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“Há que tirar os cadáveres do Armário”

Margarida Marante
entrevista Raimundo Narciso para o semanário Sol
(2008-11-08)

SE BEM ME LEMBRO

UM colóquio sobre o Tarrafal para contar urna história triste sobre o nosso passado ou avivar a memória dos mais esquecidos… Por de trás, um nome curioso: ‘Não Apaguem A Memória, um Movimento presidido por Raimundo Narciso quadro importante do PCP na clandestinidade e que, entretanto, saiu em dissidência. É a segunda vez que me encontro com ele para o entrevistar. Personalidade for te, rigoroso e emotivamente controlado, qualidades que muitos anos vividos na clandestinidade terão influenciado. Hoje vive entu­siasmado com a receptividade às suas ideias por parte do país ins titucional, seja no apoio ao colóquio que decorreu no passado fim-de-semana no Parlamento, seja na possível promoção do dia da memória dos resistentes e das vítimas da ditadura, ou ainda da transformação da cadeia do Aljube em museu ou da alteração dos manuais de História Tarefas imensas, não fosse também imensa a perseverança do meu convidado.

Como surgiu a ideia de fazer um colóquio sobre o Tarrafal?

Enquadra-se no objecto do Mo vimento Cívico ‘Não Apaguem a Memória’ (NAM), centrado na preservação da memória da luta de quase meio século contra a di tadura e o colonialismo. O cam po de concentração do Tarrafal é paradigmático, simbólico des sa luta.

É a primeira intervenção pública so bre o Tarrafal sem que a iniciativa seja do PCP?

É provável Tivemos o cuidado de convidar para assistir a União de Resistentes Antifascistas Portu gueses (URAP), uma organização do PCP, que não respondeu ao apelo. É pena, porque no Tarrafal houve uma presença maiori do campo.

É vosso propósito transformar o dia 29 de Outubro numa efeméride?

A sugestão partiu de um dos membros da associação, Ed campo de concentração do Tarrafal po deria ser um dia para assinalar a memória dos resistentes.

A ideia vai ter receptividade?

Acho que é boa, mas não quere mos impor a nossa vontade. A sua concretização deve resultar de um consenso alargado.

Nunca estere preso no Tarrafal?

Nem no Tarrafal, nem noutra prisão.

Mas tem consciência que era um campo muito duro.

Extremamente penoso. Suponho mesmo que as suas condições fo pessoas morressem. Mor reram 32 pessoas, muitas ainda muito novas: 10 tinham menos de 30 anos. Aliás, os presos do grupo da revolta dos marinhei ros, dos anos 30, tinham 18 ou 20 anos. Mas o mais novo prisioneiro foi Ed mundo Pedro. Tinha 17 anos.
As condições eram extremamente más, os presos morriam de doenças, além de serem submetidas a um tra balho muito duro e por vezes à tortura da ‘frigideira’: eram co temperaturas muito elevadas. O ambiente também molestava do ponto de vista psi cológico e moral. Todas as difi­culdades e humilhações a que os presos eram submetidos criavam um ambiente horrendo.

Se não forem iniciativas como esta o Tarrafal apaga-se da memória ou nem chega a entrar, no caso dos mais novos ?

Exactamente. Propomos fazer eventos educativos como este co lóquio, que envolveu o apoio do Presidente da Assembleia da Re pública e dos ministros da Justi ça e da Cultura. Um dos objecti vos centrais é que o Estado, e não apenas nós ou qualquer organização pri vada, assuma a responsabilidade de preservar a memória desse pe­ríodo e dos seus locais mais sim bólicos. O NAM nasceu de um grupo que se indignou pela trans formação da sede da PIDE/DGS num condomínio privado; pre tendíamos que no local houvesse algo que simbolizasse o que ali se passou durante tantos anos. Outra das metas é a transformação da ca deia do Aljube num museu da re sistência e da Liberdade.

Têm apoios para Isso?

Não temos, incitamos a que o Es tado promova e aceite o projecto. E a ideia foi bem recebida, aguar damos agora que levem a bom termo a nossa pretensão.

Os portugueses estão receptivos a descobrir esse período da História?

Acho que os jovens, que não viveram esse período, estão receptivos. É uma atribuição do Estado facultar esse conhecimento às novas ge rações. Conhecimento que — como sucedeu com a Revolução Republicana de 1910, que foi de certo modo apagada pelo regime que se seguiu é muito pou co facultado nas escolas.
Outro dos objec tivos é promover um roteiro na cional que ofereça um mapa dos locais com uma descrição histó­rica dos acontecimentos. E tam bém estamos empenhados na criação de instrumentos didácti cos que possam ser utilizados nos currículos escolares. Não de pende de nós, mas é um serviço que pretendemos prestar porque vemos que na generalidade as pessoas não sabem nada do que se passou.

Associação quer memorial às vítimas da PIDE

Local escolhido é um muro em frente à antiga sede da polícia política

A associação cívica «Não Apaguem a Memória» (NAM) quer fazer um memorial, com artistas portugueses, às vítimas do fascismo e da repressão da PIDE num muro em frente à antiga sede da polícia política, em Lisboa. 

O projecto foi revelado por Raimundo Narciso, da direcção da associação, no final de uma audiência, esta manhã, com o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama. 

Esse memorial ficaria num muro situado na Rua António Maria Cardoso, junto ao edifício onde funcionou a sede da PIDE/DGS, e que fica numa propriedade do Marquês de Pombal. 

Em declarações à Agência Lusa, Raimundo Narciso, presidente da NAM, afirmou que já foram feitos contactos com o dono da propriedade e com a Câmara Municipal de Lisboa para ser criado esse memorial. 

O projecto passa por convidar artistas portugueses para fazer esse memorial «não só de evocação das vítimas da PIDE, mas também dos defensores da liberdade e de evocação do 25 de Abril» de 1974. 

Para esta iniciativa, além dos proprietários e da câmara lisboeta, a associação «Não Apaguem a Memória» pretende ter o apoio de «organizações com interesse na memória» desses anos, como a Fundação Humberto Delgado ou a Fundação Mário Soares ou a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP). 

Outros dos projectos são a criação de um museu da resistência e liberdade na antiga cadeia do Aljube, além de um núcleo museológico no local da antiga sede da polícia, transformado em condomínio privado

notícia da Lusa

 

50 anos da carta de D. António Ferreira Gomes a Salazar evocados domingo em COIMBRA

Cidadãos de Coimbra evocam domingo a carta a Salazar que o bispo do Porto D. António Ferreira Gomes escreveu há 50 anos, demonstrando que uma parte da Igreja Católica estava contra a ditadura 

O historiador Amadeu Carvalho Homem, que participa na homenagem ao prelado que desafiou António Salazar, disse hoje à agência Lusa que o ditador «não foi capaz de contestar os aspectos fundamentais da carta».

«Uma certa Igreja estava em profunda discrepância com o regime», sublinhou, lembrando que «Salazar teve sempre a preocupação de se apresentar como muito próximo das estruturas» da Igreja de Roma, chefiada em Portugal pelo seu amigo cardeal António Cerejeira.

Além de Carvalho Homem, catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (UC), intervêm na sessão evocativa José Manuel Pureza, professor da Faculdade de Economia da UC, e José Dias, membro do movimento cívico Não Apaguem a Memória e principal promotor do programa.

«A carta do bispo do Porto produziu o efeito de uma bomba», por revelar que, ao contrário da ideia que Salazar tentava fazer passar, «havia em Portugal, afinal, duas igrejas», uma tradicional e conservadora – «mais ou menos cúmplice de tudo o que o Estado Novo fazia» – e outra progressista, que tinha críticas a fazer-lhe.

Frisando que D. António Ferreira Gomes, condenado ao exílio por ter posto em causa a ditadura, «era um dos grandes intelectuais portugueses do seu tempo», Carvalho Homem disse que a carta a Salazar veio «acrescentar uma dimensão política» à sua acção enquanto pastor da Igreja.

Em declarações à Lusa, José Manuel Pureza disse que a carta do bispo do Porto «em bom rigor não era uma carta», mas antes «um documento preparatório de uma reunião» que D. António teria com Salazar.

Foi escrito a 13 de Julho de 1958, no rescaldo das eleições presidenciais, ganhas pelo candidato do regime, Américo Thomaz, um desfecho contestado pela oposição, que apoiava Humberto Delgado.

Na carta, o prelado afirmava «que o comunismo pode coincidir com certas incidências concretas da sociologia cristã, que lhe é anterior, sem que por isso haja razão ou vantagem em falar de filocomunismo ou criptocomunismo para lançar a divisão entre cristãos».

O bispo do Porto dirigia-se a um ditador que não conhecia o estrangeiro e que nunca visitou os territórios de além-mar que constituíam o império «do Minho a Timor».

«Apesar do meu feitio sedentário, não tenho nos últimos anos recusado as oportunidades que se me oferecem de viajar pela Europa (…). Não poderei dizer quanto me aflige o já hoje exclusivo privilégio português do mendigo, do pé-descalço, do maltrapilho», lamentava.
Para José Pureza, a carta a Salazar é «um gesto de muita coragem» e traduz «uma reflexão crítica vinda da Igreja, considerada um dos pilares do regime».

O docente universitário salientou que o documento de D. António questiona «aspectos centrais» do Estado Novo, como o corporativismo e a relação do capital com o trabalho, bem como «a autonomia, ou não, dos católicos face ao regime».

Na sua opinião, o prelado veio afirmar também «o primado da consciência», demonstrando «que o pluralismo das escolhas é um bem ao serviço da mensagem cristã».

«A carta tem ainda um juízo crítico muito actual, que é o do primado das finanças públicas sobre as pessoas», disse, para recordar que «a grande obsessão de Salazar pelo equilíbrio das contas públicas é um velho mote da política portuguesa».

A homenagem a D. António Ferreira Gomes, em Coimbra, visa «não descuidar a memória daqueles que se revêem na atitude que tomou há 50 anos», segundo José Dias.

«Foi a primeira vez que um destacado membro da Igreja questionou o corporativismo, apelando ao sindicalismo livre e defendendo o direito à greve», enfatizou o organizador.

A sessão realiza-se domingo, às 11h00, junto ao monumento ao 25 de Abril, defronte do edifício onde funcionou a PIDE, a polícia política da ditadura. 

Lusa / SOL 

 




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