que nos criámos desaparece. E um pouco por todo o lado, acompanhados pelos seus escravos mecânicos e pelos escravos e mentores electrónicos e digitais, os homens estão cada vez mais ricos de informação e mais sós. Falam cada vez menos e quase não sabem cantar.</p>
<p>No ar sobram as dúvidas e as interrogações: </p>
<p>Será que os homens estão mais livres e iguais?<br />
Todos são nossos próximos ou alguns nem próximos nem iguais? Os outros são ou não o mesmo, a única Humanidade, criadora e fantástica, mas frágil e que tarda em perder os dentes do lobo?</p>
<p>Estamos a vencer a ignorância e a pobreza? Estamos a diminuir o fosso que separa os ricos dos pobres?</p>
<p>O poder e a verdade ainda nascem da força das armas?</p>
<p>Ao abrirmos as caixas da vida e da morte não estamos a pôr em causa a sobrevivência dos homens na Terra?</p>
<p>Viemos homenagear os bravos do Tarrafal. Queria terminar com palavras de esperança e um apelo: Gozemos este sol, a alegria, o dar das mãos e dos corpos. Mas tenho de voltar a Rafael Alberti:</p>
<p>	Me ponho agora a cantar<br />
	Coplas que levam mais sangue<br />
	Do que areias leva o mar (…)<br />
</em><br />
Lisboa, Cemitério do Alto de São João, 29 de Outubro de 2006</p>]]></content:encoded>
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