{"id":1480,"date":"2013-04-22T14:37:29","date_gmt":"2013-04-22T14:37:29","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/?p=1480"},"modified":"2013-04-22T14:37:29","modified_gmt":"2013-04-22T14:37:29","slug":"dois-seminarios-sobre-censura-e-liberdade-de-expressao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2013\/04\/22\/dois-seminarios-sobre-censura-e-liberdade-de-expressao\/","title":{"rendered":"Dois semin\u00e1rios sobre Censura e Liberdade de Express\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Dois semin\u00e1rios sobre &#8216;Censura e Liberdade de Express\u00e3o&#8217;v\u00e3o decorrer j\u00e1 a partir do m\u00eas de abril, \u00a0promovidos pelo Movimento n\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria (NAM). O primeiro organizado em conjunto com o Centro de Investiga\u00e7\u00e3o de Media e Jornalismo (CIMJ) e o Projecto Censura ao Cinema e ao Teatro, decorrer\u00e1 no dia 23 de abril entre as 15 e as 18 horas, na Faculdade de Ci\u00eancias Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; o segundo acontecer\u00e1 a 15 de maio, das 10 \u00e0s 13 horas, na Universidade Lus\u00f3fona, em Lisboa, e resulta de uma parceira entre o NAM e a VIS\u00c3O, com organiza\u00e7\u00e3o a cargo do curso de Jornalismo e Comunica\u00e7\u00e3o daquele estabelecimento de ensino. Al\u00e9m destas iniciativas, o NAM tem na calha mais uma tert\u00falia que decorrer\u00e1 na Casa de Cultura de Coimbra, a 18 de maio, pelas 15 horas, e que contar\u00e1 com a presen\u00e7a de destacados democratas de Coimbra, com um passado ligado ao combate antifascista.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><a href=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/lapis-azul-3e0a.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter\" alt=\"l\u00e1pis azul\" src=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/lapis-azul-3e0a.jpg\" width=\"365\" height=\"243\" \/><\/a><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><b><!--more-->Objetos com hist\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Na \u00faltima tert\u00falia, que decorreu, como habitualmente, no caf\u00e9\u00a0 V\u00e1-V\u00e1 no passado dia 16 de mar\u00e7o, a surpresa foi uma &#8220;guia de entrega&#8221;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Tratou-se da &#8220;guia de entrega&#8221;, por militares, de Am\u00e9rico Tom\u00e1s, Marcello Caetano e Moreira Baptista aos representantes, na Madeira, do Movimento das For\u00e7as Armadas (MFA),. O documento foi apresentado pelo almirante Martins Guerreiro. A deten\u00e7\u00e3o e a partida para o ex\u00edlio, do Presidente da Rep\u00fablica, do chefe do Governo e do ministro do Interior, em fun\u00e7\u00f5es nos \u00faltimos tempos da ditadura, na sequ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de 1974, marcaram o fim definitivo do antigo regime, o que justifica a relev\u00e2ncia hist\u00f3rica do &#8220;objeto&#8221; mostrado por Martins Guerreiro, um dos mais importantes membros do MFA, \u00e0s dezenas de pessoas que enchiam o m\u00edtico caf\u00e9 da Avenida de Roma, em Lisboa.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A presidente da dire\u00e7\u00e3o do NAM, Helena Pato, tinha desafiado os ativistas do movimento c\u00edvico a levarem para a tert\u00falia, objetos a que atribu\u00edssem um especial significado, no \u00e2mbito da luta contra o fascismo. Al\u00e9m da &#8220;guia de entrega&#8221;, apareceram no V\u00e1-V\u00e1, entre outros, um l\u00e1pis da Censura, um romance do capit\u00e3o Henrique Galv\u00e3o, um pe\u00e3o de xadrez esculpido na pris\u00e3o, um quadro a \u00f3leo que a PIDE n\u00e3o deixou terminar e at\u00e9 um baralho de cartas feito na cadeia, com a prata dos ma\u00e7os de tabaco.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Helena Pato deu as boas-vindas a todos os presentes e fez quest\u00e3o de frisar a import\u00e2ncia das tert\u00falias, num momento em que, como no passado, &#8220;estamos sequestrados por um bando de malfeitores&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">A modera\u00e7\u00e3o do encontro ficou a cargo de Lu\u00edsa Tom\u00e9 de Oliveira. A historiadora e professora do ISCTE sublinhou a relev\u00e2ncia do tema, explicando que &#8220;os objetos tamb\u00e9m t\u00eam biografia&#8221;. E observou: &#8220;Foram conservados, manuseados e vividos, e podem traduzir-se no cruzamento de muitas pessoas.&#8221;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Do lote de convidados, faziam parte Al\u00edpio de Freitas, Artur Pinto, Daniel Ricardo e Helena Neves (jornalistas), Joana Lopes (antigo quadro da IBM), M\u00e1rio de Carvalho e Joana Ruas (escritores), Lu\u00edsa Teot\u00f3nio Pereira (membro da direc\u00e7\u00e3o do Centro de Informa\u00e7\u00e3o e Documenta\u00e7\u00e3o Am\u00edlcar Cabral), Maria Em\u00edlia Brederode Santos (especialista em Educa\u00e7\u00e3o), o almirante Martins Guerreiro e Rita Veloso (filha do antigo dirigente comunista, \u00c2ngelo Veloso).<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">No entanto, acabaram por intervir mais oradores do que estes onze, inicialmente escalados para o debate, como foi o caso de Maria Manuel Calvet Ricardo, que mostrou um quadro a \u00f3leo, da autoria do pai, o pedagogo Manuel Maria Calvet de Magalh\u00e3es, antigo diretor da Escola Francisco de Arruda, que, enquanto pintor, usou o nome de Magalh\u00e3es Filho. O quadro representa um oper\u00e1rio a colher uma ma\u00e7a de uma \u00e1rvore, mas uma das \u00a0suas m\u00e3os ficou por pintar. \u00c9 que, segundo a filha do artista, o ateli\u00ea onde o pai e outros jovens colegas preparavam as obras que iriam apresentar numa exposi\u00e7\u00e3o coletiva, foi invadido pela PIDE, tendo os agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica indicado os quadros que n\u00e3o poderiam ser expostos. E um dos banidos foi, precisamente, o do &#8220;oper\u00e1rio&#8221;. Magalh\u00e3es Filho interrompeu o trabalho e, desiludido, n\u00e3o o voltou a pintar. O quadro inacabado \u00e9 uma das raras provas de que a repress\u00e3o cens\u00f3ria tamb\u00e9m se abatia sobre as artes pl\u00e1sticas.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Artur Pinto levou consigo o livro <i>Vag\u00f4 &#8211; Romance dos bichos do mato<\/i>, de Henrique Galv\u00e3o. Sobre a obra, referiu que tinha sido publicada na clandestinidade, em 1954: &#8220;Muitos dos exemplares estavam guardados numa mala, em casa dos meus pais&#8221;, disse o antigo ativista estudantil. Na sequ\u00eancia das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 1958, marcadas pela candidatura de Humberto Delgado a Bel\u00e9m, e das persegui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se seguiram, &#8220;tiveram de desfazer-se dos livros&#8221;, lan\u00e7ando-os ao rio Tejo, perto de Alhandra. &#8220;Apenas restaram dois, daquela edi\u00e7\u00e3o&#8221;, acrescentou.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Artur Pinto falou, a prop\u00f3sito, das diferen\u00e7as existentes entre o Portugal daquela \u00e9poca e o atual: &#8220;N\u00f3s, jovens dos anos 50 e 60, eramos uns privilegiados, porque fomos dos pouqu\u00edssimos que tiveram acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o&#8221;, disse o antigo dirigente associativo que ignorava, ent\u00e3o, a realidade no interior do Pa\u00eds, &#8220;\u00e0 luz das candeias&#8221;, onde &#8220;mais de 45% da popula\u00e7\u00e3o vivia da agricultura, apenas 20% das mulheres trabalhavam e onde mais de 60% dos jovens eram analfabetos&#8221;.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">O jornalista Daniel Ricardo que, \u00e0 \u00e9poca do 25 de Abril, pertencia \u00e0 chefia de reda\u00e7\u00e3o de <i>A Capital<\/i>, desfiou as suas mem\u00f3rias a partir de um l\u00e1pis azul, usado pelos censores para retalhar os textos da imprensa. Dois dias depois da Revolu\u00e7\u00e3o, o jornalista enviou uma equipa de reportagem para acompanhar do assalto por populares \u00e0 antiga sede da Censura, ent\u00e3o j\u00e1 chamada Exame Pr\u00e9vio, situada na Rua da Miseric\u00f3rdia. No meio da confus\u00e3o, em que documentos e m\u00f3veis foram lan\u00e7ados das janelas do edif\u00edcio para a rua, caiu aos p\u00e9s do rep\u00f3rter o tal l\u00e1pis azul que, na queda, ficou com o bico partido. O rep\u00f3rter ofereceu-o a Daniel Ricardo. Para o atual editor executivo da VIS\u00c3O, este l\u00e1pis azul sem bico &#8220;simboliza aquele per\u00edodo revolucion\u00e1rio, em que o povo calou o bico \u00e0 Censura&#8221;.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">As viv\u00eancias do tempo em que esteve preso, e dos amigos que conheceu na pris\u00e3o de Peniche, e que o marcaram profundamente, foram as mem\u00f3rias partilhadas pelo escritor M\u00e1rio de Carvalho. O autor de <i>Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde<\/i>, entre outras publica\u00e7\u00f5es, falou do jogo de um xadrez, oferecido pelo pai, e do pe\u00e3o com que batia na parede da sua cela, passando mensagens codificadas aos presos seus vizinhos. E contou que numa das inspe\u00e7\u00f5es \u00e0 cela, um dos guardas lhe confiscou aquela pequena pe\u00e7a. O xadrez ficou incompleto, mas n\u00e3o por muito tempo.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Emocionado, M\u00e1rio de Carvalho recordou o momento em que o companheiro de cela, Jos\u00e9 Joaquim Velez, lhe ofereceu um pe\u00e3o igual, que esculpira num peda\u00e7o de cabo de vassoura, usando apenas uma faca, &#8220;desviada&#8221; da cozinha da pris\u00e3o. &#8220;Nunca mais o voltei a ver, mas n\u00e3o me esque\u00e7o daquele pacato campon\u00eas alentejano&#8221;, concluiu.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">J\u00e1 Maria Em\u00edlia Brederode Santos falou sobre a perspectiva das fam\u00edlias dos presos pol\u00edticos do regime, uma vez que o irm\u00e3o, Fernando Brederode Santos, jornalista e ent\u00e3o militante da Frente de A\u00e7\u00e3o Popular (FAP), esteve encarcerado, durante meses, na cadeia de Peniche. Maria Em\u00edlia e o cl\u00e3 ficaram alojados nas imedia\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as a um amigo da fam\u00edlia que lhes cedeu a casa, &#8220;para ficarmos mais pr\u00f3ximos do meu irm\u00e3o&#8221;, explicou. E n\u00e3o escondeu a surpresa quando, nesse preciso momento, foi interrompida por Rita Veloso, filha do antigo dirigente do PCP, \u00c2ngelo Veloso: &#8220;Eu estive nessa casa! Foi a\u00ed que aprendi a atar os atacadores dos meus sapatos.&#8221; Maria Em\u00edlia aproveitou, ent\u00e3o, para revelar que a tal casa acabou por acolher outras fam\u00edlias de presos pol\u00edticos. &#8220;Algumas delas, provenientes de quadrantes pol\u00edticos distintos do da minha pr\u00f3pria fam\u00edlia&#8221;, adiantou entre risos. &#8220;Al\u00e9m disso, era muito comum partilharmos boleias uns com os outros. Havia um esp\u00edrito solid\u00e1rio, apesar das nossas diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, que acho que se perdeu um bocadinho.&#8221;<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\">Por fim, Rita Veloso mostrou as cartas que \u00c2ngelo Veloso escreveu a m\u00e3e, enquanto esteve preso na cadeia de Peniche, entre 1968 e 1974. Nunca as leu, disse, por respeito \u00e0 intimidade dos pais. Al\u00e9m das missivas, a mais jovem participante no encontro mostrou um desenho feito por si, aos 7 anos, sobre a Revolu\u00e7\u00e3o de Abril. Rita Veloso levou ainda consigo para o V\u00e1 V\u00e1 a permiss\u00e3o dada pelo pai, para sair do Pa\u00eds, datada precisamente de 1974, que tinha descoberto horas antes do encontro promovido pelo NAM.<\/p>\n<p align=\"JUSTIFY\"><small>(da Revista Vis\u00e3o on-line)<\/small><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dois semin\u00e1rios sobre &#8216;Censura e Liberdade de Express\u00e3o&#8217;v\u00e3o decorrer j\u00e1 a partir do m\u00eas de abril, \u00a0promovidos pelo Movimento n\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria (NAM). 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