{"id":241,"date":"2007-10-28T20:28:13","date_gmt":"2007-10-28T19:28:13","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/10\/29\/cronica-no-1%c2%ba-de-janeiro-historias-de-resistencia-de-quem-sofreu-as-maos-do-antigo-regime\/"},"modified":"2007-11-07T14:19:03","modified_gmt":"2007-11-07T13:19:03","slug":"cronica-no-1%c2%ba-de-janeiro-historias-de-resistencia-de-quem-sofreu-as-maos-do-antigo-regime","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2007\/10\/28\/cronica-no-1%c2%ba-de-janeiro-historias-de-resistencia-de-quem-sofreu-as-maos-do-antigo-regime\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica no 1\u00ba de Janeiro: &#8220;Hist\u00f3rias de resist\u00eancia de quem sofreu \u00e0s m\u00e3os do antigo regime&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2007\/10\/primeirojaneiro_20071028.jpg\" title=\"fotografia da cr\u00f3nica do 1\u00ba Janeiro sobre o Movimento N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\" alt=\"fotografia da cr\u00f3nica do 1\u00ba Janeiro sobre o Movimento N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\" align=\"right\" hspace=\"4\" vspace=\"4\" \/><strong>\u201cSem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 futuro\u201d<\/strong><\/p>\n<p><em><strong>O Movimento \u00abN\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\u00bb promoveu um encontro no Caf\u00e9 Ceuta para ouvir relatos de protagonistas da luta contra a ditadura. Hist\u00f3rias de sofrimento contadas na primeira pessoa, num dos locais onde a liberdade era respirada, clandestinamente.<\/strong><\/em><br \/>\n<small>Victor Melo<\/small><br \/>\n<!--more--><br \/>\nSexta-feira, 24 de Mar\u00e7o de 1967. Um tiro cruza a estrada e rebenta um dos pneus do velho Mini Morris, arrastando o ve\u00edculo e os seus quatro ocupantes por uma ribanceira de 30 metros. Ap\u00f3s uma queda revoltosa, imobiliza-se, capotado e em chamas. Dois dos ocupantes conseguem sair e retirar um outro por uma das ex\u00edguas janelas do j\u00e1 por si ex\u00edguo autom\u00f3vel. O quarto ocupante, preso por um dos bancos, morreu queimado.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Augusto Nozes Pires <strike>Jorge Pires<\/strike> recupera os sentidos deitado no alcatr\u00e3o, com a vis\u00e3o de centenas de jornais a esvoa\u00e7ar pela estrada. E foi precisamente com esses pap\u00e9is e palavras proibidas a pairar \u00e0 sua volta que seria algemado por dois agentes da PIDE, moribundo, ainda a ouvir os gritos de agonia do seu amigo a ser devorado pelas labaredas.<\/p>\n<p>Com 21 anos, estudante do segundo ano da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e acabado de aderir ao partido comunista, tinha arrancado do Porto com destino a Lisboa. O carro foi interceptado na estrada nacional em Arrifana, perto de Santa Maria da Feira. Na bagageira seguia uma mala com centenas de jornais do Avante. \u201cNa altura eram jornais clandestinos, proibidos. Bastava ser apanhado com um na m\u00e3o para ser interrogado ou at\u00e9 preso\u201d. As publica\u00e7\u00f5es eram impressas em tipografias sombrias, clandestinas, secretas. \u201cQuando impressos no norte, eram distribu\u00eddos no sul ou vice-versa\u201d.<\/p>\n<p>O jovem estudante permaneceu hospitalizado durante quatro meses, sob ordem de pris\u00e3o. \u201cEra surreal, eu cheio de gesso dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a, a ser interrogado na enfermaria pelos agentes da PIDE, munidos de m\u00e1quinas de escrever e \u00e1vidos por respostas\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Em fins de Novembro \u00e9 enclausurado nos calabou\u00e7os da PIDE no Porto. Ali permanece, sem direito a visitas, tratamento hospitalar, ler ou escrever. Isolado do mundo sem nada mais do que a companhia omnipresente da luz acesa. Todos os dias descia da \u201ctarimba\u201d e caminhava, passos sem fim num espa\u00e7o de tr\u00eas metros por dois. \u201cPercorria aquilo de tr\u00e1s para a frente\u201d, contando as vezes que fazia essa \u201cviagem\u201d. \u201cEra a \u00fanica forma de combater o stress\u201d.<br \/>\nRecorda vividamente a espinha de bacalhau que lhe foi servida na cela na v\u00e9spera de Natal, o balde dos dejectos, \u201cas frias paredes de pedra, de branco sujo, com uma janela min\u00fascula, gradeada, quase junto ao tecto\u201d. Longe da vista, mas perto dos ouvidos. \u201cEra angustiante. Ouvia o ru\u00eddo dos carros, as pessoas a passarem na rua. Que dor era sentir o quotidiano das pessoas, indiferentes \u00e0 minha presen\u00e7a naquela cela, \u00e0 injusti\u00e7a do meu cativeiro\u201d.<\/p>\n<p>A reminisc\u00eancia \u00e9 de Jos\u00e9 Augusto Nozes Pires <strike>Jorge Pires<\/strike>, 62 anos, professor de Filosofia e Psicologia e membro da Assembleia Municipal de Torres Vedras. As suas palavras s\u00e3o ouvidas no Caf\u00e9 Ceuta, \u201clocal de in\u00fameras conversas secretas at\u00e9 \u00e0s tantas da manh\u00e3, sempre na mira dos bufos fascistas\u201d, no \u00e2mbito da iniciativa \u00abEncontros em lugares de Mem\u00f3ria da Resist\u00eancia\u00bb, protagonizada pelo n\u00facleo do Porto do movimento \u00abN\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria!\u00bb. Trata-se de um movimento c\u00edvico que visa a preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica das lutas de resist\u00eancia \u00e0 ditadura, promovendo encontros em lugares emblem\u00e1ticos dessa resist\u00eancia.<\/p>\n<p>[ artigo publico no <a href=\"http:\/\/www.oprimeirodejaneiro.pt\/?op=artigo&amp;sec=eccbc87e4b5ce2fe28308fd9f2a7baf3&amp;subsec=&amp;id=599d35849c376f3326eee5a2c90815bd\">jornal 1\u00ba de Janeiro<\/a> ]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSem mem\u00f3ria n\u00e3o h\u00e1 futuro\u201d O Movimento \u00abN\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\u00bb promoveu um encontro no Caf\u00e9 Ceuta para ouvir relatos de protagonistas da luta contra a ditadura. 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