{"id":56,"date":"2006-07-29T11:09:51","date_gmt":"2006-07-29T10:09:51","guid":{"rendered":"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/07\/29\/manipulac%cc%a7o%cc%83es\/"},"modified":"2006-09-22T13:56:25","modified_gmt":"2006-09-22T12:56:25","slug":"manipulac%cc%a7o%cc%83es","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/07\/29\/manipulac%cc%a7o%cc%83es\/","title":{"rendered":"Manipula\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p><i>Artigo de S\u00e3o Jos\u00e9 Almeida, publicado no jornal P\u00fablico de S\u00e1bado, 29 de Julho de 2006 (Nacional, Semana Pol\u00edtica)<\/i><\/p>\n<p><i>O clima de relativiza\u00e7\u00e3o e de branqueamento do passado da ditadura faz parte do caldo de cultura que se criou em Portugal e que leva \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do valor \u00fanico da pol\u00edtica como ess\u00eancia vital da vida democr\u00e1tica. Um clima que assume contornos terr\u00edveis e perigosos na comunica\u00e7\u00e3o social e que esta semana escolheu como v\u00edtima Manuel Alegre.<\/i><br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>Os deputados t\u00eam nas m\u00e3os a decis\u00e3o sobre um assunto de import\u00e2ncia maior: a aprecia\u00e7\u00e3o sobre a peti\u00e7\u00e3o entregue esta semana na Assembleia da Rep\u00fablica pelo movimento c\u00edvico N\u00e3o Apaguem a Mem\u00f3ria. O objectivo \u00e9 a assun\u00e7\u00e3o pelo poder pol\u00edtico da necessidade de deliberar sobre a cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os museol\u00f3gicos e de outras formas de preserva\u00e7\u00e3o, estudo e divulga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria da repress\u00e3o do Estado Novo.<\/p>\n<p>\u00c9 triste que s\u00f3 tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s o 25 de Abril tal movimento surja. \u00c9 ainda mais triste que este movimento nas\u00e7a em reac\u00e7\u00e3o ao facto de o edif\u00edcio onde funcionou, durante d\u00e9cadas, a sede nacional da PIDE, na Rua Ant\u00f3nio Maria Cardoso, em Lisboa, ter sido transformado em condom\u00ednio de luxo. Mas esta transforma\u00e7\u00e3o em condom\u00ednio de luxo de um lugar que simboliza a repress\u00e3o e a tortura exercida pela pol\u00edcia pol\u00edtica fascista \u00e9 realmente ela mesma o s\u00edmbolo do estado a que chegou o desleixo, o branqueamento e a manipula\u00e7\u00e3o a que, nos \u00faltimos anos, tem sido sujeita a hist\u00f3ria do regime fascista em Portugal. Por isso a import\u00e2ncia do que os deputados venham a decidir com base na peti\u00e7\u00e3o que agora entrou na Assembleia.<\/p>\n<p>N\u00e3o basta dizer que \u00e9 preciso criar um museu ou at\u00e9 legislar para que se crie um museu. O problema \u00e9 mais profundo do que a cria\u00e7\u00e3o de um museu, ou de um museu e um centro de documenta\u00e7\u00e3o, mais espa\u00e7os museol\u00f3gicos v\u00e1rios, memoriais, etc. \u00c9 claro que a cria\u00e7\u00e3o destes espa\u00e7os f\u00edsicos e simb\u00f3licos de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria s\u00e3o fundamentais e \u00e9 grave que n\u00e3o existam. \u00c9 grave que o Forte de Peniche, onde at\u00e9 h\u00e1 um museu sobre a pris\u00e3o pol\u00edtica, esteja no abandono que est\u00e1. \u00c9 grave que no Tribunal da Boa-Hora n\u00e3o haja nada que lembre os julgamentos plen\u00e1rios, \u00e9 grave que o Aljube n\u00e3o tenha nenhuma recorda\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica dos &#8220;curros&#8221;. \u00c0s vezes, h\u00e1 pequenos gestos que quase n\u00e3o custam dinheiro, mas que fazem toda a diferen\u00e7a, como, por exemplo, a l\u00e1pide que, na Rua Dias Coelho, recorda quem l\u00e1 foi morto e por quem.<\/p>\n<p>H\u00e1 toda uma quest\u00e3o de atitude que \u00e9 preciso recuperar, alterar, at\u00e9 inverter. Da\u00ed a responsabilidade que recai sobre os deputados que ter\u00e3o de decidir que futuro e uso v\u00e3o dar \u00e0 miss\u00e3o que um grupo de seis mil cidad\u00e3os lhes coloca agora em m\u00e3os. A tarefa \u00e9 enorme, cicl\u00f3pica. E as resist\u00eancias brutais. At\u00e9 pela mentalidade amorfa, acr\u00edtica, manipul\u00e1vel e manipulada, que se desenvolveu em Portugal e que \u00e9 respons\u00e1vel pelo branqueamente que \u00e9 feito, por exemplo, por muita da opini\u00e3o publicada, acerca do regime pol\u00edtico que se chamou a si mesmo Estado Novo e que se insere claramente nos regimes fascistas do s\u00e9culo XX &#8211; pol\u00edcia pol\u00edtica que pratica habitualmente a pris\u00e3o, a tortura e que tamb\u00e9m foi respons\u00e1vel por mortes, aus\u00eancia de liberdade de express\u00e3o e de imprensa, censura, aus\u00eancia de liberdades civis, aus\u00eancia de pluralismo pol\u00edtico, aus\u00eancia de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, regime de partido \u00fanico, manuten\u00e7\u00e3o de uma guerra colonial, um sistema social e legal racista &#8211; e que muitos acham interessante considerar agora com um mero regime autorit\u00e1rio e n\u00e3o totalit\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 o laxismo perante a pr\u00f3pria hist\u00f3ria, \u00e9 o apagamento da mem\u00f3ria colectiva, \u00e9 o branqueamento das responsabilidades e dos reais contornos de terror e opress\u00e3o, que consubstanciam o relativismo perante as responsabilidades n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o ao passado, mas tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao presente. Ou seja, \u00e9 a no\u00e7\u00e3o exacta do que representou a ditadura fascista de Oliveira Salazar e de Marcello Caetano que d\u00e1 o real valor e a real dimens\u00e3o da import\u00e2ncia \u00fanica, insubstitu\u00edvel da democracia.<\/p>\n<p>Ora, o clima de relativiza\u00e7\u00e3o e de branqueamento do passado da ditadura faz parte do caldo de cultura que se criou em Portugal e que leva \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do valor \u00fanico da pol\u00edtica como ess\u00eancia vital da vida democr\u00e1tica. Um clima que assume contornos terr\u00edveis e perigosos na comunica\u00e7\u00e3o social e que esta semana escolheu como v\u00edtima Manuel Alegre. A bo\u00e7alidade perante as figuras p\u00fablicas, o desprezo pela pol\u00edtica e pelo que esta significa como ess\u00eancia da democracia, a ignor\u00e2ncia atrevida e facilmente manipul\u00e1vel, a presun\u00e7\u00e3o do justicialismo, o deslumbre com o poder dos media, tudo isto, provavelmente a par de enormes doses de m\u00e1-f\u00e9 e irresponsabilidade, esteve na origem da perversa e difamat\u00f3ria not\u00edcia sobre a reforma de Manuel Alegre, que foi reproduzida pavlovianamente na generalidade da comunica\u00e7\u00e3o social, sem que os jornalistas parassem para pensar na alarvidade que estavam a reproduzir, quais papagaios idiotas.<\/p>\n<p>\u00c9 este clima de relativiza\u00e7\u00e3o absoluta da hist\u00f3ria e da pol\u00edtica que abre caminho \u00e0s maiores manipula\u00e7\u00f5es populistas e demag\u00f3gicas, que p\u00f5e em causa a pr\u00f3pria democracia. Um clima em que \u00e9 normal meia d\u00fazia de jornalistas acharem que podem reproduzir a not\u00edcia completamente descontextualizada sobre o direito universal \u00e0 reforma de todos os cidad\u00e3os em Portugal. E, quais burros que comem a palha que lhes p\u00f5em \u00e0 frente, desatam a proceder a um assassinato de car\u00e1cter, com base na presun\u00e7\u00e3o de que o pol\u00edtico \u00e9 sempre um vigarista, que o pol\u00edtico \u00e9 sempre algu\u00e9m que est\u00e1 na pol\u00edtica para &#8220;se encher&#8221;. E nem sequer pensam que a mulher ou o homem que se dedica \u00e0 vida pol\u00edtica \u00e9 gente como todos os outros, com os mesmos direitos de todos os cidad\u00e3os, logo com direito a uma carreira contributiva e \u00e0 respectiva reforma. Para muitos dos ignorantes e presun\u00e7osos jornalistas portugueses, que t\u00eam uma esp\u00e9cie de Salazar dentro da cabe\u00e7a, o pol\u00edtico \u00e9 sempre um criminoso, que n\u00e3o tem direito a nada.<\/p>\n<p>\u00c9 este clima de desvaloriza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica que devia preocupar os deputados e as elites pol\u00edticas em geral, os quais, para al\u00e9m do longo e dif\u00edcil caminho da reabilita\u00e7\u00e3o da vida pol\u00edtico-partid\u00e1ria perante os cidad\u00e3os, deviam come\u00e7ar a valorizar a pol\u00edtica, reabilitando a hist\u00f3ria e a sua mem\u00f3ria, como modo de dignificar a democracia e at\u00e9 de a preservar. <\/p>\n<p>P.S. &#8211; Esta p\u00e1gina volta a ser publicada a 9 de Setembro.<\/p>\n<p>[ <a id=\"p57\" href=\"http:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-content\/uploads\/2006\/07\/20060729_publico_saojose.pdf\" target=\"_blank\">o mesmo artigo em vers\u00e3o PDF<\/a> ]<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo de S\u00e3o Jos\u00e9 Almeida, publicado no jornal P\u00fablico de S\u00e1bado, 29 de Julho de 2006 (Nacional, Semana Pol\u00edtica) O clima de relativiza\u00e7\u00e3o e de branqueamento do passado da ditadura faz parte do caldo de cultura que se criou em &hellip; <a href=\"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/2006\/07\/29\/manipulac%cc%a7o%cc%83es\/\">Continue reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,6],"tags":[],"class_list":["post-56","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","category-nos-media"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/ptMuS-U","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=56"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/56\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=56"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=56"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/maismemoria.org\/mm\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=56"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}