{"id":174,"date":"2007-03-14T13:06:18","date_gmt":"2007-03-14T12:06:18","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/03\/14\/venham-mais-cinco-%e2%80%93-para-a-proxima-cronica-da-romagem-a-coruche-e-ao-couco\/"},"modified":"2007-03-14T15:02:34","modified_gmt":"2007-03-14T14:02:32","slug":"venham-mais-cinco-%e2%80%93-para-a-proxima-cronica-da-romagem-a-coruche-e-ao-couco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/03\/14\/venham-mais-cinco-%e2%80%93-para-a-proxima-cronica-da-romagem-a-coruche-e-ao-couco\/","title":{"rendered":"Venham mais cinco \u2013 para a pr\u00f3xima, Cr\u00f3nica da romagem a Coruche e ao Cou\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Os 40 participantes na romagem do passado s\u00e1bado, dia 10, a Coruche e ao Cou\u00e7o deixaram um voto: a experi\u00eancia \u00e9 para repetir. Por isso, citando Zeca Afonso, que acabou por ser, tamb\u00e9m ele, um dos homenageados desta iniciativa, para a pr\u00f3xima venham mais cinco.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maismemoria\/421046353\/\" title=\"Photo Sharing\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/farm1.static.flickr.com\/182\/421046353_2cb89da4cc_m.jpg\" width=\"180\" height=\"240\" alt=\"Venham mais cinco \u2013 para a pr\u00f3xima, Cr\u00f3nica da romagem a Coruche e ao Cou\u00e7o\" align=\"right\" hspace=\"7\" \/><\/a><br \/>\nA romagem prolongou o col\u00f3quio de 8 de Mar\u00e7o, que decorreu na Biblioteca-Museu da Rep\u00fablica e Resist\u00eancia, em Lisboa, dedicado ao tema \u201ca Mulher na Resist\u00eancia\u201d. A excurs\u00e3o tinha por finalidade manifestar a solidariedade dos participantes \u00e0s mulheres do Cou\u00e7o, s\u00edmbolo da resist\u00eancia rural ao fascismo do Estado Novo.<\/p>\n<p><!--more--><br \/>\nO autocarro arrancou de Lisboa quase dentro do hor\u00e1rio previsto e cumpriu a hora de chegada. \u00c0s 10h estavam todos no Museu Municipal de Coruche, onde uma am\u00e1vel guia, Eug\u00e9nia, organizou tr\u00eas grupos para proceder a visitas guiadas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o permanente, que retrata a realidade hist\u00f3rica e etnogr\u00e1fica de Coruche, desde os tempos remotos do paleol\u00edtico. A m\u00e3o e o que ela fabrica \u00e9 o fio condutor desta exposi\u00e7\u00e3o, que tem um pref\u00e1cio e um posf\u00e1cio de pendor did\u00e1ctico. Na entrada recorda-se a origem do homem na Terra e, no final, fica a mensagem que esta criatura, sa\u00edda deste ventre, deve cuidar da natureza, que tamb\u00e9m \u00e9 sua.<\/p>\n<p>A sess\u00e3o de boas-vindas, que se seguiu, decorreu no audit\u00f3rio Jos\u00e9 Labaredas, e foi presidida pelo nosso anfitri\u00e3o, Dion\u00edsio Mendes, presidente do munic\u00edpio ribatejano. Na mesa, a seu convite, tomaram lugar Maria Barroso, que se associou \u00e0 iniciativa do Movimento e, pelo Movimento, Paula Godinho e Ana Gaspar.<\/p>\n<p>Maria Barroso falou desse tempo de resist\u00eancia, a partir de exemplos pessoais vividos no distrito escalabitano. Recordou como na d\u00e9cada de 1950, num sarau cultural em que interveio para recitar poesia, foi o pr\u00f3prio governador-civil, que presidia quem a veio a denunciar \u00e0 PIDE, considerando que os poetas escolhidos, Jos\u00e9 Gomes Ferreira, Rui Namorado, Armindo Rodrigues e Sid\u00f3nio Muralha, pertenciam \u00e0s fileiras da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, sendo o sarau um estratagema para realizar uma sess\u00e3o pol\u00edtica contra o Estado Novo. Da\u00ed resultou um processo que pesou na sua expuls\u00e3o do Teatro Nacional D. Maria II, onde fazia parte da companhia de Am\u00e9lia Rey Cola\u00e7o. Falou, igualmente, das pessoas boas que souberam resistir com coragem e abnega\u00e7\u00e3o \u00e0 abjec\u00e7\u00e3o da dela\u00e7\u00e3o e da submiss\u00e3o. Real\u00e7ou uma mulher do Cou\u00e7o, Maria Rosa Viseu (?), que em 1969, no curto m\u00eas em que se permitia fazer a campanha eleitoral, se dirigiu de bra\u00e7os abertos a Maria Barroso, que integrava a lista da oposi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica, para nesse abra\u00e7o testemunhar a solidariedade e o apoio de quem fora torturada e humilhada pela PIDE, no seguimento da campanha presidencial de 1958.<\/p>\n<p>O presidente da C\u00e2mara aproveitou o local onde nos acolheu \u2013 audit\u00f3rio Jos\u00e9 Labaredas \u2013 para recordar o resistente das lutas do Cou\u00e7o que lhe deu o nome. Para nos apresentar o concelho, fez seu um texto dele: \u201cSopa Rica de Munic\u00edpio \u00e0 Vale do Sorraia\u201d (Ed. Ass\u00edrio e Alvim):<\/p>\n<p>\u201cTome-se um concelho de bom tamanho, com dimens\u00e3o nunca inferior a mil e cem quil\u00f3metros quadrados de superf\u00edcie (&#8230;) Povoe-se de gente lhana e lou\u00e7\u00e3, com o quantum satis do que \u00e9 normalmente a condi\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito humano: dignidade e orgulho (mas que este n\u00e3o sobrepuje os limites que devem ter todas as coisas boas, simples e gratuitas). Juntem-se-lhe, em propor\u00e7\u00f5es exactas os seguintes ingredientes: <em>De firmeza, quatro arr\u00e1teis, um alqueire de verticalidade, um bom punhado de generosidade em gr\u00e3o, de amor pela labuta duas m\u00e3os cheias e esp\u00edrito solid\u00e1rio \u00e0 vontade (&#8230;)<\/em> Enquanto o preparado repousa, saia-se, campos fora, por uma manh\u00e3 de Abril, leda e soalheira e colham-se das papoilas mais rubras um ramalhete vi\u00e7oso; quando se chegue a um velho sobreiral, procure-se a clareira mais ch\u00e3 e solar e nela se colham doze p\u00e9s de rosmaninho (&#8230;)\u201d (p. 201).<\/p>\n<p>Conv\u00e9m dizer que \u00e0 entrada do audit\u00f3rio o presidente do munic\u00edpio presenteou cada um dos participantes da romagem com duas obras de antologia etnogr\u00e1fica: o citado livro de Jos\u00e9 Labaredas, \u201cCoruche \u00e0 Mesa\u201d, e a tese de doutoramento de Paula Godinho, \u201cMem\u00f3rias da Resist\u00eancia Rural no Sul\u201d (Ed. Celta).<\/p>\n<p>Foi Paula Godinho quem recordou que o sindicalismo rural portugu\u00eas do final do s\u00e9culo XIX e per\u00edodo republicano nasceu naquelas lez\u00edrias entre Alentejo e Ribatejo. Depois, com o esmagamento das liberdades c\u00edvicas pelo Estado Novo, na d\u00e9cada de 1930, foi-se esbatendo, para voltar em meados da d\u00e9cada seguinte, com as marchas da fome, a cobrir o concelho e a expressar o seu protesto junto \u00e0 C\u00e2mara. Do Cou\u00e7o, 30 km a p\u00e9, por campos e estrada, vieram as mulheres, numa das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es em que participaram, vestidas de negro e j\u00e1 possuidoras daquela determina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o mais as abandonaria at\u00e9 \u00e0 liberdade de Abril de 1974.<\/p>\n<p>Recordou o epis\u00f3dio de 6 de Junho de 1958, quando o Cou\u00e7o foi palco de um com\u00edcio de apoio \u00e0 candidatura de Humberto Delgado. Real\u00e7ou as dificuldades in\u00fameras que foi preciso vencer para obter em Santar\u00e9m, no Governo-Civil, a autoriza\u00e7\u00e3o para o realizar. Destacou a atitude da popula\u00e7\u00e3o que, em peso, foi at\u00e9 \u00e0 garagem dos Ol\u00edmpios, com capacidade para n\u00e3o mais de 200 pessoas, e, por isso, ficou apinhada. Deu conta do relat\u00f3rio dos agentes da PIDE, que ficaram impressionados com a manifesta\u00e7\u00e3o de acolhimento aos oradores do com\u00edcio, que encheu de povo a Rua do Com\u00e9rcio (ou da jorna) e anotaram a presen\u00e7a de \u201cumas duas a tr\u00eas mil pessoas\u201d na garagem. Exagero, como se constata do relato de uma das participantes desse com\u00edcio hist\u00f3rico, Maria Cust\u00f3dia Chibante, que calculou em n\u00e3o mais de 200 pessoas as que estiveram nessa noite na garagem dos Ol\u00edmpios (entretanto demolida). \u201cA verdade basta\u201d, foi a sua express\u00e3o. N\u00e3o que n\u00e3o houvesse gente c\u00e1 fora, at\u00e9 para dar conta das manobras da GNR, que tinha deslocado uma for\u00e7a para o Cou\u00e7o. Temia-se uma carga policial \u00e0 sa\u00edda e, num acto de auto-defesa, cada um levou no bolso uma pedra.<\/p>\n<p>O receio pelas consequ\u00eancias de uma tal atitude repressiva, agu\u00e7ou o bom senso do comandante da for\u00e7a da GNR e impediu esse confronto. \u00c0 sa\u00edda, os participantes no com\u00edcio, vendo que o ambiente estava sossegado, foram tirando do bolso as pedras e deixaram-nas \u00e0 esquina da rua.<\/p>\n<p>No dia seguinte fizeram uma estranha peregrina\u00e7\u00e3o em direc\u00e7\u00e3o a um monte de pedras, cujo significado passou de todo despercebido aos agentes da pol\u00edcia pol\u00edtica que vigiavam a localidade.<\/p>\n<p>A repress\u00e3o veio depois das elei\u00e7\u00f5es, onde a lista de Humberto Delgado recolheu 76% dos votos.  Em finais de Junho, no pino sazonal dos trabalhos de campo, os agr\u00e1rios deram ordem aos capatazes para baixar o pre\u00e7o da jorna. Foi o desencadear de uma greve que juntou os que tinham participado no com\u00edcio, com os poucos que se tinham alheado daquela manifesta\u00e7\u00e3o. Houve pris\u00f5es e repress\u00e3o. O nome de Jo\u00e3o Camilo, personagem \u00edmpar na ent\u00e3o aldeia do Cou\u00e7o, foi por diversas vezes citado. Sempre que alguma agita\u00e7\u00e3o social percorria o concelho era certo a PIDE prend\u00ea-lo e lev\u00e1-lo para interrogat\u00f3rios na \u201cAnt\u00f3nio Maria Cardoso\u201d.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Camilo foi preso, com mais tr\u00eas companheiros, no dia 23 de Junho de 1958 e encarcerado no posto da GNR (que entretanto deu lugar a uma resid\u00eancia), \u00e0 espera que de Lisboa chegasse a brigada da PIDE. Levantou-se o povo em revolta, cercou o posto e clamou a sua indigna\u00e7\u00e3o. Exigiu, e obteve, a liberta\u00e7\u00e3o dos seus concidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Nestas lutas as mulheres estiveram sempre na primeira linha e quando em 1961\/62 se levantou a luta pelas oito horas de trabalho, foram elas, em muitos locais, quem deu o sinal para a greve de zelo.<\/p>\n<p>Face \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o dos agr\u00e1rios em respeitar as oito horas de trabalho, mantendo que o dia era de sol a sol, o pessoal decidiu, por ele pr\u00f3prio, fazer cumprir o hor\u00e1rio. Pegavam \u00e0s 7h, pois bem largavam \u00e0 15h. Foram as mulheres que trabalhavam no regadio do canal do Sorraia quem imp\u00f4s esta forma de luta, que acabou por se alargar a toda a freguesia e, depois, ao concelho de Coruche e ao resto do Alentejo.<\/p>\n<p>Destas lutas e do seu significado pela liberdade e um trabalho digno, falou Paula Godinho, a guia da excurs\u00e3o na visita ao Cou\u00e7o.<\/p>\n<p>Ana Gaspar, em nome do Movimento, fechou a sess\u00e3o no audit\u00f3rio Jos\u00e9 Labaredas, dando conta aos participantes e ao nosso anfitri\u00e3o dos justos agradecimentos que merecia, pela disponibilidade que revelara no acolhimento que nos dava. Dion\u00edsio Mendes agradeceu, dizendo que esperava que o Movimento retribu\u00edsse participando na sess\u00e3o comemorativa dos 33 anos do 25 de Abril, o que foi aprovado com uma salva de palmas.<\/p>\n<p>Depois de uma visita \u00e0 magn\u00edfica exposi\u00e7\u00e3o de evoca\u00e7\u00e3o do Jos\u00e9 Afonso,  patente no antigo edif\u00edcio dos CTT, presentemente integrado no Museu Municipal, fez-se um passeio at\u00e9 a um <em>ex-libris<\/em> da gastronomia local, \u201cO Farnel\u201d, para a\u00ed provar um dos pratos que merece distin\u00e7\u00e3o no livro de Jos\u00e9 Labaredas: \u201co bacalhau \u00e0 Farnel\u201d.<\/p>\n<p>Foi uma longa pausa de quase duas horas, regada por um macio vinho e com muita conversa dispersa e bem disposta.<\/p>\n<p>\u00c0s 15h30 fez-se a segunda paragem diante da igreja da Azervadinha, onde Nuno Teot\u00f3nio Pereira e Dion\u00edsio Mendes fizeram a hist\u00f3ria daquele templo que, diz a placa no cimo da porta de entrada, foi aberto ao culto com \u201ca assist\u00eancia do PR Am\u00e9rico Tomaz\u201d, em meados da d\u00e9cada de 1960. Esta \u201cassist\u00eancia\u201d testemunha uma perturba\u00e7\u00e3o do regime ditatorial, que desfez a comunidade eclesi\u00e1stica, dirigida por dois padres holandeses, por ela seguir demasiado perto o Evangelho crist\u00e3o e frequentar pouco as casas dos agr\u00e1rios. Os padres holandeses foram expulsos do pa\u00eds, o templo comunit\u00e1rio reestruturado arquitectonicamente, de modo a retomar a tra\u00e7a tradicional das igrejinhas de aldeia que o Estado Novo propagandeava.<\/p>\n<p>Teot\u00f3nio Pereira, primeiro proponente desta romagem, sublinhou ainda o seu significado, pondo em evid\u00eancia o papel que as mulheres desempenharam na resist\u00eancia \u00e0 ditadura e a necessidade de o tornar historicamente mais vis\u00edvel.<\/p>\n<p>A visita ao Cou\u00e7o principiou na Cooperativa \u201cConquista do Povo\u201d, onde Joaquim Canejo, figura \u00e1urea do per\u00edodo da reforma agr\u00e1ria, nos deu as boas-tardes, dessedentando-nos e desejando-nos uma boa visita.<\/p>\n<p>No logradouro arrelvado que lhe fica em frente, Paula Godinho fez as \u00faltimas observa\u00e7\u00f5es sobre o contexto antropol\u00f3gico do Cou\u00e7o e falou das viv\u00eancias das suas mulheres, ap\u00f3s o que partimos para a actual Rua do Com\u00e9rcio. \u00c9 a antiga pra\u00e7a da jorna, onde ainda perduram, nas quatro esquinas, quatro restaurantes, marcas de antigas tabernas, onde se fazia a \u201cmolhadura\u201d, ou seja, o assentamento do contrato selava-se com um copo de vinho.<\/p>\n<p>O passeio durou uma boa meia-l\u00e9gua \u2013 para alguns p\u00e9s mais doridos foi mesmo uma l\u00e9gua bem medida \u2013 e deu para cumprimentar a D. Maria Madalena, vi\u00fava de Joaquim Castanhas, pesados 83 anos de vida de prova\u00e7\u00f5es e de luta permanente por conservar a dignidade dos resistentes de sempre.<\/p>\n<p>A merenda, para aqueles a quem o passeio despertou o apetite, fez-se numa mesa da Cooperativa, com chouri\u00e7o, p\u00e3o e queijo, comprados na mercearia, e vinho servido pelo sempre ir\u00f3nico e bem disposto Joaquim Canejo.<\/p>\n<p>O regresso para Lisboa fez-se \u00e0s 18h15, como previsto, infelizmente sem que nos tivesse sido poss\u00edvel avistar-nos com o presidente da Junta de Freguesia, Lu\u00eds Alberto Ferreira. N\u00e3o teve qualquer disponibilidade para o fazer, j\u00e1 o dissera \u00e0 delega\u00e7\u00e3o do Movimento que no passado 27 de Fevereiro se deslocou ao Cou\u00e7o, para lhe dar conta da nossa romagem.<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os 40 participantes na romagem do passado s\u00e1bado, dia 10, a Coruche e ao Cou\u00e7o deixaram um voto: a experi\u00eancia \u00e9 para repetir. 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