“Aqui funcionou o Tribunal Plenário”

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! concretiza um dos seus objectivos:

assinalar para os presentes e vindouros que no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, funcionou, de 1945 a 1974 um arremedo de justiça, designada por “tribunais plenários”.

No próximo dia 6 de Dezembro, pelas 17h30, na 6ª Vara Criminal do Tribunal da Boa-Hora, vai ser descerrada uma lápide chamando à atenção do visitante para que ali, durante o regime ditatorial do Estado Novo, a dignidade dos homens e mulheres livres foi ultrajada por vis juízes e desprezíveis torcionários.

Gravura de Dias Coelho, assassinado por uma brigada da PIDE, numa rua de Lisboa, em 19 de Dezembro de 1961 [por gentileza da Fundação Mário Soares].
Gravura de Dias Coelho, assassinado por uma brigada da PIDE, numa rua de Lisboa, em 19 de Dezembro de 1961 [por gentileza da Fundação Mário Soares].

PROGRAMA:

17.40H – Descerramento da placa no átrio da Sala do Plenário pelos presos políticos activistas e decanos do nosso Movimento – Edmundo Pedro e Nuno Teotónio Pereira.
17.45H – Entrada para a Sala.
17.50H – Intervenção do preso político Prof. António Borges Coelho.
18.00H – Intervenção do advogado de defesa dos presos políticos Dr. Manuel M. Malheiros.
18.10H – Intervenção de uma activista do Movimento da geração pós 25 de Abril, Dra. Cláudia Castelo.
18.20H – Encerramento por um representante do Tribunal.

Contamos com a vossa presença neste primeiro acto simbólico de preservação da memória colectiva da resistência do povo português ao fascismo.

[ Comunicado do Movimento ]

“Aqui funcionou o Tribunal Plenário”

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai concretizar, em pedra e cal, um dos seus objectivos: assinalar para os presentes e vindouros que no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, funcionou, de 1945 a 1974 um arremedo de justiça, designada por “tribunais plenários”.

Convém recordar que no dia 24 de Abril de 1974 ainda este sinistro tribunal (?) se reuniu e ordenou ao meirinho para trazer à sessão os acusados de “acções subversivas, visando o derrube do Estado Novo”. O meirinho respondeu que não havia acusados, a carrinha que os devia trazer da prisão de Caxias não chegara e, ao que constava, decorria uma revolução que tinha por objectivo libertar todos os presos políticos e derrubar definitivamente o Estado Novo.

Consta que os juízes arrumaram as becas, recolheram a penates e ficaram assolapados nas suas mordomias, aguardando que a situação se esclarecesse. Comportaram-se como o camaleão e, tal como ele, abocanharam a presa. Estes togados, que anos a fio tinham agido com baixeza moral e sido um exemplo de ignomínia para com a Justiça humana, conseguiram emergir do pântano da vileza e servilismo para, revestindo-se do manto do exercício irresponsável da lei, voltar a distribuir a Justiça dos códigos jurídicos. A maioria reformou-se por limite de idade, mas houve quem chegasse ao Supremo Tribunal, numa atitude de supremo desplante, que infelizmente nenhum colega de mister teve a justeza de denunciar publicamente.

Só agora, 32 anos passados, foi possível, graças a uma nova geração de magistrados, para quem a democracia é o regime natural das sociedades humanas, reabilitar a dignidades dos muitos resistentes que ali foram julgados e algumas vezes espancados pelos agentes da PIDE, a feroz polícia política do regime, no decorrer do próprio julgamento, perante a cúmplice passividade dos juízes (?) que presidiam à sessão.

A sentença vinha já inscrita na acusação instruída pela própria polícia política. Ela investigava, procedia à detenção, interrogava sem limite nem peias, instruía o processo e determinava a pena a aplicar, que os juízes (?) do tribunal plenário aplicavam com obediência canina – incluindo as “medidas preventivas”, que determinavam a prorrogação automática da pena, de seis em seis meses, se a PIDE o achasse conveniente para “a segurança do Estado”.

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! sente um legítimo orgulho em poder afirmar que esta denegação da Justiça, praticada num secular lugar de Justiça vai ser reparada, na medida simbólica que a história o permite.

No próximo dia 6 de Dezembro, pelas 17h30, na 6ª Vara Criminal do Tribunal da Boa-Hora, lugar de opróbrio para justiça portuguesa, pois aí funcionaram os famigerados tribunais plenários, vai ser descerrada uma lápide chamando à atenção do visitante para que ali, durante o regime ditatorial do Estado Novo, a dignidade dos homens e mulheres livres foi ultrajada por vis juízes e desprezíveis torcionários.

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! considera um dever de memória a divulgação deste acto, por isso convida-vos a estar presentes na cerimónia de descerramento da lápide e a dar a divulgação que julgamos que este acto merece. Junto enviámos o programa da sessão que decorrerá a 6 de Dezembro próximo.

PROGRAMA:

17.40H – Descerramento da placa no átrio da Sala do Plenário pelos presos políticos activistas e decanos do nosso Movimento – Edmundo Pedro e Nuno Teotónio Pereira.
17.45H – Entrada para a Sala.
17.50H – Intervenção do preso político Prof. António Borges Coelho.
18.00H – Intervenção do advogado de defesa dos presos políticos Dr. Mário Soares.
18.10H – Intervenção de uma activista do Movimento da geração pós 25 de Abril, Dra. Cláudia Castelo.
18.20H – Encerramento por um representante do Tribunal.

No seguimento dos contactos que o Movimento está a desenvolver com as instituições de Estado, e tendo em vista o descerramento da lápide no Tribunal da Boa-Hora, vem a propósito informar que se realizou no passado dia 29 de Novembro tendo sido informado que estará presente na cerimónia o Vice – Presidente do Tribunal por impossibilidade de agenda do Presidente.

Ronda com Grupos Parlamentares foi positiva

O Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! apresentou ao presidente da Assembleia da República, no passado 26 de Julho, a Petição sobre a salvaguarda histórica do papel da resistência democrática durante o regime ditatorial do Estado Novo. Jaime Gama mostrou-se receptivo às reivindicações subscritas por mais de seis mil cidadãos e encaminhou-as para a 1ª Comissão parlamentar. No decorrer do encontro concordou com a ideia do Movimento desenvolver contactos com os grupos parlamentares, para os pôr ao corrente dos seus objectivos.

Nesse sentido, foram solicitadas audiências a todos os partidos com assento na Assembleia da República (AR), que se iniciaram em 22 de Setembro, com o Bloco de Esquerda, e se concluíram no passado 26 de Outubro, com um encontro com o CDS-PP.

O Movimento entendeu ser importante pôr o presidente da Assembleia da República ao corrente dos conversas tidas com os grupos parlamentares o que fez na passada semana.

Consideramos útil, por isso, apresentar publicamente uma síntese dos resultados desses vários encontros, sobretudo por o Movimento considerar de fundamental importância que a AR tome uma decisão no sentido de garantir a preservação, investigação e divulgação da memória da resistência à ditadura.
Antes de mais devemos sublinhar a receptividade que registamos em todas as audiências e a disponibilidade dos nossos interlocutores relativamente à matéria em questão.
Continue reading

Plenário do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória!

Data: 4ª feira, 29 de Novembro, às 21h
Local: Associação 25 de Abril
Rua da Misericórdia, 95 – Lisboa (no Chiado)

Terminada a ronda parlamentar com todos os grupos, o Movimento Cívico Não Apaguem a Memória! vai iniciar contactos com o Governo no sentido de sensibilizar para os principais pontos que constam da agenda do Movimento. Para fazer o balanço das iniciativas em curso e perspectivar as que nos estão mais próximas, consideramos necessária uma forte presença dos membros do Movimento e a difusão pública dos debates e resoluções que nele forem tomadas.

Vamos dar especial atenção ao descerramento da lápide no Tribunal da Boa-Hora, a 6 de Dezembro, condenando a acção nefanda dos “tribunais plenários”, e, a 11 de Dezembro, a defesa dos membros do Movimento João Almeida e Duran Clemente, arguidos num julgamento incrível, sob a acusação de “desobediência qualificada”, por terem participado na manifestação de 5 de Outubro de 2005.

A ordem de trabalhos do 8º Plenário do Movimento Não Apaguem a Memória! é a seguinte :

1. Informações:
1.1. Ronda parlamentar e contactos com o Governo.
1.2. Actividades dos Grupos de Trabalho e criação/activação de novos Grupos (Museu -Aljube e Roteiros da Memória).
1.3. Inscrição do Movimento no Registo das Pessoas Colectivas: ponto de situação.

2. Composição do Grupo de Ligação.

3. Próximas acções:
3.1. Descerramento da placa no Tribunal da Boa-Hora.
3.2.Julgamento de João Almeida e Duran Clemente no 6º Juízo Criminal a 11 de Dezembro/06.

Aproveitamos para vos dar conhecimento da Carta de Princípios aprovada no anterior plenário e que constituiu, a partir daí, o guia de acção do Movimento

Carta do Movimento

Preâmbulo

Os combates pela democracia e pela liberdade travados, durante quase cinquenta anos, pelo povo português culminaram, a 25 de Abril de 1974, com o derrube do regime fascista e colonialista.

Com a instauração do Estado de Direito, o regime democrático que passou, então, a vigorar, reconheceu, em parte, o papel dos resistentes antifascistas, através, nomeadamente, da sua consagração pública oficial.

Todavia, e pese embora o valioso trabalho desenvolvido neste campo por algumas entidades, nunca as instituições democráticas, benévolas para com os carrascos da ditadura, prestaram a devida homenagem à Resistência nem cuidaram de transmitir às novas gerações o significado dessa luta. Tampouco salvaguardaram, para memória futura, aqueles locais cujos nomes ainda hoje são sinónimo de opressão, de brutalidade, quando não mesmo de morte, mas também de heróica resistência. E estes locais acabaram, em geral, ou abandonados ou utilizados para os mais diversos fins, alguns particulares outros do próprio Estado democrático.

Por omissão, as instituições democráticas acabaram por provocar o alheamento da sociedade perante tais memórias.

Face à tentativa de apagamento da memória da resistência ao fascismo, um grupo de cidadãos manifestou-se publicamente junto à antiga sede da PIDE/DGS, em 5 de Outubro de 2005, para protestar contra a transformação daquele edifício em condomínio fechado, sem que fosse assegurada uma adequada menção ao sofrimento causado a tantas portuguesas e portugueses pela polícia política do regime ditatorial.

Desta iniciativa cívica nasceu o Movimento Cívico “Não Apaguem a Memória!”, motivado pela exigência da salvaguarda, investigação e divulgação da memória da resistência antifascista e que considera ser responsabilidade do Estado, do conjunto dos poderes públicos e da sociedade a preservação condigna dessa memória.

Porque sem memória não há futuro.

A multiplicidade das iniciativas levadas a cabo pelo Movimento, a crescente adesão de activistas e apoiantes a esta causa nacional, tornam desejável a elaboração de uma Carta do Movimento que venha explicitar os princípios gerais que orientam a sua organização e funcionamento.

1. Natureza

O Movimento Cívico “Não Apaguem a Memória!” é um movimento de âmbito nacional, democrático, plural e aberto, ao qual podem aderir todos os cidadãos que se revejam na sua natureza, princípios e objectivos.

2. Princípios

O Movimento Cívico “Não Apaguem a Memória!” rege-se pelos princípios e regras gerais consignados universalmente em democracia, dando particular relevo a:

Independência – relativamente ao Estado, às organizações políticas, empresariais, sindicais e às confissões religiosas.
Transparência – no relacionamento com a sociedade civil e com o Estado.
Solidariedade – para com todos os presos políticos ou vítimas do fascismo, sem qualquer discriminação nomeadamente, de ordem política, religiosa ou étnica.
Cooperação – com outros movimentos e organizações que prossigam fins similares ou que pretendam levar a cabo acções que se enquadrem nos princípios e objectivos do Movimento.

3. Objectivos

Lutar pela salvaguarda da memória da resistência à ditadura do Estado Novo, para que seja dignificada a luta pela liberdade e pela democracia.

Exigir dos poderes públicos e, em particular, do Estado português, a preservação, investigação e divulgação da memória da resistência, nomeadamente através da dignificação dos locais emblemáticos, tal como, dentre outros, a cadeia do Aljube, o Forte de Peniche, o Forte de Caxias, a sede da PIDE/DGS e suas delegações no Porto, em Coimbra…, os Tribunais Plenários da Boa Hora em Lisboa e de S. João Novo no Porto, o Tribunal Militar, os Presídios Militares, a Companhia Disciplinar de Penamacor, a Prisão de Angra do Heroísmo e o Campo de Concentração do Tarrafal, transformando-os em lugares de memória da resistência e da liberdade conquistada.

Sensibilizar a sociedade civil para os objectivos do Movimento com vista à sua colaboração activa.

4. Organização

O órgão máximo do Movimento é o Plenário de activistas ao qual compete estabelecer as principais linhas de orientação e actuação do Movimento e aprovar a constituição dos Grupos de Trabalho e do Grupo de Ligação.

A estrutura operativa do Movimento reside nos Grupos de Trabalho, de carácter territorial ou temático, criados de acordo com as necessidades que se revelem em cada momento, decididas em Plenário de activistas, tendo em vista a prossecução dos objectivos do Movimento. Estes grupos de trabalho decidem do seu funcionamento.

A fim de manter a coordenação entre os diversos Grupos de Trabalho, por forma a facilitar a troca de informações e a eficácia de esforços, é criado um Grupo de Ligação, constituído: por representantes dos Grupos de Trabalho e por proposta destes, e por designação do Plenário.

5. Funcionamento

O funcionamento do Movimento rege-se por princípios estritamente democráticos, nomeadamente:

Legitimidade – conferida em exclusividade pelo Plenário de activistas.

Responsabilidade – para com o Movimento, em termos do desempenho e execução das funções ou actividades para os quais tenha sido escolhido e aceitado participar.

Transparência – no seu funcionamento interno, nomeadamente quanto às formas e estruturas mais adequadas e eficientes para, em cada momento, dar corpo às linhas de orientação e actuação definidas em Plenário de activistas.