{"id":1328,"date":"2012-10-06T23:08:39","date_gmt":"2012-10-06T23:08:39","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/?p=1328"},"modified":"2012-10-09T21:18:43","modified_gmt":"2012-10-09T21:18:43","slug":"a-celebracao-popular-do-5-de-outubro-foi-a-promovida-pelo-nam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2012\/10\/06\/a-celebracao-popular-do-5-de-outubro-foi-a-promovida-pelo-nam\/","title":{"rendered":"A celebra\u00e7\u00e3o popular do 5 de outubro foi a promovida pelo NAM"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/imagesCADIBALP.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1329\" title=\"Festa da Rep\u00fablica\" src=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/imagesCADIBALP.jpg\" alt=\"\" width=\"254\" height=\"198\" \/><\/a>300 e tal pessoas na nossa festa! Um conv\u00edvio muito fraterno, animado pela fanfarra, seguido de sess\u00e3o\/espet\u00e1culo extraordinariamente aplaudida, a par e passo.<br \/>\nDois importantes discursos: de Ant\u00f3nio Borges Coelho e Pedro Ad\u00e3o e Silva.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nAqui ficam:<br \/>\n A <a href=\"#hp\">interven\u00e7\u00e3o de abertura feita pela presidente do NAM<\/a>, na abertura da sess\u00e3o<br \/>\n O <a href=\"#abc\">discurso de Ant\u00f3no Borges Coelho<\/a> (Historiador, fundador do NAM e s\u00f3cio honor\u00e1rio do NAM)<br \/>\n O <a href=\"#pa\">discurso de Pedro Ad\u00e3o e Silva<\/a> ( polit\u00f3logo, membro da dire\u00e7\u00e3o do NAM).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"hp\"><\/a><\/p>\n<p><strong>Palavras da presidente do NAM na abertura da sess\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Amigas e amigos do Movimento C\u00edvico N\u00e3o Apaguem a Memoria e outros companheiros, aqui presentes:<\/p>\n<p>Antes de darmos in\u00edcio \u00e0 sess\u00e3o, algumas palavrinhas de sentida gratid\u00e3o que vos trago dos corpos gerentes que aqui represento.<\/p>\n<p>Dirijo-me, em primeiro lugar, aos presentes neste espa\u00e7o, que acorreram deste modo t\u00e3o expressivo ao nosso convite. A vossa ades\u00e3o a este evento \u00e9 um est\u00edmulo para as actividades que pretendemos levar a cabo, com vista \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o e \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva dos combates pela democracia e pela liberdade, travados antes do 25 de Abril. Contem connosco, que n\u00f3s contamos convosco para que n\u00e3o se apague a mem\u00f3ria. Obrigada.<br \/>\nAgradecemos \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o da Academia Recreativa de Santo Amaro ter-nos acolhido nesta casa, e tornado poss\u00edvel este espet\u00e1culo. Particularmente, ao Director e equipa t\u00e9cica do Teatro, pelo apoio que nos deram, e com a disponibilidade que era essencial para vos oferecermos uma sess\u00e3o condigna.<br \/>\nPor fim, agradecemos a todos os amigos e amigas do nosso Movimento que, desde h\u00e1 meses, com preju\u00edzo das suas vidas pessoais, despenderam dias esfor\u00e7ados no trabalho an\u00f3nimo dos bastidores deste evento.<br \/>\nPara todos, um enorme e fraterno abra\u00e7o.<\/p>\n<p>Amanh\u00e3, dia Cinco de Outubro, o Movimento N\u00c3O APAGUEM A MEM\u00d3RIA comemora 7 anos de luta. Uma luta como movimento c\u00edvico nascido da sociedade civil, para fazer perdurar a mem\u00f3ria da resist\u00eancia \u00e0 ditadura do &#8220;Estado Novo&#8221; \u2013 <strong>Resist\u00eancia<\/strong> que foi um dos pilares determinantes do regime democr\u00e1tico em que vivemos \u2013 esta \u00e9, pois a <strong>nossa FESTA, a FESTA DO \u00abMOVIMENTO N\u00c3O APAGUEM A MEM\u00d3RIA\u00bb<\/strong>.<\/p>\n<p>Estamos aqui reunidos, na v\u00e9spera de um <strong>5 de Outubro<\/strong> que, tudo indica, ser\u00e1 o \u00faltimo com feriado nacional. Contra ventos e mar\u00e9s, persistimos, teimosamente, em n\u00e3o sermos c\u00famplices de um apagamento da mem\u00f3ria da IMPLANTA\u00c7\u00c3O DA REP\u00daBLICA. Celebramo-la, pois, em Lisboa, este ano, em festa. Numa festa popular, de entrada livre. Uma comemora\u00e7\u00e3o longe dos poderes p\u00fablicos institu\u00eddos, que teve in\u00edcio num ambiente alegre de conv\u00edvio e solidariedade e prossegue numa sess\u00e3o em que se respira hist\u00f3ria, cidadania e cultura. \u00c9 a <strong>FESTA da REP\u00daBLICA<\/strong>.<\/p>\n<p>Propomo-nos zelar pela continuidade geracional do cumprimento do dever de mem\u00f3ria. E foi com essa preocupa\u00e7\u00e3o que opt\u00e1mos por dedicar, no programa que aqui vos trazemos, uma especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de uma orquestra juvenil, que \u00e9 a face vis\u00edvel de um projecto educacional exemplar, de quem n\u00e3o renega os valores da Rep\u00fablica.<br \/>\nNesta iniciativa, quisemos resgatar da mem\u00f3ria do passado, para o palco da Academia de Santo Amaro, alguns daqueles que, durante o fascimo, contribu\u00edram para dignificar a Rep\u00fablica, pugnando pela Cultura e protagonizando combates pela Democracia e pela Liberdade.<\/p>\n<p>\u00abA Rep\u00fablica Portuguesa h\u00e1-de ser revolucion\u00e1ria, progressiva e profundamente democr\u00e1tica e, mal dela, se o n\u00e3o for!\u00bb \u2013 escreveu uma mulher, a hist\u00f3rica feminista republicana Ana de Castro Os\u00f3rio, em 1910, um m\u00eas antes da Implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. Escolhemos, para ser apresentadora desta sess\u00e3o, uma mulher que honra a sua mem\u00f3ria. Uma jovem, j\u00e1 conhecida pela sua interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica e pelos direitos de cidadania que reivindica para a sua gera\u00e7\u00e3o, com a tenacidade que muitos milhares de portugueses lhe reconhecem. \u00c9 Myriam Zaluar.<\/p>\n<p>(Helena Pato)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"abc\"><\/a><\/p>\n<p><strong>N\u00e3o Apagar\u00e3o a Mem\u00f3ria<\/strong><br \/><em>(A ser publicado no n\u00famero de Inverno da Seara Nova (n\u00ba 1722), a sair nos finais do ano)<\/em><\/p>\n<p>Aproxima-se mais um inverno. Traz fome e luta no ventre. Luta cidad\u00e3 em defesa da vida e da dignidade. Fustigam-nos com o desemprego, o trabalho prec\u00e1rio, a asfixia dos impostos, o prolongamento da jornada de trabalho, o roubo dos sal\u00e1rios e das reformas, os custos da casa, da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade. Para muitos, falta tudo, sobra a fome.<br \/>\nPara sair da crise, dizem os mandantes, tendes de ficar mais pobres. Empurram os jovens para fora. L\u00e1 fora, em para\u00edsos fiscais, engordam os especuladores. No pa\u00eds interior, o abandono e o fogo isolam e apressam a morte dos velhos, s\u00f3s, entre ru\u00ednas, nos restos das casas de adobe ou de granito. <\/p>\n<p>Em Setembro, multid\u00f5es de portugueses sa\u00edram \u00e0 rua. \u201cBasta!\u201d \u201cQueremos as nossas vidas de volta!\u201d \u201cEm defesa dos nossos filhos e netos!\u201d \u201cRua!\u201d \u00c9 neste contexto que hoje nos reunimos na Academia do Alto de Santo Amaro para celebrar a Rep\u00fablica. <\/p>\n<p>A vida marca a nossa mem\u00f3ria, os nossos corpos, o pensamento, as institui\u00e7\u00f5es sociais. A mem\u00f3ria resiste em tudo o que a m\u00e3o e a mente do homem criaram: a fala, a ideia, um afeto, um vaso, um colar, restos de cozinha, ferramentas, um templo, um livro, uma est\u00e1tua, um quadro, uma partitura.<br \/>\nA mem\u00f3ria sustenta os nossos gestos, alimenta o sentir, o entender e o agir dos indiv\u00edduos e dos povos. Na resposta necess\u00e1ria aos est\u00edmulos do dia, a mem\u00f3ria continuamente se renova e organiza. Alguns acontecimentos perdem-se na penumbra, outros ganham novo relevo. Por vezes, vestem as roupagens do mito.<br \/>\nMesmo nesta era tecnol\u00f3gica, a vida dos homens decorre no quadro dos ciclos da Natureza. Celebramos os dias fastos. Reativamos a mem\u00f3ria, celebrando. Celebrando as esta\u00e7\u00f5es, o nascimento, o amor, a amizade, os dias da liberta\u00e7\u00e3o, individual e coletiva. <\/p>\n<p>\u201cMataram o dr. Bombarda. \u2026 Toda a cidade republicana se transformou num vulc\u00e3o. \u00c0 uma hora da noite o Machado Santos, \u00e0 frente dum bando de populares, atira-se ao port\u00e3o de Infantaria 16\u201d, escreve Ra\u00fal Brand\u00e3o nas suas <em>Mem\u00f3rias<\/em> ao evocar os acontecimentos de 4 e 5 de Outubro de 1910.<br \/>\n\u201cToda a noite ou\u00e7o o estampido do canh\u00e3o que por vezes chega ao auge, para depois cair sobre a cidade um sil\u00eancio mortal, um sil\u00eancio pior. Que se passa? Distingo o assobio das granadas e de, quando em quando, um despeda\u00e7ar de beiral que cai \u00e0 rua. E isto dura at\u00e9 \u00e0 madrugada. De manh\u00e3 as tropas do Rossio rendem-se e os marinheiros desembarcam na Alf\u00e2ndega. \u00c0s oito e meia est\u00e1 proclamada a Rep\u00fablica. Passa aqui na rua de S\u00e3o Mamede um resto de Ca\u00e7adores 5, soldados exaustos, entre populares que os aclamam.\u201d <\/p>\n<p>Celebramos a implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica nos dias 4 e 5 de Outubro de 1910. O povo comum assaltou os quart\u00e9is para abrir um novo rumo empunhando como primeiras armas as pr\u00f3prias vidas. Aquelas horas de luta e sacrif\u00edcio ficaram como cicatrizes indel\u00e9veis no corpo do nosso imagin\u00e1rio, resistiram e resistem aos apagadores da mem\u00f3ria das vit\u00f3rias populares. Durante quase cinquenta anos, estes apagadores impediram que o ensino da Hist\u00f3ria abrisse as portas da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Ficavam cegos com as Luzes. Impunham as Trevas.<br \/>\nNesse tempo os de cima mandavam a pol\u00edcia carregar contra os que, junto da est\u00e1tua de Ant\u00f3nio Jos\u00e9 de Almeida, celebravam a Rep\u00fablica e gritavam Liberdade. Perseguiam tudo o que mexia fora do sistema: os trabalhadores, os estudantes, todos os que se n\u00e3o conformavam. Em frente da est\u00e1tua da Avenida da Liberdade, comemor\u00e1vamos o fim da Primeira Guerra Mundial e defend\u00edamos a paz entre os povos. Vinha a pol\u00edcia. Dali nos perseguiam at\u00e9 ao cemit\u00e9rio do Alto de S\u00e3o Jo\u00e3o onde se homenageavam os militares mortos no conflito. As manifesta\u00e7\u00f5es do 1\u00ba de Maio, na Avenida da Liberdade e no Rossio, eram dispersas a tiro com mortos e feridos. At\u00e9 que Abril nos restituiu a liberdade roubada.<\/p>\n<p>Hoje manifestamo-nos em defesa da dignidade e do futuro dos nossos filhos e netos, mas o trabalho dos apagadores da mem\u00f3ria e do branqueamento dos crimes do passado prossegue. Na comunica\u00e7\u00e3o social, nos livros, no abandono das pedras que testemunharam o sacrif\u00edcio e o sofrimento de gera\u00e7\u00f5es. Em Lisboa, a sede da Pide deu lugar a um hotel de luxo, as instala\u00e7\u00f5es da pide no Porto, na rua do Hero\u00edsmo, junto ao cemit\u00e9rio do Prado do Repouso, foram descaraterizadas.<br \/>\nNestes sete anos de vida, o <em>Movimento n\u00e3o apaguem a Mem\u00f3ria<\/em>, veio lembrar, sobretudo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es, o sofrimento e a luta daqueles que viveram nos anos sombrios da censura, da tortura, do Tarrafal, de Angra do Hero\u00edsmo, do Aljube, de Caxias, da Rua do Hero\u00edsmo no Porto, de Peniche, da emigra\u00e7\u00e3o em massa, da Guerra Colonial, da mis\u00e9ria, da ignor\u00e2ncia e do p\u00e9 descal\u00e7o. <\/p>\n<p>As revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o abrem a porta do para\u00edso. O seu triunfo alimenta-se dos corpos e de vidas despeda\u00e7adas. No dia da vit\u00f3ria o c\u00e9u toma o azul mais l\u00edmpido e os vencedores ouvem, por todo o lado, o c\u00e2ntico dos p\u00e1ssaros. A fraternidade comove-nos at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas. Somos d\u00e1diva. O corpo social arde em febre at\u00e9 que o campo se defina.<\/p>\n<p>Nesta evoca\u00e7\u00e3o da Primeira Rep\u00fablica queria lembrar os populares e militares que resistiram na Rotunda at\u00e9 \u00e0 vit\u00f3ria. E de um modo particular os fundadores e primeiros colaboradores da revista <em>Seara Nova.<\/em> O seu primeiro n\u00famero saiu em 15 de Outubro de 1921. Vai fazer 91 anos.<br \/>\nEntre os seareiros da Primeira Rep\u00fablica contam-se alguns dos mais destacados intelectuais da cultura portuguesa do s\u00e9culo XX, v\u00edtimas, tamb\u00e9m eles, da censura, da pris\u00e3o e dos apagadores da mem\u00f3ria: Ant\u00f3nio S\u00e9rgio, Aquilino Ribeiro, Ra\u00fal Proen\u00e7a, Jaime Cortes\u00e3o, Bento de Jesus Cara\u00e7a, Ra\u00fal Brand\u00e3o, Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is, Manuel Rodrigues Lapa, Irene Lisboa, Azevedo Gomes, C\u00e2mara Reis, Fernando Lopes Gra\u00e7a, Agostinho da Silva. E outros.<br \/>\nPretendiam renovar a mentalidade dos governantes, criar uma opini\u00e3o p\u00fablica nacional, opor-se ao esp\u00edrito de rapina das oligarquias dominantes e ao ego\u00edsmo dos grupos, classes e partidos, definir a grande causa da verdadeira revolu\u00e7\u00e3o, contribuir para a uni\u00e3o de todas as p\u00e1trias para que n\u00e3o voltassem as guerras fratricidas como fora a Primeira Guerra Mundial, a <em>Grande Guerra de 1914-1918<\/em>.<\/p>\n<p>E hoje? Como reagiriam face \u00e0 luta que travamos em defesa do estado social, pelo desenvolvimento de uma sociedade mais igual, pela dignidade do nosso povo?<br \/>\nCreio que Aquilino Ribeiro diria: \u201cquando os Lobos uivam\u201d, temos de sair \u00e0 rua e enfrent\u00e1-los. Ra\u00fal Proen\u00e7a vem acompanhado por C\u00e2mara Reis. \u201cEliminados todos os abusos, todas as falsifica\u00e7\u00f5es e todos os sofismas, Liberdade, Igualdade, Fraternidade, por maiores crimes que em nome delas tenham sido cometidos, s\u00e3o ainda as tr\u00eas estrelas m\u00e1ximas que alumiam o firmamento da Raz\u00e3o humana.\u201d C\u00e2mara Reis, o seareiro que mais tempo se manteve na dire\u00e7\u00e3o da <em>Seara, <\/em>concorda<em>. <\/em>Ant\u00f3nio S\u00e9rgio problematiza e insiste que \u00e9 necess\u00e1rio investir a fundo na educa\u00e7\u00e3o. A cultura e a cr\u00edtica fazem os cidad\u00e3os. Bento de Jesus Cara\u00e7a estende a educa\u00e7\u00e3o e a cultura ao povo oper\u00e1rio. \u201cAs ilus\u00f5es nunca s\u00e3o perdidas. Elas significam o que h\u00e1 de melhor na vida dos homens e dos povos.\u201d Temos de nos organizar na diferen\u00e7a e assentar bem os p\u00e9s na terra. At\u00e9 o pensamento matem\u00e1tico se desenvolve na resposta aos desafios que a Humanidade enfrenta na sua marcha irregular e acidentada. Jaime Cortes\u00e3o enaltece o poder local. Se pudemos vencer o Atl\u00e2ntico, chegar \u00e0 \u00cdndia e lan\u00e7ar as bases do Brasil, n\u00e3o podemos sair da crise e sustentar uma sociedade mais fraterna? Jos\u00e9 Rodrigues Migu\u00e9is traz consigo milhares de emigrantes, Gente de Terceira Classe, embarcados a granel nos por\u00f5es dos transatl\u00e2nticos. Manuel Rodrigues Lapa levanta um cartaz: n\u00e3o voltam a fazer de n\u00f3s os \u201ccafres da Europa.\u201d Agostinho da Silva olha para o pal\u00e1cio e exclama: \u201cIsto \u00e9 uma gatunagem.\u201d Fernando Lopes Gra\u00e7a de bra\u00e7o dado com Jos\u00e9 Gomes Ferreira e Carlos de Oliveira, cantam: \u201cTerra p\u00e1tria ser\u00e1s nossa, M\u00e3e pobre de gente pobre!\u201d<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 60, a <em>Seara Nova<\/em> recebeu um novo impulso animando o debate pol\u00edtico e ideol\u00f3gico. Nas v\u00e9speras do 25 de Abril, na dire\u00e7\u00e3o de Rog\u00e9rio Fernandes, Augusto Abelaira e Manuel Rodrigues Lapa, a revista chegou a organizar 18 000 assinantes e a imprimir uns 30 000 exemplares. Nos \u00faltimos anos, o seu diretor Ulpiano do Nascimento, que a morte nos levou neste ver\u00e3o, e uma equipa devotada de seareiros aguentam o milagre de manter a <em>Seara<\/em> num meio editorial dominado pelas grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o. Bem hajam!<\/p>\n<p>S\u00e3o muito duros os tempos que vivemos. N\u00e3o h\u00e1 paz entre as oliveiras. Ao longo dos anos, a <em>Seara Nova<\/em> indicou-nos um caminho quando abriu as suas p\u00e1ginas \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o e ao debate dos que, diferentes, lutavam pelo derrube da ditadura.<br \/>\nUnamo-nos, diferentes e iguais na defesa dum programa m\u00ednimo que est\u00e1 bem claro no nosso horizonte. Os dedos das m\u00e3os s\u00e3o desiguais e at\u00e9 contr\u00e1rios. No outono e no inverno que se aproxima, se nos unirmos como os dedos das nossas m\u00e3os, havemos de encontrar a estrada da esperan\u00e7a libertadora.<\/p>\n<p>Ant\u00f3nio Borges Coelho<br \/>\n4.10.1212<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<hr \/>\n<p><a name=\"pa\"><\/a><\/p>\n<p><strong>Mem\u00f3ria do Futuro<\/strong><\/p>\n<p>O historiador Anthony D. Smith escreveu que \u201csem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 identidade; sem identidade, n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o\u201d. Vale a pena refletir sobre a asser\u00e7\u00e3o, num dia em que se celebra pela \u00faltima vez o feriado do 5 de Outubro, data da implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, e quando, daqui a um par de meses, tamb\u00e9m o 1\u00ba de Dezembro, dia da nossa independ\u00eancia, deixar\u00e1 de ser feriado nacional.<br \/>\nComo acontece com todas as formas de identifica\u00e7\u00e3o (\u00e0 cabe\u00e7a a fam\u00edlia, mas, tamb\u00e9m, a religi\u00e3o), a perten\u00e7a a uma na\u00e7\u00e3o implica a partilha de refer\u00eancias a um passado comum, atrav\u00e9s do qual se constr\u00f3i uma identidade. A mem\u00f3ria colectiva \u00e9 o cimento da vida em comunidade e, numa era em que tudo se dispersa e parece ruir, a na\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda um lugar privilegiado de identifica\u00e7\u00e3o. Um porto de abrigo, mas, tamb\u00e9m, de partida.<br \/>\nH\u00e1, contudo, em torno da comemora\u00e7\u00e3o das efem\u00e9rides pol\u00edticas um discurso recorrente, que sugere que s\u00e3o resqu\u00edcios de um passado distante, que pouco diz aos portugueses de hoje. Nada de mais errado. Mesmo que a componente popular dos festejos se v\u00e1 diluindo \u2013 o que \u00e9 natural \u2013, essa n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para suprimir a celebra\u00e7\u00e3o institucional do que \u00e9 a mem\u00f3ria territorializada de uma \u2018comunidade imaginada\u2019, na feliz express\u00e3o de Benedict Anderson. Uma na\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m recordar, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o existe \u2018em si\u2019, como \u00e9 socialmente constru\u00edda e alicer\u00e7a-se n\u00e3o num conjunto de rela\u00e7\u00f5es individuais, mas numa meta-mem\u00f3ria, assente em afinidades pol\u00edticas que n\u00e3o podem deixar de ser invocadas \u2013 sob pena de se extinguirem, arrastando com elas a pr\u00f3pria comunidade pol\u00edtica.<br \/>\nAo suprimir os feriados do 5 de Outubro e do 1\u00ba de Dezembro, o Governo revela um misto de leviandade e irresponsabilidade, sugerindo, uma vez mais, que est\u00e1 convicto de que tudo \u00e9 reconstru\u00edvel a partir da vontade pol\u00edtica do momento, num experimentalismo que s\u00f3 pode correr mal. Mal ou bem, hoje com uma dist\u00e2ncia simb\u00f3lica crescente, os feriados que celebram o regime e a independ\u00eancia s\u00e3o uma forma de sincronizar o nosso passado colectivo com o presente, construindo uma mem\u00f3ria coletiva, que \u00e9 um requisito para existirmos como na\u00e7\u00e3o no futuro.<br \/>\nConv\u00e9m, contudo, n\u00e3o desvalorizar que o fim da celebra\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica tem tamb\u00e9m um efeito de oculta\u00e7\u00e3o do que \u00e9, ou deveria ser, o ch\u00e3o comum em que assenta o nosso regime e a nossa comunidade. A Rep\u00fablica, por um lado, como representa\u00e7\u00e3o pluralista e livre dos cidad\u00e3os, e quadro institucional no qual se constr\u00f3i a na\u00e7\u00e3o; por outro, como regime onde prevalece o primado da pol\u00edtica como resposta \u00e0 quest\u00e3o econ\u00f3mica e social e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<br \/>\nEsta crise tem sido, de facto, uma oportunidade para brincar com o fogo, e como descobriremos, infelizmente, \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e social seguir-se-\u00e1 a decad\u00eancia pol\u00edtica e institucional, num contexto em que os la\u00e7os que nos uniram foram sendo paulatinamente destru\u00eddos. Se n\u00e3o nos celebramos como comunidade pol\u00edtica independente, corremos o risco de o deixar de ser.<\/p>\n<p>(Pedro Ad\u00e3o e Silva discursou a partir deste texto, n\u00e3o havendo registo da totalidade da sua interven\u00e7\u00e3o)<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>300 e tal pessoas na nossa festa! Um conv\u00edvio muito fraterno, animado pela fanfarra, seguido de sess\u00e3o\/espet\u00e1culo extraordinariamente aplaudida, a par e passo. Dois importantes discursos: de Ant\u00f3nio Borges Coelho e Pedro Ad\u00e3o e Silva.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2,13,7,35,32,34],"tags":[],"class_list":["post-1328","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actividades","category-agenda","category-documentos","category-em-destaque","category-nam","category-primeira-pagina"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/ptMuS-lq","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1328","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1328"}],"version-history":[{"count":18,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1328\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1348,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1328\/revisions\/1348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}