{"id":131,"date":"2006-12-08T14:12:54","date_gmt":"2006-12-08T13:12:54","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/12\/08\/borges-coelho-evoca-o-papel-do-tribunal-plenario-da-boa-hora\/"},"modified":"2006-12-08T14:14:02","modified_gmt":"2006-12-08T13:14:02","slug":"borges-coelho-evoca-o-papel-do-tribunal-plenario-da-boa-hora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/12\/08\/borges-coelho-evoca-o-papel-do-tribunal-plenario-da-boa-hora\/","title":{"rendered":"Borges Coelho evoca o papel do Tribunal Plen\u00e1rio da Boa Hora"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2006\/12\/20061206_borges_coelho.jpg\"><img decoding=\"async\" id=\"image129\" src=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2006\/12\/20061206_borges_coelhow.jpg\" alt=\"Borges Coelho, interven\u00e7\u00e3o na Boa Hora\" style=\"float:left;\" hspace=\"6\" vspace=\"4\" \/><\/a>Em nome das v\u00edtimas dos Tribunais Plen\u00e1rios, dos mortos e dos vivos, sa\u00fado os ju\u00edzes do Tribunal da Boa Hora que quiseram activar a mem\u00f3ria dos tempos sombrios. As v\u00edtimas que represento foram neste local gravemente ofendidas na sua dignidade e no seu pr\u00f3prio corpo. Avivar, hoje e aqui, a mem\u00f3ria constitui, pois, um acto necess\u00e1rio e exemplar de cidadania.<\/p>\n<p>Os presos pol\u00edticos, mulheres e homens, que durante dezenas de anos pisaram a barra deste tribunal, n\u00e3o eram gente vencida. Tinham experimentado os perigos da luta contra a ditadura e o rigor da vida clandestina. Tinham suportado a pris\u00e3o, os espancamentos, a tortura da est\u00e1tua, os meses de isolamento nos buracos do Aljube ou em Caxias. Muitas vezes chegavam aqui ainda com as marcas da tortura.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Esta sala, que foi do Tribunal Plen\u00e1rio, era previamente ocupada por agentes da pol\u00edcia. Um deles escrevia o relat\u00f3rio pormenorizado da audi\u00eancia e n\u00e3o se coibia de comentar a actua\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios ju\u00edzes. Mas a pol\u00edcia n\u00e3o podia impedir a presen\u00e7a de assistentes inc\u00f3modos. Desde logo, a dos advogados que gratuitamente e com elevado risco assumiam a defesa dos r\u00e9us. Depois, a das testemunhas que louvavam a conduta \u00e9tica dos acusados e por vezes defendiam a justeza das ideias que eles professavam. Algumas testemunhas sa\u00edam directamente da sala de audi\u00eancias para o calabou\u00e7o. E havia ainda os olhos e os ouvidos dos que conseguiam vencer a barreira.<\/p>\n<p>Os \u201cjulgamentos\u201d come\u00e7avam com a entrada do Promotor e dos Ju\u00edzes do Tribunal Plen\u00e1rio. Entravam sem venda nos olhos e sem balan\u00e7a. Sabiam ao que vinham: julgar mulheres e homens cujos processos tinham sido instru\u00eddos, n\u00e3o por ju\u00edzes, mas por agentes e inspectores da pol\u00edcia pol\u00edtica. E de que crimes eram essas mulheres e homens acusados? Do crime de exprimirem por palavras e escritos a liberdade de pensamento, do crime de exercerem a liberdade de reuni\u00e3o e de associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Tribunais Plen\u00e1rios integravam-se no sistema de terror, legitimando-o. <\/p>\n<p>No decorrer da audi\u00eancia os acusados acusavam. A televis\u00e3o n\u00e3o estava l\u00e1 para abrir uma janela para o mundo; a imprensa silenciava; o pa\u00eds seguia cabisbaixo. Mas as vozes daqueles que aqui se ergueram acusando ecoaram fundo no cora\u00e7\u00e3o de muitos portugueses. N\u00e3o vou referir nomes. Alguns t\u00eam o seu lugar na nossa hist\u00f3ria. Hoje lembro somente aqueles que acusaram e de que ningu\u00e9m fala. Por vezes agredidos e empurrados para o calabou\u00e7o.<\/p>\n<p>Estas paredes assistiram a muita agonia, a opress\u00e3o, a desprendimento total das coisas terrenas, a gestos comoventes de sacrif\u00edcio e dedica\u00e7\u00e3o aos outros.<\/p>\n<p>Mulheres e homens que nada tinham sen\u00e3o os corpos e a mente indicavam com o seu sacrif\u00edcio que h\u00e1 momentos em que \u00e9 preciso dizer n\u00e3o para que a \u00e1gua da vida corra limpa.<\/p>\n<p>Vinham de todas as camadas sociais mas predominavam os camponeses, os oper\u00e1rios, os intelectuais e os jovens. Recordo-os a todos como pessoas nas suas diferen\u00e7as sociais e pol\u00edticas e queria com estas palavras erguer um longo mural que chamasse, um a um, todos os nomes.<br \/>\nEles assumiam, letrados ou n\u00e3o, a dignidade antiga e quase sagrada de S\u00f3crates perante os quinhentos ju\u00edzes do tribunal de Atenas.<\/p>\n<p>No final do espect\u00e1culo, o Tribunal Plen\u00e1rio condenava as v\u00edtimas a anos e anos de pris\u00e3o, a que acrescentava as medidas de seguran\u00e7a de seis meses a tr\u00eas anos, renov\u00e1veis tantas vezes quantas a pol\u00edcia pol\u00edtica decidisse com a d\u00f3cil assinatura dos servidores do Plen\u00e1rio. <\/p>\n<p>Renovo a sauda\u00e7\u00e3o a todos quantos participaram nesta breve mem\u00f3ria dos tempos sombrios. Mas as \u00faltimas palavras reservo-as para a primeira noite dos condenados depois da leitura da senten\u00e7a: embrulhados nas mantas imundas, cortados da vida, sem outro futuro \u00e0 vista que n\u00e3o o do c\u00e1rcere e o da \u201cf\u00e9\u201d. <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2006\/12\/20061206_borges_coelho2.jpg\"><img decoding=\"async\" id=\"image132\" src=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2006\/12\/20061206_borges_coelho2w.jpg\" alt=\"Borges Coelho, interven\u00e7\u00e3o na Boa Hora\" \/><\/a><\/p>\n<p>6-12-06<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em nome das v\u00edtimas dos Tribunais Plen\u00e1rios, dos mortos e dos vivos, sa\u00fado os ju\u00edzes do Tribunal da Boa Hora que quiseram activar a mem\u00f3ria dos tempos sombrios. 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