{"id":117,"date":"2006-10-31T14:15:02","date_gmt":"2006-10-31T13:15:02","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/10\/31\/antonio-borges-coelho-na-homenagem-aos-tarrafalistas\/"},"modified":"2006-12-03T11:29:35","modified_gmt":"2006-12-03T10:29:35","slug":"antonio-borges-coelho-na-homenagem-aos-tarrafalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/10\/31\/antonio-borges-coelho-na-homenagem-aos-tarrafalistas\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Borges Coelho na homenagem aos Tarrafalistas"},"content":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Borges Coelho, que foi o orador convidado pela URAP, entidade organizadora da homenagem aos Tarrafalistas realizada no Cemit\u00e9rio do Alto de S. Jo\u00e3o, em 29 de Outubro.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\n<em>MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES!<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\tCanto aqueles que ca\u00edram<br \/>\n\t\t\t\t\t\tOs que deitados \u00e0 terra<br \/>\n\t\t\t\t\t\tJ\u00e1 est\u00e3o nascendo no trigo (\u2026)<\/p>\n<p>\t\t\t\t\t\t\t\t(Rafael Alberti)<\/p>\n<p>Viemos homenagear homens simples que veneramos. Muitos dos seus nomes entraram no imagin\u00e1rio colectivo: Bento Gon\u00e7alves, M\u00e1rio Castelhano e tantos outros. Direi retomando o poeta Rafael Alberti na evoca\u00e7\u00e3o dos m\u00e1rtires da Espanha republicana: \u201cA quem nomearei primeiro? \/ Ningu\u00e9m aqui \u00e9 segundo \/ quando o a\u00e7o \u00e9 de a\u00e7o.\u201d Todos os que resistiram \u00e0 brutalidade e \u00e0 inf\u00e2mia merecem o primeiro lugar.<\/p>\n<p>Viemos homenagear homens comuns, oper\u00e1rios, marinheiros, intelectuais. Viemos prestar homenagem aos marinheiros do \u201cAfonso de Albuquerque\u201d, do \u201cD\u00e3o, do \u201cBartolomeu Dias\u201d que ousaram levantar-se contra a ditadura; aos oper\u00e1rios da Marinha Grande que tomaram a vila em protesto contra a ilegaliza\u00e7\u00e3o dos sindicatos livres; e a todos aqueles que vieram da luta legal e clandestina contra o fascismo e pela liberdade. <\/p>\n<p>Eram comunistas, anarquistas, democratas, homens que se orgulhavam dos seus ideais e por eles arriscavam a vida. Acreditavam na justeza da sua causa e que a hist\u00f3ria a tinha designado como vencedora.<\/p>\n<p>\tMe feriram golpearam<br \/>\n\tAt\u00e9 a morte me deram<br \/>\n\tNunca nunca me dobraram.<\/p>\n<p>Os homens que hoje homenageamos desembarcaram do navio \u201cLoanda\u201d no dia 29 de Outubro de 1936 na Achada Grande do Tarrafal, ilha de Santiago de Cabo Verde. Eram 158 presos pol\u00edticos. Inauguravam o Campo de Concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal, concebido segundo o modelo nazi. Campo da Morte Lenta lhe chamaram.<br \/>\n\u201cDaqui ningu\u00e9m sai com vida. Vieram para morrer\u201d.<\/p>\n<p>O campo erguia-se num areal encravado entre os montes e o mar, sujeito a altas temperaturas e ao flagelo dos mosquitos. N\u00e3o havia \u00e1gua nem \u00e1rvores mas vento e p\u00e2ntanos na \u00e9poca das chuvas. O recinto prisional, cercado por arame farpado, ocupava um rect\u00e2ngulo de cento e cinquenta metros de largo por duzentos de comprido. Dentro doze barracas de lona, que o sol e a chuva rapidamente apodreceram, aguardavam os prisioneiros.<br \/>\nMais tarde abriram uma vala a toda a volta com tr\u00eas metros de profundidade. A terra retirada serviu para erguer um talude por onde corria a vereda permanentemente patrulhada pelos soldados da guarda. Em cada um dos quatro cantos, uma rotunda em cimento, que servia de trincheira e, se necess\u00e1rio, de ninho de metralhadoras. Dois torre\u00f5es redondos flanqueavam a entrada e a passagem para a ponte sobre a vala e para a \u00faltima porta de arame farpado.<br \/>\nOs presos pol\u00edticos estavam agora completamente isolados do mundo exterior. As imagens legais que dele chegavam eram as das sentinelas com as suas armas, as dos guardas e as do director do campo e dos carrascos da PVDE.<\/p>\n<p>Sujeitaram-nos a trabalhos for\u00e7ados sem outro sentido sen\u00e3o o da humilha\u00e7\u00e3o e o da destrui\u00e7\u00e3o f\u00edsica. Inventaram a \u201cFrigideira\u201d, uma caixa de cimento de nove metros quadrados onde o ar e a luz entravam por buracos abertos na porta. Por vezes a sede era tanta que passavam a l\u00edngua pelas paredes para absorver as gotas da respira\u00e7\u00e3o. Gabriel Pedro viveu naquele inferno cento e cinquenta e tr\u00eas dias. <\/p>\n<p>Cedo chegaram as doen\u00e7as e a morte. A febre devorava os corpos. Houve momentos em que na barraca da enfermaria mortos e vivos se confundiam. Deram-lhes choques el\u00e9ctricos nos p\u00e9s. O marinheiro Jo\u00e3o Faria Borda reagiu e sobreviveu depois de dezasseis anos de pres\u00eddio.<\/p>\n<p>O Campo da Morte n\u00e3o existia s\u00f3 para dobrar e liquidar os presos mas para amea\u00e7ar toda e qualquer resist\u00eancia no pa\u00eds. \u201cSabem o que vos espera.\u201d<br \/>\nPelo Campo passaram at\u00e9 1954 trezentos e quarenta presos pol\u00edticos, trinta e dois dos quais est\u00e3o aqui sepultados. Morreram na for\u00e7a da vida: dois contavam vinte e quatro anos, os mais entre vinte e quatro e quarenta anos. Em 1978 uma multid\u00e3o, calculada em 200 000 pessoas, acompanhou os seus restos mortais at\u00e9 este mausol\u00e9u e memorial.<\/p>\n<p>Certamente, aos presos n\u00e3o faltaram horas e horas de ang\u00fastia e desespero. N\u00e3o estavam no palco. Ningu\u00e9m via como sofriam e aguentavam. Os olhos que os cercavam ressumavam \u00f3dio e procuravam todos os pretextos para a humilha\u00e7\u00e3o, os espancamentos e as torturas. Mas muitos podiam subscrever, dia a dia, as palavras de Spartaco Fontano, fuzilado pelos nazis: \u201cQuerida M\u00e3e\u201d, \u201cn\u00e3o culpe mais ningu\u00e9m pela minha morte, eu mesmo escolhi o meu destino\u201d. <\/p>\n<p>Vivia-se ent\u00e3o o tempo de Guernica, do odor a sangue e fezes que soprava das terras de Espanha \u2013\u201cN\u00e3o passar\u00e3o!\u201d. Era o tempo das hordas nazis, da Gestapo, da PVDE e de outras pol\u00edcias de repress\u00e3o, tortura e morte.<br \/>\n\u00c0 Guerra Civil e transnacional de Espanha, onde participaram volunt\u00e1rios de cinquenta pa\u00edses, sucedia a Segunda Guerra Mundial com o seu cortejo de horrores: 50 milh\u00f5es de mortos, milh\u00f5es de mutilados, campos de exterm\u00ednio, f\u00e1bricas, cidades e campos destru\u00eddos. Mas, por toda a parte, dos escombros brotava impetuosa a esperan\u00e7a de que no final viria um mundo melhor.<br \/>\nE quando chegou a Vit\u00f3ria, multid\u00f5es em del\u00edrio inundaram no mundo as ruas e pra\u00e7as das cidades vencedoras; as ruas de Lisboa, do Porto, de Coimbra e das principais cidades de Portugal.<br \/>\nA liberdade estava j\u00e1 ali. Demorou vinte e nove anos, afinal.<br \/>\nN\u00e3o podemos perder a liberdade. Olhai, como levou tempo a recuper\u00e1-la.<\/p>\n<p>Em 1954 desactivaram o Campo de Concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal. Do areal da morte sa\u00eda ent\u00e3o o \u00faltimo e \u00fanico prisioneiro: Francisco Miguel Duarte. Sei que sofreu as piores humilha\u00e7\u00f5es, espancamentos, a tortura da est\u00e1tua, vinte e tr\u00eas anos de pris\u00e3o.<br \/>\nO Campo voltou a abrir entre 1963 e 1974. Para l\u00e1 deportaram combatentes das ex-col\u00f3nias portuguesas que lutavam pela independ\u00eancia pol\u00edtica dos seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u00c9 tempo de preservar a mem\u00f3ria. N\u00e3o permitamos que apaguem e destruam as marcas no Tarrafal, no Aljube, na sede da Pide, no Tribunal Plen\u00e1rio, em Caxias, na Pide do Porto, na Fortaleza de Angra, na Fortaleza de Peniche. Constituem um patrim\u00f3nio indispens\u00e1vel para a pedagogia da liberdade e da democracia. Preservemo-lo para que os nossos filhos e os nossos netos digam connosco: NUNCA MAIS! <\/p>\n<p>Viemos homenagear homens comuns que se tornaram her\u00f3is do seu tempo. E porqu\u00ea, afinal? Porque ousaram desobedecer quando triunfavam os tambores da propaganda e do \u00f3dio.<br \/>\nViemos homenage\u00e1-los porque, mais de dois mil\u00e9nios volvidos, repetiam o gesto de Ant\u00edgona contra as leis injustas de Creonte.<\/p>\n<p>N\u00e3o apaguemos a mem\u00f3ria. Ela guarda as marcas que nos orientam no labirinto do futuro. Ele n\u00e3o segue exactamente o curso que lhe apontamos com a nossa luta, mas a ac\u00e7\u00e3o fica a pesar na balan\u00e7a das vontades e das correntes ideol\u00f3gicas, econ\u00f3micas e sociais que as condicionam.<\/p>\n<p>Passaram setenta anos sobre o dia que hoje assinalamos. \u00c0 Guerra Civil de Espanha, \u00e0 Segunda Guerra Mundial, \u00e0 euforia e generosidade da Vit\u00f3ria, sucedeu a Guerra Fria e Quente e o colapso do socialismo \u201creal\u201d nos pa\u00edses de Leste.<br \/>\nFalou-se ent\u00e3o no fim da Hist\u00f3ria, na harmonia que iria reinar entre os povos. Veio o mundo uni e pluripolar, aumentaram os conflitos, rebentaram novas e velhas guerras: a da Palestina, a do Afeganist\u00e3o, a do Iraque.<br \/>\nAo mesmo tempo cerceiam-se cada vez mais as liberdades e ouvem-se em todos os tons as vozes que intentam mais uma vez bloquear os caminhos abertos pelo iluminismo e as revolu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>As inven\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas das \u00faltimas d\u00e9cadas alteraram profundamente o curso da vida. O mundo em que nos cri\u00e1mos desaparece. E um pouco por todo o lado, acompanhados pelos seus escravos mec\u00e2nicos e pelos escravos e mentores electr\u00f3nicos e digitais, os homens est\u00e3o cada vez mais ricos de informa\u00e7\u00e3o e mais s\u00f3s. Falam cada vez menos e quase n\u00e3o sabem cantar.<\/p>\n<p>No ar sobram as d\u00favidas e as interroga\u00e7\u00f5es: <\/p>\n<p>Ser\u00e1 que os homens est\u00e3o mais livres e iguais?<br \/>\nTodos s\u00e3o nossos pr\u00f3ximos ou alguns nem pr\u00f3ximos nem iguais? Os outros s\u00e3o ou n\u00e3o o mesmo, a \u00fanica Humanidade, criadora e fant\u00e1stica, mas fr\u00e1gil e que tarda em perder os dentes do lobo?<\/p>\n<p>Estamos a vencer a ignor\u00e2ncia e a pobreza? Estamos a diminuir o fosso que separa os ricos dos pobres?<\/p>\n<p>O poder e a verdade ainda nascem da for\u00e7a das armas?<\/p>\n<p>Ao abrirmos as caixas da vida e da morte n\u00e3o estamos a p\u00f4r em causa a sobreviv\u00eancia dos homens na Terra?<\/p>\n<p>Viemos homenagear os bravos do Tarrafal. Queria terminar com palavras de esperan\u00e7a e um apelo: Gozemos este sol, a alegria, o dar das m\u00e3os e dos corpos. Mas tenho de voltar a Rafael Alberti:<\/p>\n<p>\tMe ponho agora a cantar<br \/>\n\tCoplas que levam mais sangue<br \/>\n\tDo que areias leva o mar (\u2026)<br \/>\n<\/em><br \/>\nLisboa, Cemit\u00e9rio do Alto de S\u00e3o Jo\u00e3o, 29 de Outubro de 2006<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Interven\u00e7\u00e3o de Ant\u00f3nio Borges Coelho, que foi o orador convidado pela URAP, entidade organizadora da homenagem aos Tarrafalistas realizada no Cemit\u00e9rio do Alto de S. Jo\u00e3o, em 29 de Outubro.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,7,19],"tags":[],"class_list":["post-117","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actividades","category-documentos","category-intervencoes"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/ptMuS-1T","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=117"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/117\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}