{"id":173,"date":"2007-03-14T12:57:22","date_gmt":"2007-03-14T11:57:22","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/03\/14\/8-de-marco-%e2%80%93-biblioteca-museu-republica-e-resistencia\/"},"modified":"2007-03-18T20:11:33","modified_gmt":"2007-03-18T19:11:33","slug":"8-de-marco-%e2%80%93-biblioteca-museu-republica-e-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/03\/14\/8-de-marco-%e2%80%93-biblioteca-museu-republica-e-resistencia\/","title":{"rendered":"8 de Mar\u00e7o \u2013  Biblioteca-Museu Rep\u00fablica e Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><strong>\u201cA Mulher e a Resist\u00eancia\u201d \u2013 exemplos para n\u00e3o esquecer<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maismemoria\/421046513\/\" title=\"Photo Sharing\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm1.static.flickr.com\/126\/421046513_7138051f8d_m.jpg\" width=\"180\" height=\"240\" alt=\"\u201cA Mulher e a Resist\u00eancia\u201d \u2013 exemplos para n\u00e3o esquecer\" align=\"right\" hspace=\"7\" \/><\/a><br \/>\nO <em>Movimento N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria!<\/em> promoveu no passado dia 8 de Mar\u00e7o, na Biblioteca-Museu Rep\u00fablica e da Resist\u00eancia, em Lisboa, uma homenagem \u00e0s mulheres portuguesas que lutaram contra o Estado Novo. Atrav\u00e9s de dois pain\u00e9is distintos \u2013 um que reunia investigadoras com pesquisas centradas na ditadura e no papel das mulheres no seu combate, outro que trouxe a voz das protagonistas dessa luta, complementado com um filme de Susana Sousa Dias \u2013 a resist\u00eancia feminina emergiu nas suas v\u00e1rias cambiantes.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nNo painel da manh\u00e3, depois da apresenta\u00e7\u00e3o das raz\u00f5es do col\u00f3quio, a cargo de Nuno Teot\u00f3nio Pereira, seu proponente, tr\u00eas investigadoras sociais apresentaram comunica\u00e7\u00f5es que permitiram contextualizar o que foi o papel da mulher na resist\u00eancia antifascista ao Estado Novo.<\/p>\n<p>Irene Pimentel, investigadora com vasta bibliografia publicada sobre a repress\u00e3o salazarista e marcelista, reflectiu sobre as caracter\u00edsticas da resist\u00eancia feminina \u00e0 ditadura, centrando-se sobre a situa\u00e7\u00e3o prisional das mulheres, que foram \u201cmulheres rebeldes\u201d e n\u00e3o apenas \u201cmulheres de rebeldes\u201d, na especifica\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Penal de 1867, em vigor at\u00e9 1967.<\/p>\n<p>Vanessa Almeida, com uma tese em curso sobre as mulheres das casas clandestinas do Partido Comunista Portugu\u00eas, tra\u00e7ou o que era a vida das mulheres que as mantinham, do modo como se foram afirmando dentro da organiza\u00e7\u00e3o do PCP, criando meios de comunica\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios, como foi o caso do jornal \u201cA Voz das Companheiras\u201d. Aludiu \u00e0 repress\u00e3o crescente, que a partir da d\u00e9cada de 1960 as colocou, nos interrogat\u00f3rios feitos pela PIDE\/DGS, em situa\u00e7\u00e3o de tortura do sono, de est\u00e1tua, viol\u00eancia f\u00edsica, num processo hom\u00f3logo ao tratamento que era dado aos \u201cclandestinos\u201d.<\/p>\n<p>S\u00f3nia Ferreira, antrop\u00f3loga, autora de \u201cMulheres de Desaparecidos do Chile\u201d, mostrou como se desenvolveu, na conjuntura dos anos \u201940, a resist\u00eancia das mulheres oper\u00e1rias em Almada e a sua inser\u00e7\u00e3o no movimento grevista de luta, dando realce ao quotidiano dessas lutas inseridas no trabalho nas f\u00e1bricas conserveiras e corticeiras.<\/p>\n<p>A encerrar o painel da manh\u00e3 e antes do debate, falou Manuela Tavares, da UMAR, que trouxe \u00e0 cola\u00e7\u00e3o o papel da censura no Estado Novo. Ilustrou a sua disserta\u00e7\u00e3o com o livro \u201cAs Novas Cartas Portuguesas\u201d, de Maria Teresa Horta, Maria Barreno e Maria Velho da Costa. Enquanto o processo que lhes foi instru\u00eddo em Portugal foi totalmente censurado em toda a comunica\u00e7\u00e3o social, um extraordin\u00e1rio movimento de solidariedade internacional, que passou pelo franc\u00eas \u201cLe Monde\u201d e pela revista norte-americana \u201cTime\u201d.<\/p>\n<p>De tarde, ap\u00f3s a projec\u00e7\u00e3o do filme de Susana Sousa Dias, sobre o estatuto das enfermeiras no Estado Novo (2000), obrigado ao celibato, por imposi\u00e7\u00e3o legal, apresentado pela realizadora, seguiu-se um debate. <\/p>\n<p>As duas protagonistas do document\u00e1rio, Isaura Borges Coelho e Hort\u00eansia Campos Lima, foram as duas irm\u00e3s que no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1960 puseram a circular um abaixo-assinado solicitando a Salazar o fim do que era considerado uma viol\u00eancia legal pela quase totalidade das enfermeiras: a obriga\u00e7\u00e3o do celibato. Para elas era uma atitude espont\u00e2nea e de revolta leg\u00edtima. Foram presas. Recordaram que a PIDE as considerou perigosas subversivas, ligadas PCP. Foram submetidas a pesados interrogat\u00f3rios, com situa\u00e7\u00f5es absurdas, como a que ocorreu com a jovem Hort\u00eansia, ent\u00e3o com 20 anos, que na sua agenda tinha anotado \u201cAnivers\u00e1rio do meu P[rimeiro] B[eijo]\u201d, que foi entendido como \u201cAnivers\u00e1rio do meu P[artido] B[olchevique]\u201d e, a partir da\u00ed, interrogada sobre que iniciativas estavam previstas para assinalar tal evento.<br \/>\nO testemunho destas resistentes em legalidade foi complementado por outros, como da Maria de Jesus Barroso, que recordou o papel de Isabel Aboim Inglez, madrinha da sua filha, e de quem recordou um conselho muito seguido pelas oposicionistas do regime autorit\u00e1rio: \u201cNa PIDE sorri-se muito, fala-se pouco e mente-se sempre\u201d. Tamb\u00e9m, Estela Piteira Santos deu testemunho do que foram esses tempos em que a pol\u00edcia pol\u00edtica irrompia alta madrugada pelas casas dentro, para prender, bater e amea\u00e7ar.<\/p>\n<p>A vida das clandestinas foi recordada por Albertina Diogo, presa em Novembro de 1960 e que foi condenada a seis anos de pris\u00e3o, acusada de ser funcion\u00e1ria do PCP e de no seu apartamento de Benfica, em Lisboa, acolher as reuni\u00f5es da comiss\u00e3o pol\u00edtica do partido ilegalizado.<\/p>\n<p>Domicilia Coreia da Costa recordou a sua vida na clandestinidade, dos sete aos 21 anos, e acentuou que como ela muitas outras jovens tiveram que passar por esse modo de vida dissimulado em mil um disfarces.<\/p>\n<p>Nas casas clandestinas, as mulheres asseguraram um trabalho de sombra que manteve viva a resist\u00eancia, escrevendo e protegendo essas instala\u00e7\u00f5es, a\u00ed vendo dolorosamente crescer os filhos, de que geralmente eram precocemente separadas, fosse para que pudessem estudar, fosse porque a pris\u00e3o as atingia. Envolvidas em tarefas pol\u00edticas de risco eminente, nas condi\u00e7\u00f5es da ditadura salazarista-marcelista, a pris\u00e3o tornou-se-lhes familiar. Sob duras condi\u00e7\u00f5es de tortura, foram espancadas, sofreram a est\u00e1tua, aviltaram-nas na sua feminilidade. Quando os companheiros eram presos ou quando s\u00f3 eles \u201cmergulhavam\u201d (passavam \u00e0 clandestinidade), cabia-lhes assegurar s\u00f3s a vida familiar e dar o suporte material e emocional de que necessitavam de forma acrescida.<\/p>\n<p>Pelo movimento estudantil, que a partir da crise de 1961\/62 desempenhou um papel importante no trabalho de oposi\u00e7\u00e3o legal \u00e0 ditadura, falou Sara Am\u00e2ncio, que, em remate, deixou uma proposta: N\u00e3o se recriminem os jovens por eles se mostrarem alheados desta realidade que fez o quotidiano dos portugueses durante 48 anos e que hoje lhes parece uma hist\u00f3ria medieval. Recrimine-se quem tenta apagar da mem\u00f3ria actual esse tempo ainda t\u00e3o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Sobre a resist\u00eancia em meio rural discorreu a antrop\u00f3loga Paula Godinho, tomando por refer\u00eancia o caso das mulheres do Cou\u00e7o, que nas d\u00e9cadas de 1950 e 60 foram submetidas a vagas de pris\u00f5es sucessivas. Precisamente para testemunhar esse papel de heroicidade e resist\u00eancia, o col\u00f3quio prolonga-se amanh\u00e3, s\u00e1bado, numa romagem a Coruche e ao Cou\u00e7o, para testemunhar a solidariedade com essas mulheres e, de um modo mais geral, com todos e todas as que, em condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia m\u00ednima, souberam resistir com grande dignidade e total abnega\u00e7\u00e3o ao terror da pol\u00edcia pol\u00edtica do Estado Novo.<\/p>\n<p>Atrav\u00e9s das mulheres presentes, do seu exemplo de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 luta por uma sociedade justa e livre da opress\u00e3o, fazendo face aos constrangimentos do seu g\u00e9nero, que as subalternizavam, nas duras condi\u00e7\u00f5es da ditadura, as comunica\u00e7\u00f5es e depoimentos feitos no col\u00f3quio, permitiu lembrar a gesta de todas as que sofreram e n\u00e3o vergaram, pagando at\u00e9 com a vida a sua atitude.<\/p>\n<p>A jornada do 8 de Mar\u00e7o terminou com um conv\u00edvio na Associa\u00e7\u00e3o 25 de Abril, onde amavelmente a Ler Devagar  instalou uma banca de livros, alusivos ao tema da mulher na resist\u00eancia, em que V\u00edtor Sarmento e Jorge Jourdan, membros do grupo Erva de Cheiro, fizeram a festa, com um canto livre, que despertou a vontade e a voca\u00e7\u00e3o de cantar em v\u00e1rias das pessoas presentes.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA Mulher e a Resist\u00eancia\u201d \u2013 exemplos para n\u00e3o esquecer O Movimento N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria! promoveu no passado dia 8 de Mar\u00e7o, na Biblioteca-Museu Rep\u00fablica e da Resist\u00eancia, em Lisboa, uma homenagem \u00e0s mulheres portuguesas que lutaram contra o &hellip; <a href=\"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/03\/14\/8-de-marco-%e2%80%93-biblioteca-museu-republica-e-resistencia\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,8,5,7,24,10],"tags":[],"class_list":["post-173","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-actividades","category-comunicados","category-destacado","category-documentos","category-encontros","category-visita"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/ptMuS-2N","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=173"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/173\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=173"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=173"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=173"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}