{"id":37,"date":"2006-07-01T01:42:27","date_gmt":"2006-07-01T00:42:27","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/07\/20\/nao-apaguem-a-memoria-do-aljube-2\/"},"modified":"2006-07-20T01:44:35","modified_gmt":"2006-07-20T00:44:35","slug":"nao-apaguem-a-memoria-do-aljube-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/07\/01\/nao-apaguem-a-memoria-do-aljube-2\/","title":{"rendered":"N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria do Aljube"},"content":{"rendered":"<p>Ao longo de mais de 30 anos a cadeia do Aljube, em Lisboa, foi um dos principais s\u00edmbolos da repress\u00e3o fascista.<\/p>\n<p>Os presos eram a\u00ed encarcerados em celas com cerca de 2,20&#215;1,50 m, enxovias onde a cama era uma tarimba em madeira com uma enxerga sem len\u00e7\u00f3is. N\u00e3o havia luz natural, mas uma pequena l\u00e2mpada que s\u00f3 acendia nas horas de refei\u00e7\u00e3o e um pouco antes do sil\u00eancio nocturno. Pela sua dimens\u00e3o, onde s\u00f3 cabia uma pessoa, estas celas ficaram conhecidas como \u201ccurros\u201d. O isolamento era total e as visitas de familiares, raras.<\/p>\n<p>A estas condi\u00e7\u00f5es de deten\u00e7\u00e3o juntavam-se outras n\u00e3o menos vergonhosas e vexat\u00f3rias da dignidade dos presos: n\u00e3o tinham direito \u00e0 posse de qualquer objecto pessoal, n\u00e3o podiam usar cinto nem atacadores, a leitura era proibida. S\u00f3 tinham direito a um banho por semana, quando havia, no mesmo local onde evacuavam: por cima da \u201cturca\u201d colocavam um estrado de madeira.<\/p>\n<p>Nestas condi\u00e7\u00f5es estiveram encarcerados por longos per\u00edodos, que chegaram a atingir seis meses sem visitas, milhares de portugueses que lutaram contra a opress\u00e3o do regime salazarista.<\/p>\n<p>Devido a queixas v\u00e1rias, entre as quais da Amnistia Internacional, o Aljube acabou por ser fechado em Agosto de 1965 e em 1968 Marcelo Caetano ordenou a destrui\u00e7\u00e3o dos \u201ccurros\u201d.<\/p>\n<p>No mundo concentracion\u00e1rio do fascismo portugu\u00eas, que foi uma realidade brutal, a cadeia do Aljube constitu\u00eda a primeira etapa do que era um verdadeiro Roteiro do Terror: seguiam-se longos interrogat\u00f3rios, que chegavam a durar semanas, na sede da PIDE na Rua Ant\u00f3nio Maria Cardoso, em cujas salas foram infligidas as torturas do sono e da est\u00e1tua e executados brutais espancamentos. O Forte de Caxias, o Forte de Peniche e os terr\u00edveis campos de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal e de S. Nicolau, foram outros locais de opress\u00e3o e tortura do regime salazarista.<\/p>\n<p>O tempo de deten\u00e7\u00e3o dos presos, mesmo quando em cumprimento de pena, aplicada em julgamentos fantoches no sinistro Tribunal Plen\u00e1rio, ficava sempre ao arb\u00edtrio da PIDE e durava o tempo que esta entendesse ao abrigo da famosa lei das \u201cmedidas de seguran\u00e7a\u201d que estabelecia que o tempo de condena\u00e7\u00e3o podia ser prorrogado por per\u00edodos de tr\u00eas anos renov\u00e1veis: em resultado disso muitos resistentes passaram longos anos na pris\u00e3o, sem nunca saberem quando seriam libertados.<\/p>\n<p>Por todas estas raz\u00f5es e porque se assiste a uma consistente tentativa de apagar a mem\u00f3ria do que foi a resist\u00eancia ao fascismo, quando o regime democr\u00e1tico para o qual estes resistentes contribu\u00edram significativamente se mant\u00e9m estranhamente desatento a este passado, os signat\u00e1rios, ex-presos pol\u00edticos, tomam a iniciativa de apelar a todos os companheiros de luta para que se juntem a n\u00f3s na exig\u00eancia da recupera\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio do Aljube como local de mem\u00f3ria da resist\u00eancia ao fascismo.<\/p>\n<p>N\u00e3o consentiremos no branqueamento do fascismo nem na deturpa\u00e7\u00e3o da luta dos resistentes!<\/p>\n<p>Lisboa, 1 de Julho de 2006<\/p>\n<p>Subscrevem este manifesto os antigos presos pol\u00edticos:<\/p>\n<p>Aguinaldo Cabral; Alexandre Castanheira; Alfredo Caldeira; Ana Abel; Ant\u00f3nio Almeida; Ant\u00f3nio Borges Coelho; Ant\u00f3nio Cris\u00f3stomo Teixeira; Ant\u00f3nio Dias Louren\u00e7o; Ant\u00f3nio Escudeiro; Armando Baptista Bastos; Artur Pinto; Carlos Brito; Carlos Sebrosa; Diana Andringa; Domingos Lopes; Edmundo Pedro; Fernando Jos\u00e9 Baeta Neves; Fernando Vicente; Fernando Rosas; Filipe Rosas; Herm\u00ednio da Palma In\u00e1cio; Isabel do Carmo; Jorge Ara\u00fajo; Jorge Galamba Marques; Jorge Neto Valente; Jorge Vasconcelos; Jos\u00e9 Fonseca e Costa; Jos\u00e9 Manuel Taborda; Jos\u00e9 Manuel Tavares de Moura; Jos\u00e9 Medeiros Ferreira; Jos\u00e9 Manuel Tengarrinha; Jos\u00e9 Morais; Manuel Serra; Maria Jo\u00e3o Gerardo; M\u00e1rio A. F. Neto; M\u00e1rio de Carvalho; Matilde Bento; Nuno Teot\u00f3nio Pereira; Rui M. Rodrigues Pereira; Sara Am\u00e2ncio; Ulpiano Nascimento; Urbano Tavares Rodrigues.<\/p>\n<p>Movimento \u201cN\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria\u201d<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo de mais de 30 anos a cadeia do Aljube, em Lisboa, foi um dos principais s\u00edmbolos da repress\u00e3o fascista. 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